Temporada de furacões: entenda o que é e por que acontece todos os anos

Saiba como nascem os furacões, quando ocorrem, como são medidos e o que esperar das próximas temporadas.

Escrito por
Lucas Monteiro lucas.morais@svm.com.br
Legenda: O furacão Melissa atingiu as Bahamas em 29 de outubro, depois de devastar o Caribe, deixando 30 mortos ou desaparecidos no Haiti e partes da Jamaica e Cuba em ruínas.
Foto: Ricardo Marky / AFP.

A passagem do furacão Melissa, que atingiu Jamaica, Haiti e República Dominicana, reacendeu o debate sobre o aumento da intensidade desses fenômenos naturais. 

Com ventos que chegaram à categoria 5 — o nível máximo da escala Saffir-Simpson —, Melissa já é considerado o furacão mais violento a atingir o Caribe até hoje, deixando cerca de 40 mortos e um rastro de destruição.

Segundo o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC), o Melissa tocou o solo pela primeira vez no sudoeste da Jamaica, perto de New Hope.

Uma vista aérea mostra edifícios destruídos após a passagem do furacão Melissa, em Black River, St. Elizabeth, Jamaica, em 29 de outubro de 2025.
Legenda: Um pouco enfraquecido, mas ameaçador, o furacão Melissa trouxe ventos fortes e chuvas torrenciais para as Bahamas na última quarta-feira (29), antes de seguir para as Bermudas no final da quinta-feira (30), de acordo com o Centro Nacional de Furacões dos EUA (NHC).
Foto: Ricardo Marky / AFP.

O que é temporada de furacões?  

A chamada temporada de furacões é o período do ano em que as condições atmosféricas e oceânicas favorecem a formação de ciclones tropicais no Atlântico e no Pacífico Nordeste.

As primeiras observações sistemáticas começaram em 1935, quando cientistas instalaram circuitos de monitoramento ao longo do Golfo do México e da costa atlântica. 

Originalmente, o período de observação ia de 15 de junho a 31 de outubro, mas, desde 1965, a temporada oficial passou a ocorrer entre 1º de junho e 30 de novembro.

Imagem de satélite do furacão Helene se aproximando da costa em 26 de setembro de 2024.
Legenda: O furacão Helene atingiu a costa da Flórida, na região de Big Bend, como uma tempestade de categoria 4, no final da noite de 26 de setembro de 2024. Os maiores impactos de Helene foram sentidos no sul dos Montes Apalaches, onde ocorreram inundações severas e sem precedentes, com centenas de mortes e bilhões em danos materiais.
Foto: NOAA / NESDIS / STAR GOES East.

Onde a temporada acontece

Os furacões são ciclones tropicais que se formam no Oceano Atlântico e no Pacífico Nordeste. Fenômenos semelhantes recebem outros nomes conforme a região: tufões, no Noroeste do Pacífico, e ciclones, no Sul do Pacífico e no Oceano Índico.

Essas tempestades se desenvolvem em águas quentes próximas à Linha do Equador, onde a temperatura do mar ultrapassa 26,5°C. O calor e a umidade alimentam o sistema, enquanto as correntes de ar — vindas da África em direção à América — ajudam a organizar o movimento espiralado que dá origem ao furacão.

Imagem do furacão Milton capturada pelo satélite GOES-16 da NOAA em 8 de outubro de 2024.
Legenda: O furacão Milton atingiu a costa perto de Siesta Key às 20h30 (horário de Brasília) da quarta-feira, 9 de outubro de 2024, como um furacão de categoria 3. Ele aproximou-se da Flórida como um furacão extremamente perigoso de categoria 5 antes de encontrar um aumento na intensidade do cisalhamento do vento. Os impactos no centro-leste da Flórida foram significativos, incluindo uma série de tornados que produziu pelo menos 19 tornados confirmados e rajadas de vento com força de furacão que derrubaram árvores e linhas de energia. Muitas casas e empresas foram danificadas.
Foto: Satélite GOES-16 / NOAA.

Como os furacões se formam

De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), a formação de um furacão ocorre em quatro etapas, começando pela evaporação da água quente do oceano. O vapor sobe, resfria e condensa, formando nuvens de tempestade.

"A intensidade depende principalmente da temperatura da superfície do mar: quanto mais quente, mais energia disponível; ventos mais calmos em altitude, que permite o crescimento das tempestades;  presença de umidade na atmosfera, pois o ar seco pode enfraquecer o sistema", diz Lucas Fumegalli, metereologista da Funceme.

Quando os ventos se intensificam e o sistema ganha rotação, ele pode evoluir para uma tempestade tropical — e, em seguida, um furacão.

Imagem do olho do furacão Beryl capturada pelo satélite GOES-16 da NOAA em 1º de julho de 2024.
Legenda: O furacão Beryl se formou na região principal de desenvolvimento do Atlântico tropical profundo em 28 de junho e foi direcionado para oeste por uma grande crista de alta pressão de níveis médios a altos no Atlântico Norte Central e Ocidental. Ele rapidamente se fortaleceu para um furacão de categoria 4, atingindo a ilha de Carriacou, em Granada, em 1º de julho do ano passado, e posteriormente se fortaleceu para uma categoria 5 no leste do Mar do Caribe.
Foto: Satélite GOES-16 / NOAA.

A escala Saffir-Simpson

A Escala Saffir-Simpson classifica os furacões de 1 a 5, conforme a velocidade máxima dos ventos e o potencial de destruição. Criada na década de 1970, ela é usada até hoje para medir a intensidade das tempestades.

Categoria 1

Os ventos variam entre 119 e 152,8 km/h, e as ondas podem atingir até 1,5 metro acima do nível normal do mar.

Esse tipo de furacão pode causar danos leves a moderados, principalmente em telhados, calhas e casas mal ancoradas.

Algumas árvores podem cair, e há risco de inundações em estradas costeiras e pequenos danos em docas.

Categoria 2

Os ventos sopram entre 154 e 177 km/h, com ondas de até 2,4 metros.

Os danos são mais severos: telhados, portas e janelas podem ser danificados, e árvores, placas e docas frequentemente são arrancadas.

A falta de energia elétrica pode ser quase total, com interrupções que duram de vários dias a semanas.

Categoria 3

Nessa categoria, os ventos chegam a 208 km/h e geram ondas de até 3,6 metros.

Há danos estruturais em pequenas casas e armazéns, destruição de folhagens e queda de árvores de grande porte.

Um exemplo é o furacão Sandy (2012), que matou mais de 200 pessoas. Os serviços de eletricidade e abastecimento de água geralmente ficam indisponíveis por dias ou semanas.

Categoria 4

Os ventos variam entre 209 e 251 km/h, e as ondas ultrapassam os 5 metros de altura.

Os efeitos são catastróficos: casas bem construídas podem sofrer graves danos, com a perda de telhados e paredes externas.

O furacão Earl (2016), que causou prejuízos de quase US$ 25 milhões, foi um exemplo dessa categoria. A maioria das árvores e postes é derrubada, deixando regiões isoladas e sem energia por semanas ou meses.

Imagem de satélite do furação Earl.
Legenda: Em 2 de agosto de 2016, Earl era uma tempestade tropical sobre o Mar do Caribe. Posteriormente, em 3 de agosto, Earl atingiu a costa de Belize como um furacão de categoria 1, com ventos de aproximadamente 70 nós (129 km/h).
Foto: NASA.

Em muitos casos, as áreas afetadas tornam-se inabitáveis por longos períodos.

Categoria 5

A categoria mais destrutiva. Os ventos ultrapassam 250 km/h, e as ondas chegam a 6 metros ou mais.

Os danos são devastadores: os telhados de quase todas as casas desabam, estruturas menores podem ser totalmente levantadas pelos ventos, e janelas e portas sofrem destruição severa.

O furacão Beryl (2025), que atingiu o Caribe, é um exemplo recente desse nível de força.

Imagem de satélite infravermelho GOES 16 do furacão Beryl atingindo a costa perto de Mategorda, Texas.
Legenda: Após atingir a costa, o furacão Beryl começou a se mover para nordeste, enfraquecendo lentamente nas horas seguintes.
Foto: Satélite GOES 16 / NOAA.

A maior parte das áreas impactadas torna-se inabitável por semanas ou meses, sem acesso a energia ou água potável.

Comparação Escala Saffir-Simpson

Categoria Velocidade dos ventos Principais impactos
1 119-152 km/h Danos leves em casas e árvores; alagamentos
2 154-177 km/h Danos mais sérios; queda de energia prolongada
3 178-208 km/h Danos estruturais; serviços básicos interrompidos
4 209-251 km/h Destruição grave; apagões duradoutos
5 >250 km/h Devastação quase total; áreas inabitáveis

Imagem do furacão Iota capturada pelo satélite NOAA-20 em 15 de novembro de 2020.
Legenda: Na manhã de 16 de novembro de 2024, a tempestade Iota se intensificou para um furacão de categoria 5, com ventos sustentados de 257 km/h. Iota foi, naquele momento, a 30ª tempestade nomeada, o 13º furacão, o 6º furacão de grande intensidade (categoria 3 ou superior) e a primeira tempestade de categoria 5 da temporada de furacões no Atlântico de 2020, que bateu recordes. É também o furacão de categoria 5 com a formação mais tardia já registrada.
Foto: Satélite NOAA-20 / NOAA.

Ciclone, tufão ou furacão: há diferença?

Apesar dos nomes diferentes, todos são o mesmo fenômeno meteorológico — ciclones tropicais. O que muda é apenas a região do planeta onde se formam.

Imagem comparativa entre o furacão Erin e o ciclone Debbie.
Legenda: Basicamente o mesmo fenômeno, um ciclone apresenta uma pressão mais baixa no seu núcleo, já um furação começa pela força dos seus ventos a partir dos 119 km/h. Na imagem ao lado esquerdo, o furação Erin atingindo a costa da Flórida, e do outro o ciclone Debbie, que se aproximava da Austrália.
Foto: NASA / NOAA / AFP Photo.

Tornados e furacões: qual a diferença

Segundo a Nasa, os tornados são colunas de ar giratórias que se formam sobre a terra, geralmente durante tempestades severas. Já os furacões se desenvolvem sobre o oceano e têm um centro calmo — o chamado olho — com centenas de quilômetros de diâmetro.

Imagem comparativa entre um tornado e um furacão.
Legenda: Enquanto um tornado se forma como um redemoinho de vento em solo, os furacões são grandes tempestades que se formam no oceano e perdem força justamente por chegar a áreas costeiras.
Foto: Josh Edelson / AFP / NASA / NOAA / AFP Photo.

Por que o Brasil é protegido dos furacões

Conforme o NOAA, o Brasil raramente é atingido por furacões porque suas águas dificilmente atingem a temperatura mínima de 27°C necessária para a formação do fenômeno. 

Além disso, o cisalhamento do vento — variação da velocidade ou direção dos ventos em diferentes altitudes — é mais intenso nas proximidades da Linha do Equador, o que impede o amadurecimento dos sistemas.

O único furacão registrado no país foi o Catarina, em 2004, que atingiu Santa Catarina e o Rio Grande do Sul com ventos de até 180 km/h.

A influência do aquecimento global

As mudanças climáticas não aumentam o número de furacões, mas tornam os existentes mais intensos. O aumento da temperatura do ar e dos oceanos favorece ventos mais fortes, chuvas mais intensas e maiores inundações costeiras.

Lucas explica que a emissão de gases poluentes na atmosfera não aumentam necessariamente no número desses fenômenos, mas sim na força e nos impactos causados.

"Estudos recentes tem mostrado que o aquecimento global causa um aumento da temperatura dos oceanos, o que, em tese fornece mais energia para as tempestades. Aumenta a quantidade de chuva. Favorece a ocorrência de furacões de categoria mais elevadas. Além disso, o nível do mar mais alto intensifica o risco de inundações e marés de tempestade nas áreas costeiras", afirma.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que a proporção de ciclones de categoria 4 e 5 deve crescer à medida que o planeta aquece.

Um estudo da World Weather Attribution, sobre o furacão Milton (2024), concluiu que as mudanças climáticas tornaram os ventos 10% mais fortes e as chuvas 20% a 30% mais intensas.

Imagem de um sol forte em evidência.
Legenda: O ano de 2025 já pode ser considerado o mais quente da história, tendo, por exemplo, 57 dias de temperaturas extremas.
Foto: David Gannon / AFP.

Nomes dos furacões: como são escolhidos

Os nomes humanos são usados desde 1953, quando o NHC decidiu adotar uma nomenclatura simples para facilitar alertas e comunicações. As listas seguem ordem alfabética e alternam nomes masculinos e femininos, sendo diferentes para cada região do planeta.

O que esperar das próximas temporadas

De acordo com o Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA, a temporada de 2025 deve registrar de 13 a 19 tempestades tropicais, das quais seis a dez podem se tornar furacões. Desses, até quatro têm potencial para alcançar grandes proporções.

Segundo Lucas, as próximas temporadas tendem a concretizar o risco de furacões rápidos e intensos, com a possibilidade de impactos mais severos em regiões costeiras devido ao aumento do nível do mar.

Especialistas também apontam dois fatores principais para o aumento da intensidade das tempestades: a transição de El Niño para La Niña e as temperaturas recordes da superfície do mar, que oferecem mais energia para a formação dos furacões.

"Estes eventos oceânicos [El Niño e La Niña] podem impactar na intensidade dos sistemas, mas isto também depende também de outras condições complexas de interação entre oceano e atmosfera", finaliza Lucas.

Lucas Fumegalli é bacharel e mestre em meteorologia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Doutorando em meteorologia pelo INPE. Pesquisador / Meteorologista da Fundação Cearense de Metereologia e Recursos Hídricos (Funceme).

 

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