Temporada de furacões: entenda o que é e por que acontece todos os anos
Saiba como nascem os furacões, quando ocorrem, como são medidos e o que esperar das próximas temporadas.
A passagem do furacão Melissa, que atingiu Jamaica, Haiti e República Dominicana, reacendeu o debate sobre o aumento da intensidade desses fenômenos naturais.
Com ventos que chegaram à categoria 5 — o nível máximo da escala Saffir-Simpson —, Melissa já é considerado o furacão mais violento a atingir o Caribe até hoje, deixando cerca de 40 mortos e um rastro de destruição.
Segundo o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC), o Melissa tocou o solo pela primeira vez no sudoeste da Jamaica, perto de New Hope.
O que é temporada de furacões?
A chamada temporada de furacões é o período do ano em que as condições atmosféricas e oceânicas favorecem a formação de ciclones tropicais no Atlântico e no Pacífico Nordeste.
As primeiras observações sistemáticas começaram em 1935, quando cientistas instalaram circuitos de monitoramento ao longo do Golfo do México e da costa atlântica.
Originalmente, o período de observação ia de 15 de junho a 31 de outubro, mas, desde 1965, a temporada oficial passou a ocorrer entre 1º de junho e 30 de novembro.
Onde a temporada acontece
Os furacões são ciclones tropicais que se formam no Oceano Atlântico e no Pacífico Nordeste. Fenômenos semelhantes recebem outros nomes conforme a região: tufões, no Noroeste do Pacífico, e ciclones, no Sul do Pacífico e no Oceano Índico.
Essas tempestades se desenvolvem em águas quentes próximas à Linha do Equador, onde a temperatura do mar ultrapassa 26,5°C. O calor e a umidade alimentam o sistema, enquanto as correntes de ar — vindas da África em direção à América — ajudam a organizar o movimento espiralado que dá origem ao furacão.
Como os furacões se formam
De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), a formação de um furacão ocorre em quatro etapas, começando pela evaporação da água quente do oceano. O vapor sobe, resfria e condensa, formando nuvens de tempestade.
"A intensidade depende principalmente da temperatura da superfície do mar: quanto mais quente, mais energia disponível; ventos mais calmos em altitude, que permite o crescimento das tempestades; presença de umidade na atmosfera, pois o ar seco pode enfraquecer o sistema", diz Lucas Fumegalli, metereologista da Funceme.
Quando os ventos se intensificam e o sistema ganha rotação, ele pode evoluir para uma tempestade tropical — e, em seguida, um furacão.
A escala Saffir-Simpson
A Escala Saffir-Simpson classifica os furacões de 1 a 5, conforme a velocidade máxima dos ventos e o potencial de destruição. Criada na década de 1970, ela é usada até hoje para medir a intensidade das tempestades.
Categoria 1
Os ventos variam entre 119 e 152,8 km/h, e as ondas podem atingir até 1,5 metro acima do nível normal do mar.
Esse tipo de furacão pode causar danos leves a moderados, principalmente em telhados, calhas e casas mal ancoradas.
Algumas árvores podem cair, e há risco de inundações em estradas costeiras e pequenos danos em docas.
Categoria 2
Os ventos sopram entre 154 e 177 km/h, com ondas de até 2,4 metros.
Os danos são mais severos: telhados, portas e janelas podem ser danificados, e árvores, placas e docas frequentemente são arrancadas.
A falta de energia elétrica pode ser quase total, com interrupções que duram de vários dias a semanas.
Categoria 3
Nessa categoria, os ventos chegam a 208 km/h e geram ondas de até 3,6 metros.
Há danos estruturais em pequenas casas e armazéns, destruição de folhagens e queda de árvores de grande porte.
Um exemplo é o furacão Sandy (2012), que matou mais de 200 pessoas. Os serviços de eletricidade e abastecimento de água geralmente ficam indisponíveis por dias ou semanas.
Categoria 4
Os ventos variam entre 209 e 251 km/h, e as ondas ultrapassam os 5 metros de altura.
Os efeitos são catastróficos: casas bem construídas podem sofrer graves danos, com a perda de telhados e paredes externas.
O furacão Earl (2016), que causou prejuízos de quase US$ 25 milhões, foi um exemplo dessa categoria. A maioria das árvores e postes é derrubada, deixando regiões isoladas e sem energia por semanas ou meses.
Em muitos casos, as áreas afetadas tornam-se inabitáveis por longos períodos.
Categoria 5
A categoria mais destrutiva. Os ventos ultrapassam 250 km/h, e as ondas chegam a 6 metros ou mais.
Os danos são devastadores: os telhados de quase todas as casas desabam, estruturas menores podem ser totalmente levantadas pelos ventos, e janelas e portas sofrem destruição severa.
O furacão Beryl (2025), que atingiu o Caribe, é um exemplo recente desse nível de força.
A maior parte das áreas impactadas torna-se inabitável por semanas ou meses, sem acesso a energia ou água potável.
| Categoria | Velocidade dos ventos | Principais impactos |
| 1 | 119-152 km/h | Danos leves em casas e árvores; alagamentos |
| 2 | 154-177 km/h | Danos mais sérios; queda de energia prolongada |
| 3 | 178-208 km/h | Danos estruturais; serviços básicos interrompidos |
| 4 | 209-251 km/h | Destruição grave; apagões duradoutos |
| 5 | >250 km/h | Devastação quase total; áreas inabitáveis |
Ciclone, tufão ou furacão: há diferença?
Apesar dos nomes diferentes, todos são o mesmo fenômeno meteorológico — ciclones tropicais. O que muda é apenas a região do planeta onde se formam.
Tornados e furacões: qual a diferença
Segundo a Nasa, os tornados são colunas de ar giratórias que se formam sobre a terra, geralmente durante tempestades severas. Já os furacões se desenvolvem sobre o oceano e têm um centro calmo — o chamado olho — com centenas de quilômetros de diâmetro.
Por que o Brasil é protegido dos furacões
Conforme o NOAA, o Brasil raramente é atingido por furacões porque suas águas dificilmente atingem a temperatura mínima de 27°C necessária para a formação do fenômeno.
Além disso, o cisalhamento do vento — variação da velocidade ou direção dos ventos em diferentes altitudes — é mais intenso nas proximidades da Linha do Equador, o que impede o amadurecimento dos sistemas.
O único furacão registrado no país foi o Catarina, em 2004, que atingiu Santa Catarina e o Rio Grande do Sul com ventos de até 180 km/h.
A influência do aquecimento global
As mudanças climáticas não aumentam o número de furacões, mas tornam os existentes mais intensos. O aumento da temperatura do ar e dos oceanos favorece ventos mais fortes, chuvas mais intensas e maiores inundações costeiras.
Lucas explica que a emissão de gases poluentes na atmosfera não aumentam necessariamente no número desses fenômenos, mas sim na força e nos impactos causados.
"Estudos recentes tem mostrado que o aquecimento global causa um aumento da temperatura dos oceanos, o que, em tese fornece mais energia para as tempestades. Aumenta a quantidade de chuva. Favorece a ocorrência de furacões de categoria mais elevadas. Além disso, o nível do mar mais alto intensifica o risco de inundações e marés de tempestade nas áreas costeiras", afirma.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que a proporção de ciclones de categoria 4 e 5 deve crescer à medida que o planeta aquece.
Um estudo da World Weather Attribution, sobre o furacão Milton (2024), concluiu que as mudanças climáticas tornaram os ventos 10% mais fortes e as chuvas 20% a 30% mais intensas.
Nomes dos furacões: como são escolhidos
Os nomes humanos são usados desde 1953, quando o NHC decidiu adotar uma nomenclatura simples para facilitar alertas e comunicações. As listas seguem ordem alfabética e alternam nomes masculinos e femininos, sendo diferentes para cada região do planeta.
O que esperar das próximas temporadas
De acordo com o Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA, a temporada de 2025 deve registrar de 13 a 19 tempestades tropicais, das quais seis a dez podem se tornar furacões. Desses, até quatro têm potencial para alcançar grandes proporções.
Segundo Lucas, as próximas temporadas tendem a concretizar o risco de furacões rápidos e intensos, com a possibilidade de impactos mais severos em regiões costeiras devido ao aumento do nível do mar.
Especialistas também apontam dois fatores principais para o aumento da intensidade das tempestades: a transição de El Niño para La Niña e as temperaturas recordes da superfície do mar, que oferecem mais energia para a formação dos furacões.
"Estes eventos oceânicos [El Niño e La Niña] podem impactar na intensidade dos sistemas, mas isto também depende também de outras condições complexas de interação entre oceano e atmosfera", finaliza Lucas.
Lucas Fumegalli é bacharel e mestre em meteorologia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Doutorando em meteorologia pelo INPE. Pesquisador / Meteorologista da Fundação Cearense de Metereologia e Recursos Hídricos (Funceme).