Promessa do Fortaleza, goleiro de 10 anos encara 600 km para seguir sonho no futsal
Atleta de 10 anos viaja semanalmente de Carnaubais, no Rio Grande do Norte, à capital cearense
Todas as segundas-feiras, o roteiro se repete para João Fernando, jovem goleiro de futsal em formação. Com a mochila cheia de sonhos e a estrada repleta de desafios, o menino de apenas 10 anos vem se transformando em um exemplo de dedicação no futsal de base.
Ao lado do pai, ele percorre cerca de 600 quilômetros, entre ida e volta, para treinar no Fortaleza. Morador da cidade de Carnaubais, no Rio Grande do Norte, ele viaja aproximadamente 10 horas para treinar no Leão, em uma viagem marcada pelo cansaço e por uma logística que exige organização da família. Ainda assim, nada disso diminui a determinação do jovem potiguar em seguir treinando e buscando espaço no clube leonino.
"Minha preparação para o treino começa ainda no domingo. Eu organizo todos os meus materiais, preparo o uniforme e deixo tudo arrumado dentro da bolsa. Aí eu durmo cedo porque sei que no dia seguinte será muito longo", narra João em suas redes sociais a sua rotina de treino.
Início
A primeira oportunidade surgiu longe dos grandes centros. João começou no Projeto Social Resgate, idealizado pelo próprio pai, que atua na captação de talentos em Carnaubais, sua cidade natal.
Em novembro de 2024, um convite do Projeto Meninos da Terra, de Areia Branca (RN), levou o jovem goleiro e um grupo de atletas para uma avaliação no Fortaleza. Foi nesse momento que o garoto chamou atenção e acabou aprovado para integrar o processo de formação do Tricolor.
Percalços da estrada
Apesar do vínculo com o Fortaleza, a família optou por permanecer em Carnaubais. A decisão é estratégica, visando à estabilidade financeira e à manutenção das atividades profissionais dos seus pais. Por isso, a solução encontrada foi encarar a estrada semanalmente.
A rotina, no entanto, não é nada fácil. A viagem é feita no formato bate-volta, acontecendo no mesmo dia. Por volta das 9h, ele e seu pai saem do Vale do Açu e chegam a Fortaleza às 14h. Após o treino, o retorno acontece imediatamente.
“Saímos de Carnaubais sempre cinco ou seis horas antes do início das atividades. Fazemos algumas paradas no caminho, principalmente para almoçar, e chegamos com antecedência. Assim que o treino termina, já pegamos a estrada de volta”, relatou Wanderson Praxedes, pai do atleta e professor de 46 anos.
Durante o segundo semestre do ano passado, as viagens precisaram ser interrompidas por dificuldades financeiras. Com o apoio de pessoas próximas, a rotina foi retomada, mantendo firme o compromisso com o sonho do jovem atleta.
Entre o futsal e os estudos
Atualmente, a base do Fortaleza vive um processo de transição entre futsal e futebol. João participa apenas dos treinos da modalidade de quadra, já que não consegue comparecer aos demais dias da semana. Para compensar, mantém uma rotina com treinamentos complementares em sua cidade.
Mesmo com a agenda intensa, o goleiro consegue equilibrar a vida esportiva com os estudos. Com o acompanhamento dos pais, mantém bom desempenho escolar, sendo um dos destaques da turma.
Toda essa rotina é compartilhada nas redes sociais. As viagens e os treinos são acompanhados por amigos, familiares e até desconhecidos, que ajudam a formar uma corrente de apoio que ultrapassa qualquer distância.
O acaso que virou escolha
A posição de goleiro surgiu por acaso. Inicialmente jogador de linha, Fernando foi para o gol em uma ocasião de necessidade. Pelo seu desempenho debaixo das traves, ele não saiu mais. Hoje, a função é assumida com tranquilidade.
“Tudo começou quando faltou um goleiro e ele foi para a meta. Depois desse dia, ninguém quis deixá-lo sair. Ele tomou gosto pela posição”, relata o pai
Sem passagens por outros clubes, o jovem já começa a colher os primeiros frutos da visibilidade. Desde que chegou ao Fortaleza, tem sido procurado por equipes do Oeste Potiguar para disputar competições, o que reforça o impacto da oportunidade no Tricolor.
"João é um menino dedicado e esforçado. Não é toda criança que demonstra tamanha força de vontade para viajar mais de 600 quilômetros e conseguir treinar. Ele é um goleiro ágil, com boa reposição de bola. Apresenta também um grande potencial de evolução no Fortaleza", destacou André Luis, técnico do sub-10 do clube.
Mais do que quilômetros percorridos, a história de João Fernando é marcada por persistência, apoio familiar e um sonho que segue em construção pelas estradas do Ceará e do Rio Grande do Norte.