O legado vivo de Janne Ruth e Augusto Bonequeiro
Marcas dos dois artistas cearenses vão seguir encantando e inspirando gerações.
O Ceará se despediu nesta semana de dois de seus grandes mestres da arte: Janne Ruth e Augusto Bonequeiro. Contudo, falar de partida talvez não seja o verbo mais justo, porque ambos deixam marcas tão profundas que continuarão entre nós, em nossos corpos, gestos, vozes, movimentos e bonecos que seguem encantando plateias e inspirando gerações.
Baiana de Vitória da Conquista, Janne Ruth fez do Ceará o seu palco e a sua casa. Professora, coreógrafa e diretora, foi a mente e o coração por trás do Festival Internacional de Dança de Fortaleza e Itinerante do Ceará (Fendafor). Alguém que enxergava a dança muito além de uma coreografia ensaiada.
Ao longo de décadas, Janne transformou o Fendafor em um verdadeiro território de encontro entre artistas, linguagens e culturas, fazendo da dança uma ponte entre o mundo e o Nordeste. Janne era daquelas que acreditava na arte como instrumento de cidadania, formando, literalmente, uma legião de bailarinos e coreógrafos que hoje multiplicam sua visão generosa e exigente dessa cena.
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Já o pernambucano Augusto Bonequeiro, radicado em Fortaleza desde os anos 1980, deu voz, alma e riso ao povo nordestino através do Teatro de Bonecos. Fundador do Grupo Folguedo, ao lado da companheira e parceira de vida, Zilda Torres, o Mestre levou o mamulengo cearense e o teatro popular a palcos do Brasil e do mundo sempre com a irreverência que caracteriza nossa cultura, colocando o Ceará como uma das mais importantes referências dessa arte.
Criador de personagens inesquecíveis, como Seu Encrenca, Augusto também foi diretor do Theatro José de Alencar, e, acima de tudo, um contador de histórias que transformava a madeira em carne e a técnica em afeto. Em 2022, Augusto foi, inclusive, reconhecido como Tesouro Vivo da Cultura do Ceará, um título que fazia jus ao artista, já que ele era mesmo uma escola viva.
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As artes de Augusto e Janne, embora distintas em forma, partilham o mesmo princípio: o movimento. E esse movimento não vai cessar nunca, porque inúmeros bonecos seguirão falantes pelas mãos daqueles que Augusto inspirou e formou, e a dança continuará em quem aprendeu com Janne a disciplina do corpo e capacidade de nos fazer voar.
O Ceará perdeu dois mestres, mas herda deles algo maior: a certeza de que a cultura é uma corrente viva, que atravessa o tempo e as gerações. E, como toda boa dança ou boa brincadeira de mamulengo, ela não termina, só recomeça em outro compasso. Daqui, nós, agentes da cultura, operários da arte, vamos bailar e manipular nossos bonecos, porque o sopro da vida e da arte são um só.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor