Análise aponta trio dominante no Brasil e surgimento de "novos grandes", como Ceará e Fortaleza

Ceará e Fortaleza estão em um grupo de emergentes que demonstraram forças para rivalizar com adversários vencedores no passado

Legenda: Ceará e Fortaleza mostram força no cenário do futebol brasileiro
Foto: Pedro Chaves/FCF

A 11ª edição da Análise Econômico-Financeira dos Clubes Brasileiros de Futebol, feita pelo Banco Itaú, mostrou que o cenário do principal esporte do País poderá mudar em um futuro próximo. Com os dados obtidos em 2019, o domínio começará a ser daqueles que entenderam que o equilíbrio e a gestão eficiente são partes necessárias para o dentro de campo, superando o grupo que ainda vive no século passado, repetindo velhas e mal sucedidas práticas.

Athletico-PR, Bahia, Fortaleza, Ceará e Goiás demonstraram forças para rivalizar com adversários vencedores no passado, mas que buscam apenas atitudes pontuais para conseguirem resultados imediatos, somam gastos excessivos e inúmeras dívidas que jamais são pagas, como o Vasco, Botafogo, Fluminense e o Cruzeiro, seguidos de perto por Corinthians, São Paulo, Internacional, Atlético Mineiro e Santos.

O estudo destacou que no Ceará, os pontos positivos foram crescimento de receitas,  diversificação delas e manutenção das dívidas em montantes baixos. Como alerta, os custos lastreados em venda de atletas.

"O Ceará exemplifica bem esta situação. Positivamente consegue se manter na Série A mesmo com orçamento limitado e dificuldades, mas positivamente de maneira financeiramente equilibrada. Números bons, baixo endividamento, investimentos dentro de suas possibilidades. Há ainda um aspecto importante que é o envolvimento do torcedor, que responde por uma bom pedaço das receitas (23%), a segunda maior do clube. Claro que há desafios, como o de conseguir receitas recorrentes mais fortes e gastar mirando nelas. Isto tende a deixar o clube mais robusto e evita situações de desequilíbrios momentâneos que se perpetuam. É preciso continuar com os pés-no-chão, jogando junto com o torcedor e buscando soluções que permitam maior eficiência no uso do dinheiro. Ao ver equipes de presença nacional em dificuldades, surge uma enorme oportunidade para que o clube se solidifique e permaneça de forma sustentável na elite do futebol brasileiro", explica o estudo.

No Fortaleza, os destaques foram o crescimento de receitas e dívidas baixas. Como alerta, é preciso trabalhar com mais folga de geração de caixa.

"O Fortaleza apresenta situação equilibrada. Trata-se de um clube que tem poucas dívidas, equacionadas, que tem boa diversidade de receitas e depende menos que a média da TV. Mas vive de maneira justa, com pouca geração de caixa, e isso deixa menos margem na hora de enfrentar problemas. A intenção é clara, pois o clube precisa investir no máximo que seus limites permitem para ser capaz de competir com outros que fazem mais receitas. Mas há que ter cuidado para não deixar essa necessidade ultrapassar os limites. Em 2019 o resultado esportivo foi bom, o que mostra que a estratégia funcionou. Mas é preciso estar atento. A tendência é de ocupar espaço que antes era dominado por clubes de maior presença nacional. A gestão equilibrada permite pensar nisso. Em 2020 a situação apresenta um desafio que é conseguir se financiar de maneira eficiente. Hoje o clube depende de mútuos de sócios, mas o ideal é buscar autonomia financeira para se financiar com prazos longos e estrutura estável, criando reconhecimento no mercado de sua gestão. O caminho está sendo construído, de forma segura. Esperamos que os passos continuem a serem dados de acordo com o tamanho das pernas", explicou o estudo.

O trio que logo compreendeu que a organização e o equilíbrio financeiro são a chave para um futuro vencedor é formado por Flamengo Grêmio e Palmeiras. Apesar das formas diferentes de administração, os três vão atrás da sustentabilidade do clube.

Outra forma que ameaça os clubes que vivem no século passado, segundo o documento, é o clube-empresa implementado no Bragantino, campeão da Série B do Brasileiro no ano passado, e candidato a substituir algum grande que perca a majestade.

Segundo a análise do Itaú, ganhador de quatro dos últimos cinco títulos brasileiros, o futebol paulista tem apenas o Palmeiras com uma boa administração. O alviverde perdeu eficiência em relação a 2018, teve redução de receitas e geração de caixa, aumento de dívidas e manutenção dos elevados investimentos. Tanto é que a decisão do clube foi de reduzir custos e ajustá-los a uma realidade mais austera em 2020. "Mesmo com desafios, tudo certo com o Palmeiras", apontou o estudo. "Ainda assim trata-se de uma estrutura forte, sustentada por um bom leque de receitas e com possibilidades reais de redução de custos e despesas."

O arquirrival Corinthians vive momento totalmente distinto. "Desastre à vista." Este foi o título do relatório para exemplificar o momento vivido pelo time de Parque São Jorge. "O ano de 2019 foi desastroso para o Corinthians sob o ponto de vista financeiro. E não foi um acaso nem o primeiro da série. O problema está nos custos e despesas, que seguem crescendo em ritmo alucinante. E isto força o clube a buscar solução na venda de atletas. E este é um roteiro típico daqueles filmes de catástrofe: tudo está bem quando tudo está bem. Daí, no ano em que não há vendas relevantes de atletas, pronto, a situação desanda."

O São Paulo "vive há dez mil anos". "Em 2019, o São Paulo resolveu não apenas repetir os erros comuns a tantos clubes, como aumentou a carga. Foi um clube que aumentou substancialmente suas dívidas, ficou longe de resultados esportivos relevantes, cometeu tantos velhos erros das gestões do futebol, e ainda foi incapaz de alavancar as receitas recorrentes. O futebol gasta, o marketing olha e o financeiro corre para tentar pagar as contas. Era assim na época da bola de capotão. Hoje não dá mais."

Já o Santos manteve a aposta de conseguir equilibrar as finanças com a venda de jogadores. "O Santos precisa entender que há limites de gastos e investimentos, e que a venda de atletas não pode ser o pilar. E então vem o desafio de fazer mais receitas recorrentes, seja em patrocínio, seja em relacionamento direito com os torcedores."

No Rio, a desigualdade entre os clubes deverá ser maior ainda em 2020, com o Flamengo não tendo "nem sinal no retrovisor" de algum adversário, enquanto o Fluminense tem uma "tempestade à vista", o Botafogo com um futuro "dramático" e o Vasco com chances cada vez menores de sair de sua eterna crise.

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