15 de agosto: uma padroeira e muitos nomes

A figura de Maria está entranhada em nossa cultura

Escrito por
Maria Camila Moura verso@svm.com.br
Legenda: Mesmo para quem não partilha da crença dos que celebram a padroeira, a Assunção se apresenta a todos nós como um convite de olhar para o alto
Foto: Shutterstock/Angelo DAmico

Feriado em Fortaleza. Dia de celebrar a padroeira da cidade, Nossa Senhora da Assunção. Sua imagem é conhecida até por aqueles que não são religiosos – Maria, em corpo e alma, sendo elevada ao céu.

A data de hoje, 15 de agosto, também reverencia outra figura feminina, considerada sagrada por muitos, Iemanjá. Apesar de estarem inseridas em tradições culturais e religiosas distintas, ambas ocupam um espaço privilegiado no imaginário popular.

De certo modo, isto nos revela que por trás de crenças e ritos tão diferentes, parece existir os mesmos impulsos humano: a alegria de reverenciar quem acreditamos nos proteger e acolher; e nossa inclinação, quase instintiva, de buscar abrigo no colo materno - ainda que simbólico, ainda que já sejamos adultos formados, com colos para oferecer a nossas próprias crianças.

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A figura de Maria está entranhada em nossa cultura. Para alguns, a devoção à Nossa Senhora da Assunção é dogma; para outros, tradição; e para muitos outros, apenas narrativa simbólica.

No entanto, não é preciso crer para reconhecer sua força cultural. Maria habita não apenas altares, mas também pinturas, músicas, nossa memória coletiva e até identidades.

Maria é o nome mais comum no Brasil. No Ceará, no ano passado, entre os cinco nomes mais registrados em cartórios, três eram Maria (Maria Cecília, Maria Alice e Maria Isis). E mais: dos dez nomes de meninas mais registrados no Ceará, oito iniciam com Maria.

Ainda assim, hesitei antes de escrever estas linhas. Curiosamente, não sentiria o mesmo ao falar sobre Zeus, Afrodite ou qualquer outra divindade da mitologia grega. Mas, ao trazer uma figura bíblica, sinto certo desconforto.

Talvez este mal-estar seja efeito do sequestro de símbolos religiosos em disputas políticas - usados, tantas vezes, como instrumentos de exclusão e manipulação.

Talvez, porque falar de Maria é falar de algo que me atravessa pessoalmente e este não é o espaço para questões pessoais. Para mim, é fácil evocar deuses distantes, já Maria me obriga a pensar duas vezes. Ainda assim, vamos em frente.

A devoção à nossa padroeira é herança de um tempo colonial que moldou, assim como feriu, nossas terras e povos originários. Tantos anos depois, Nossa Senhora da Assunção tornou-se parte indissociável da identidade local.

É homenageada em orações, canções e na tradicional “Caminhada com Maria, Mãe da Esperança”, que chega hoje à sua 23ª edição e, há dez anos, é reconhecida como patrimônio imaterial brasileiro, mobilizando multidões, segundo os organizadores, mais de um milhão de pessoas caminham juntas, a cada ano, pelas ruas de Fortaleza.

Na leitura católica, a Assunção remete a um dogma central - Maria, ao fim da vida, eleva ao céu em corpo e alma, não por suas forças, mas por Deus. Na psicologia analítica, Maria encarna o arquétipo da Grande Mãe - sendo associada a uma função psíquica integradora, uma figura que reconcilia opostos. Na cultura popular, ganha várias faces.

A Assunção pode ser lida como símbolo da condição humana - a possibilidade de elevação do ponto onde estamos para um horizonte que parecia inalcançável; a ideia de elevação como resultado de um caminho percorrido com dignidade; o desejo ao que transcende o peso da rotina e dos dias.

Assim, mesmo para quem não partilha da crença dos que celebram a padroeira, a Assunção se apresenta a todos nós como um convite de olhar para o alto, um lembrete esperançoso de que é possível transcender o desencanto e peso dos dias e da vida.

E, em tempos de exaustão coletiva, essa simples ideia de que podemos nos elevar (não no sentido literal, mas existencial), já é, por si só, uma dose de ânimo.

Hoje, ao pensar nas ruas de Fortaleza tomadas por fé e festa, imagino que, simbolicamente, cada um carrega consigo a esperança de sua própria 'Assunção', um desejo íntimo de viver o momento de libertar-se do que aprisiona e se elevar para algo maior. Hoje, é dia de Maria – e, curiosamente, minha mãe também se chama Maria.

Eu mesma também compartilho deste nome. Talvez, no fundo, meu desconforto ao escrever estas linhas não tenha motivações políticas, mas por sentir, em meu íntimo, que ao falar dela, inevitavelmente, falo de nós.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora

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