"Era para ser ele". É assim que Vanessa Pinheiro, de 28 anos, descreve a jornada dela e do companheiro, Talvany Pinheiro, de 34, para adotar o primeiro filho: um adolescente chamado João, hoje com 17 anos, que já havia perdido a esperança de encontrar um lar. A história dessa família não começa com um exame de gravidez positivo, mas em uma quadra esportiva de uma instituição de acolhimento em Fortaleza.
Mesmo sendo saudável e tendo a possibilidade de engravidar, a adoção era um desejo do casal de corretores de imóveis desde o início do relacionamento, que já dura 12 anos. Então, em outubro de 2024, os dois entraram na fila do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA). A princípio, eles buscavam por uma criança com idade de 0 a 6 anos, que é o perfil mais desejado entre os pretendentes ativos no Ceará, conforme o SNA.
Inclusive, é a imagem de um casal adotando um bebê ou uma criança jovem que alimenta o imaginário popular, embora a faixa etária corresponda a apenas 24,4% das crianças disponíveis para adoção no Estado. Contudo, em maio do ano passado, Vanessa e Talvany abriram mão do perfil para adotar um adolescente, juntando-se à minoria de pretendentes que querem acolher algum dos 69 jovens com mais de 14 anos que estão nos acolhimentos cearenses.
Para isso, enfrentaram o estigma envolvido na adoção tardia. “O preconceito sempre vai existir, seja criança ou mais velho, mas nunca tivemos medo”, enfatiza a corretora ao Diário do Nordeste, ressaltando a importância de desmistificar a ideia de que esses adolescentes “têm o caráter formado”. “O meu filho é um menino extremamente carinhoso, amoroso e altamente inteligente. Era muito carente, esperou por uma família e não tinha esperança”, detalha.
Ensinar a ser cuidado e que estava em um ambiente seguro foi outro desafio enfrentado pelo casal ao adotar um adolescente. Mas, com diálogo e paciência, os dois conseguiram aprofundar os laços da família. Um dos momentos que marcou esse desenvolvimento aconteceu quando o garoto chamou Vanessa de mãe pela primeira vez.
“Ele me chamava muito de tia. Tentava um ‘mãe’, só que aquele ‘mãe' por título. Até porque ele nunca teve essa presença feminina”, recorda ela, destacando que o jovem teve mais contato com cuidadores homens durante o período de acolhimento institucional, o que justificaria o fato dele ter chamado Talvany de pai antes.
Quando ele ficou doente, comecei a cuidar dele. Então, numa madrugada, fui olhar a febre dele enquanto estava meio dormindo, e ele falou: ‘Mãe, estou bem. Pode ir dormir.’ Respondi: ‘Não, pode ir dormir, filho, a mãe está só vendo se você está sentindo alguma coisa.’ E ele: ‘Está certo, mãe. Eu amo a senhora.’ Nesse dia, foi a primeira vez que senti um ‘mãe', ‘mãe’ mesmo.”
Posteriormente, o adolescente revelou à mãe que, antes da adoção, não sabia que aquele tipo de desconforto era febre. “‘Eles não cuidavam da gente como a senhora cuidou de mim’”, contou o garoto, conforme relembra Vanessa.
Outro momento que marcou o estreitamento da relação entre a família aconteceu quando João ainda não morava com os pais e passava apenas os fins de semana com eles. “A gente é homem, fala menos. Nessa época, ele vinha feliz, mas, quando chegava o domingo, ia ficando mais calado, quieto. Acredito que era porque ele tinha que voltar para o acolhimento”, recorda Talvany.
Ele sempre me abraçava. Mas teve um dia em que, para se despedir, ele me abraçou muito forte. Acho que o que pegou nele foi o medo de a gente o deixar. Aí, falei: ‘Vai dar tudo certo. Na sexta-feira, venho aqui pegar você de novo.’ Naquele momento, senti que eu era pai dele. Foi um divisor de águas.”
Adolescente tinha perdido a esperança de ser adotado
João chegou ao sistema de acolhimento de Fortaleza com menos de um ano. O longo período de permanência dele é incomum. Segundo dados deste ano do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o tempo médio de desacolhimento na Capital é de 299 dias — independentemente do motivo —, o número é menor que o nacional, de 722 dias.
A lei atual busca evitar que situações como a do adolescente se repitam, como explica o promotor de Justiça da 77ª Promotoria de Justiça de Fortaleza do Ministério Público do Ceará (MPCE), Luciano Tonet. “Hoje, a legislação determina que, da entrada da criança no acolhimento até a saída, não pode ultrapassar 1 ano e meio. Então, tudo deve ser feito o mais rápido possível nesse prazo de 18 meses.”
Depois de 16 anos acolhido, o garoto não tinha mais esperanças de ser adotado. No entanto, em maio de 2025, a visita de um grupo de voluntários do Coletivo de Pais e Pretendentes à Adoção (COPPA), do qual Talvany e Vanessa integram a diretoria, mudou o futuro de João.
“A gente não foi de maneira nenhuma com a mente de procurar nosso filho”, relembra a corretora, que na época ainda estava em busca de uma criança de até 6 anos. Contudo, naquele evento, um jovem bonito, simpático e sociável, então com 16 anos, atraiu o olhar e a atenção da futura mãe.
Com Talvany não foi diferente; o jeito de João também o cativou durante uma partida que disputou com ele e os demais adolescentes na quadra esportiva da instituição. “Gostei dele de cara e criei essa ligação naquele momento, da gente brincando. Quando encerrou a visita e fomos nos despedir, o abraçamos e sentimos um peso, um incômodo, como se estivéssemos o deixando lá”, detalha o corretor.
“Ao ver aquela cena, me deu um ‘start’ na cabeça de que o filho que tanto imaginei, na verdade, era aquela cena: ele brincando com meu marido. Parecia familiar. E, daquele momento em diante, fiquei com ele na minha mente e no coração até o dia em que o adotei”, conta Vanessa.
Do primeiro encontro ao momento em que o casal deu entrada no processo de adoção do garoto, passaram-se três meses. “A gente se preparou muito para ser pais. E, quando decidiu por ele, procuramos muito conversar com outras pessoas que tinham feito adoções tardias”, detalha a corretora.
O desejo do nosso coração era realmente ter ele como filho. Tinha que ser ele. Hoje, convivendo com ele, já morando conosco, a gente tem a certeza de que, desde aquela minha ideia de adotar, aos 13 anos, até hoje, era porque era para ser ele.”
Ao ser comunicado de que Talvany e Vanessa o queriam como filho, João ficou surpreso. “Ele disse que a sensação que teve foi de estranheza, porque achava que nunca seria adotado”, conta a mãe. Após refletir sobre a ideia, o jovem aceitou dar a si mesmo a chance de ter uma família e, então, começou o processo de aproximação entre os três.
Acreditar até o último momento
Desde março deste ano, o adolescente passou a morar integralmente com os pais, no bairro Álvaro Weyne. A experiência dele reacendeu nos colegas de acolhimento, com quem mantém contato pelas redes sociais, a esperança de ainda encontrar uma família.
“A vivência do meu filho gerou curiosidade neles, de como é ter um pai, uma mãe, um quarto só seu. E o meu filho chegou para a gente e disse: ‘Mãe, aceitei que carrego uma responsabilidade de mostrar para eles que tem esperança, até o último momento tem esperança’”, relata Vanessa.
Os planos da família são que, futuramente, o garoto possa reencontrar os amigos. “Todos eles estão esperando um acolhimento. Então, apadrinhe, dê a chance de conhecer. Às vezes você pode, sim, ir ao acolhimento sem querer um filho e sair de lá com ele”, estimula a corretora.
Atualmente, Vanessa e Talvany aguardam os trâmites jurídicos para a sentença final do processo de adoção. “Tudo leva a crer que, antes dele fazer 18 anos, em outubro deste ano, a gente vai estar com a certidão de nascimento”, afirma a mãe. Além de João, o casal planeja adotar pelo menos outras duas crianças.