Nova variante do coronavírus, Gama plus é identificada no Brasil

Pesquisadores indicam que, em tese, a nova versão da cepa Gama é parecida com a Delta, que surgiu na Índia neste ano

Partícula do SARS-CoV-2
Legenda: Segundo o estudo, a variante apresenta uma substituição do aminoácido presente na "coroa" do vírus, chamado de prolina, por outro, a histidina
Foto: NIAID

Cientistas brasileiros identificaram uma versão mais transmissível da variante Gama do coronavírus — originalmente encontrada em Manaus em janeiro deste ano. A cepa, chamada Gama plus, foi descrita em um estudo realizado pelo projeto de vigilância genômica Genov, da Dasa. As informações são do portal R7

Segundo a análise científica, a variante apresenta uma substituição do aminoácido presente na "coroa" do vírus, chamado de prolina, por outro, a histidina. 

"A gente chama de Gama plus quando uma mutação que ela adquiriu acontece em alguma posição do genoma do vírus que indica algo de risco. Essas Gama plus têm uma mutação em um sítio de furina que é muito importante para a infecção viral na célula e que é uma mutação que já foi vista tanto na variante preocupação Alfa [Reino Unido] quanto na variante indiana [Delta]"
José Eduardo Levi
coordenador do Genov e virologista da Dasa

O pesquisador ainda acrescente que "é certo" que essa nova versão torna a cepa Gama plus mais transmissível que a Gama tradicional, que já era mais transmissível que o coronavírus original. 

Os pesquisadores analisaram 1.380 amostras de pessoas infectadas com Covid-19 no País, sendo 502 delas amostrados na 1ª quinzena de maio e mais 878 amostras referentes a 1ª quinzena de junho. Ao todo, 11 delas possuíam a mutação P681H, traços classificados pelos autores do estudo como semelhantes "com características da Delta, variante que geralmente apresenta essa alteração estrutural".

As amostras da Gama plus foram encontradas em, pelo menos, seis estados do Brasil, em maio. Das 11 que registraram a mutação P681H, cinco são do estado de Goiás, duas do Tocantins, uma do Mato Grosso, uma do Ceará, uma de Santa Catarina e uma do Paraná.

A Secretaria de Saúde do Ceará (Sesa) declarou, através da assessoria de imprensa, que está apurando a informação sobre o caso da variante identificado pela pesquisa no Estado.

Origem no Amazonas 

Levi disse acreditar que a nova mutação tenha origem no Amazonas, estado em que a pesquisa da Desa não tem cobertura. 

"Acho que essas que nós detectamos estão vindo da Amazônia para cá, porque pela distribuição dos estados, Goiás, Mato Grosso... você tem essa sensação de que está vindo de lá para cá", afirmou ao R7.  

Segundo o virologista, há um levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que mostra que 78% dos novos casos de infecção por Covid-19 no estado da Região Norte em julho foram causados pela Gama plus. 

Semelhante à Delta?

Levi explicou que a mutação P681H, em "tese", torna a Gama plus parecida com a Delta no quesito de transmissão. No entanto, existem outras características que podem determinar se ela atuará ou não como a cepa encontrada originalmente na Índia. 

Importância da vigilância genômica

O coordenador do Genov ainda frisou a importância do monitoramento genômico do coronavírus com o objetivo de identificar as variantes importadas, como a Delta, mas também as mutações das cepas que já predominam no País, como é o caso da Gama, e que podem as deixar mais fortes. 

"O propósito do Genov e de outros projetos de vigilância genômica é ver se está aumentando, se está expandindo, se está indo para outras cidades. Antes nós achamos 11 [ casos da Gama plus]. Se na próxima rodada eu acho 110, já é um baita aumento", disse Levi.  

A pesquisa indicou que 95% das amostras recolhidas eram da variante Gama, apontada como a responsável pela segunda onda da pandemia no Brasil, entre março e abril, momento em que o país chegou a registrar mais de 4 mil mortes em 24 horas.