Cearense Silvana Lima, chega ao topo do surfe mundial e traz ouro para o Brasil
Filha de barraqueira de praia e de um pescador, sua primeira “prancha” foi uma tábua de madeira.
As ondas do mar de Paracuru levaram a cearense Silvana Lima, de 41 anos, à conquista da medalha de ouro no último domingo (3), nos Jogos Pan-Americanos de Surf, realizados em Playa Venao, no Panamá.
Filha de uma barraqueira de praia e de um pescador, a caçula de quatro irmãos conta que “não tinha prancha, não tinha dinheiro pra nada.” Com uma tábua de madeira, surfou as primeiras ondas rumo à profissionalização.
Da tábua de madeira ao surfe mundial
Nascida e criada em uma barraca à beira-mar em Paracuru, Silvana teve sua primeira prancha de surfe aos 14 anos, ainda assim, uma prancha de segunda mão. Foi em 2002 que uma maré de sorte encontrou o talento da atleta.
O shaper (fabricante de pranchas) carioca Udo Bastos, mantinha um alojamento no Rio de Janeiro com seu sócio, Thiago Cunha, para receber surfistas do Nordeste e procurou Silvana Lima após muita insistência do surfista cearense Lucinho Lima.
“O Lucinho ficava sempre me falando da Silvana: ‘Ela destrói as ondas, você tem que trazer ela para cá. Investe nessa atleta, cara. Nenhuma mulher surfa como ela’. Ele passou meses falando isso, e acabou despertando minha curiosidade”, relembra Udo.
A partir disso, Udo passou a investir na profissionalização de Silvana e a levou para o Rio de Janeiro, em 2002.
Silvana relata que, ao deixar o Ceará, disse à mãe: “Mãe, eu estou indo para comprar uma casa para a senhora”. E cumpriu a promessa. “Tirei minha mãe da beira da praia.”
Silvana relembra que o sonho da família era simples: “A gente sonhava em ter vizinhos e morar mais próximo do centro”. Ela ainda ressalta que, apesar das dificuldades, não mudaria nada de como foi escrita sua história.
Se fosse pra mudar alguma coisa na minha vida, eu não mudava nada. Do jeito que foi escrito foi maravilhoso, com perrengue e dificuldade, e eu não quero apagar, e cada dificuldade é uma força que me faz crescer cada vez mais, então sou muito grata por toda a minha infância.
Hoje, a surfista coleciona títulos como a representação do Brasil no surfe feminino nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, bi-campeã mundial em 2007 e 2008 e seis vezes campeã brasileira.
Paracuru recebe campeã com Carreata e Orquestra
A recente conquista nos Jogos Pan-Americanos de Surf fez com que a população de Paracuru recebesse a atleta de forma calorosa, com direito a carreata, orquestra e muitos moradores orgulhosos da maneira como Silvana leva a cidade mundo afora.
"Foi desse pedacinho de Paracuru que essa mulher saiu" Foi assim que o amigo Samuel Barroso (40) se referiu à surfista quando ela retornou ao município.
Ao Diário do Nordeste, Silvana descreveu a emoção da recepção:
Foi uma surpresa incrível. Dessa vez eu não consegui descobrir de forma nenhuma. Pude rever toda a minha galerinha, muita gente da minha infância, e estar junto com eles comemorando essa vitória foi maravilhoso. E ainda poder dar exemplo para a nova geração, mostrar para todas as crianças que a gente pode realizar nossos sonhos.
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"A uma onda" das Olimpíadas de Los Angeles 2028
Vencer os Jogos Pan-Americanos de Surf é parte essencial do circuito classificatório para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028. A medalha de ouro conquistada por Silvana no PASA 2026 colocou a cearense em posição de destaque na corrida olímpica.
Caso nenhuma brasileira conquiste vaga direta nos Jogos Pan-Americanos de 2027, Silvana pode assumir uma posição privilegiada no ranking continental das Américas, aumentando as chances de convocação para os principais eventos classificatórios da ISA (Associação Internacional de Surfe).
“Quem ganha ouro tem um pezinho ali, mas ainda tem outro PASA no ano que vem. Então, se outra brasileira ganhar o ouro, acaba me tirando dessa vaga. Se nenhuma atleta brasileira ganhar ouro, eu já fico classificada por esses Jogos Pan-Americanos em 2027. Em Lima, quem conquista o ouro garante vaga para as Olimpíadas de Los Angeles”, explicou Silvana.
Próximos Passos
A passagem de Silvana pelo Ceará foi rápida. Ela já está em Recife para participar do Circuito Nordestino de Surfe Profissional, realizado em Porto de Galinhas, e, ainda este mês, participará do Circuito Brasileiro Profissional. “São duas etapas super importantes, tem muita coisa pra acontecer ainda este ano.”