Craque do sertão: Aos 40 anos, Juninho Quixadá se prepara para encerrar carreira no clube onde começou
Atacante é o atleta mais experiente do Cearense de 2026
No passo cadenciado, com a calma de quem conhece bem o chão onde pisa, Juninho Quixadá atravessa o campo do Estádio Abilhão de chinelos. São três da tarde e tudo ao redor é familiar: o calor de 36ºC, a vizinhança, a bola. Natural da cidade que leva no nome, o atacante retornou ao Canarinho do Sertão, onde iniciou a carreira, para se despedir dos gramados. Único jogador do Campeonato Cearense de 2026 na faixa dos 40 anos, ele quer fechar mais um ciclo da vida com a permanência da equipe na elite do estadual e reforçar a relevância dos times do interior para o futebol local.
Minha carreira, minha vida, minha infância
Para Juninho, vestir a camisa do Quixadá é mais do que o esporte mostra: é carregar identidade, história e representatividade. Nascido e criado na terra da Pedra da Galinha Choca, patrimônio natural do município do sertão central cearense conhecido pelos monólitos, deu os primeiros passos na modalidade nas ruas próximas ao estádio. Em 2005, cruzou as quatro linhas para vestir a camisa auriazul.
“Eu morava aqui atrás, agora estou do outro lado. Morei em vários lugares do mundo graças a Deus, à minha carreira, mas sempre vinha para cá. Minhas férias com a família foram aqui. Não tem como não lembrar. O pessoal vem conversar para relembrar os momentos. Realmente estou passando por um momento especial e está sendo melhor do que eu imaginava. Só tenho que agradecer a Deus por isso”, afirmou sorrindo ao recordar.
Juninho ficou no Quixadá até 2007 e voltou. Está na quarta passagem pelo clube. Também passou por diversos outros clubes cearenses: Atlético, Baturité, Ceará, Ferroviário (onde conquistou os dois títulos da Série D), Horizonte, Maracanã, Tiradentes (CE) e Tirol. Também defendeu o Bragantino até migrar para a Bulgária, em 2011.
Foram sete temporadas vestindo a camisa do Ludogorets Razgrad, com nove títulos: sete da Liga Búlgara e dois da Taça da Bulgária. Para ele, a partida mais marcante foi contra a Lazio, pela Europa League, quando marcou o gol da classificação da equipe. No período em que esteve por lá, o jogador enfrentou grandes nomes do futebol mundial na Champions League, como Cristiano Ronaldo, Lampard e Philippe Coutinho. Quixadá também vestiu as camisas de Vitória, ABC e Fluminense-PI até retornar para casa.
O carinho pelas equipes que a gente passa é grande. Principalmente Ferroviário e Ceará, que eu tive conquistas e coisas marcantes. Mas o Quixadá é o início de tudo, onde a gente jogava bola aqui atrás, a gente ficava na arquibancada torcendo. Não tem como não dizer que o Quixadá é o time do coração. O único time de verdade que eu torcia era o Quixadá. Marcou minha carreira, minha vida, minha infância. E não tenho vergonha de dizer. Já falei várias vezes que queria encerrar minha carreira aqui e Deus está me dando essa oportunidade”, ressaltou o atleta apontando na direção dos muros do Abilhão.
Aproveitar cada segundo
A identificação não poderia ser mais forte. O jogador exibe as raízes no nome. A adição do Quixadá veio depois de uma tentativa de ajudar na identificação do atleta no período em que ele defendia o Massa Bruta.
“No Bragantino tinham muitos Juninhos. Aí ficou Juninho Bahia, Juninho Mineiro... Tentaram colocar Juninho Fortaleza. Na época eu tinha saído do Ferroviário. Aquilo não ficou legal. Falamos com o pessoal do marketing, eles aceitaram e coloquei o nome de Juninho Quixadá. Pelo menos, vão saber que sou eu. Foi uma coisa boa que pegou. Aleatoriamente. A ideia era ter o nome da cidade, mas aí ganhou uma dimensão que não imaginei”, relembrou.
Ele é o único atleta com 40 anos ou mais em atividade no estadual deste ano e decidiu deixar a profissão ao final da agenda do time. Apenas Rogério, do Iguatu, vai alcançar a marca este ano, em maio. Numa carreira com prazo de validade, nomes como CR7, que tem a mesma idade do quixadaense, testam os limites do corpo. Depois de tentar pendurar as chuteiras duas vezes, o camisa 10 do Canarinho vê no craque do Al-Nassr e da Seleção Portuguesa uma inspiração.
“Comparo muito com o Cristiano Ronaldo esse sentimento. Quando me apresentei, conversei com o grupo, para que eles aproveitassem o momento. Passa rápido. E hoje estou sentindo um pouco do que o Cristiano sente lá. Cada treino, cada jogo, é especial. Fazemos de tudo para estar aqui, para não perder nada. Mais novo, a gente não se importa muito. Às vezes vinha por vir, dava um migué para não viajar ou treinar. E hoje é totalmente diferente. Estou tentando aproveitar cada segundo, cada detalhe para que possa ficar marcado. Que seja um ano abençoado”, ressaltou.
“A idade vai chegando e precisa fazer muito mais do que era feito. A gente que é mais velho tem que treinar mais para que o corpo não relaxe e consiga suportar toda a intensidade de trabalho não só durante a semana, mas durante o jogo. É o que a gente vem procurando fazer. Se quer estar aqui dentro, tem que fazer por onde”, completou o camisa 10.
Deus vai me dar essa felicidade
O Canarinho do Sertão voltou à Série A do Cearense após dez anos, ao garantir o vice-campeonato da Série B de 2025. O clube, fundado em 1965, havia encerrado as atividades por questões financeiras e ficou oito anos inativo até retornar em 2024. O atleta credita o ressurgimento à atual diretoria do clube. Gente que cresceu junto com ele.
“Não tem como não agradecer o trabalho do presidente Bruno, do vice Juninho, do treinador Juranilson... São todos amigos de infância. Começamos juntos aqui. Temos que parabenizar pela coragem deles de assumirem um clube que estava totalmente apagado. Os desafios são grandes. E, graças a Deus, vem dando muito certo”, destacou o jogador.
A equipe é vice na tabela do Grupo A da competição, com quatro pontos somados. Empatou com o Horizonte na primeira rodada e venceu o Maracanã na segunda. O atacante está na expectativa para balançar as redes. Ele entrou em campo nos dois jogos e pode ter nova oportunidade no sábado, diante do Fortaleza.
Creio que Deus vai me dar essa felicidade de poder marcar pelo menos um golzinho nesse meu retorno para o Quixadá. Que a gente possa, além do (meu) gol, permanecer. Esperar aí se Deus vai me dar esse presente.
Metade das quatro décadas de vida foi dedicada ao futebol. O olhar calmo também é fruto da experiência. Depois de rodar o mundo, o camisa 10 amadurece os planos do que fazer após deixar a carreira de jogador, mas faz mistério. Há quem diga que ele deveria ser treinador, mas Juninho avalia a possibilidade como algo difícil.
A saudade bate à porta a cada apito final. Craque do sertão, Quixadá entra em campo para o jogo enquanto se despede dele. O atacante carrega o nome da cidade na certidão de nascimento, na camisa, no futebol. Leva história e deixa marcas do quanto o esporte abre caminhos e pode ser representativo. Ele sabe disso.
Num contexto geral, de time, de cidade, de sertão... É algo muito especial. Pela dificuldade que temos, por ser interior. Várias equipes do interior, que eram tradicionais, hoje praticamente acabaram. Então, a gente olha hoje para o Quixadá, que tem uma história e passou por momentos difíceis, de novo na elite. Volta a movimentar a cidade e esse povo aqui, que já é sofrido. Então, temos mais alguns momentos de prazer e de lazer. Ficamos muito felizes em disputar a competição.