O Papa Leão XIV e o Padre Cícero
Possível beatificação tem muito para ser considerada obra senão ironia do destino
Em plena semana de Expocrato, com a cidade vizinha repleta de gente em busca de diversão, Juazeiro do Norte vive mais uma de suas romarias. Quem passou pelo centro neste fim de semana, surpreendeu-se com milhares de romeiros visitando igrejas e pontos de peregrinação. Eles vêm reverenciar o santo popular na data da sua morte.
Neste 20 de julho, completam-se 91 anos do falecimento de Cícero Romão Batista. Doente, acamado e barbudo, em 1834 morria o sacerdote que conquistou o coração de milhões de católicos do Nordeste. A despedida levou uma multidão às ruas e fez crescer a já existente peregrinação à cidade localizada no sul do Ceará.
Mesmo após tantos esforços, inclusive uma viagem de navio a Roma, onde viveu durante meses, o Padim morreu sem uma resposta definitiva por parte da Igreja Católica. Nove décadas depois, quis o destino que o novo pontífice tenha sido bispo de uma diocese do interior da América do Sul (no Peru) e escolhido o nome de Leão XIV, o mesmo daquele que recebeu Cícero pessoalmente.
A literatura mostra que os últimos dois pontífices foram determinantes para acolher a fé romeira após tanto tempo de indiferença de setores católicos. O Papa Bento XVI, ainda como Cardeal Ratzinger, deu o primeiro passo, sugerindo ao bispo Panico a retomada do caso. Desde então, o bispado do Crato, de que faz parte a cidade fundada pelo Padim, tem-se esforçado para entregar ao Vaticano informações históricas e sociológicas que atestem a bem-aventurança do sacerdote.
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Foi no papado de Francisco que uma carta assinada pelo Cardeal Parolin, então secretário de Estado, decidiu pelo acolhimento de Cícero e de seus romeiros. O mesmo Papa autorizou a abertura do processo de beatificação, já em curso, dando ao sacerdote o título de Servo de Deus. Pontue-se que foi encerrada no primeiro semestre deste ano a fase diocesana do rito que será avaliado no Vaticano.
Eis que a comovente morte do Papa Francisco inaugura um conclave que teve como escolhido o Cardeal Prevost, nascido nos EUA e naturalizado peruano que alicerçou o seu trabalho de forma pastoral (a exemplo do Cardeal Bergoglio) e no interior de um país latino-americano menos desenvolvido do que o Brasil e a Argentina.
Até o momento, o Papa Leão XIV não fez qualquer menção particular a Juazeiro do Norte. Mas logo esse nome e o de seu fundador devem passar pela sua vista e ele terá a oportunidade de concluir a reparação que já parece tão madura na Igreja e que começou no papado do antecessor de mesmo nome e que ele afirma ser sua inspiração.
Está nos livros de história a viagem que o padre Cícero fez a Roma em 1898, no esforço de reaver suas ordens. Desde os milagres da hóstia transformada em sangue protagonizados pela beata Maria de Araújo, o Padim estava proibido de celebrar, de confessar, de trabalhar como padre. Era preciso ir ao Vaticano para voltar a ser um sacerdote católico.
Essa viagem está contada em seus detalhes na obra "Juazeiro e Suas Memórias", escrita pela professora Amália Xavier de Oliveira, com edição recentíssima da Ladrilhos Editora. Estou lendo esse trabalho que a autora morreu sem ver publicado. Impressiona os detalhes que expõe sobre essa aventura do Padre Cícero ao outro lado do Atlântico.
O ano era de 1898. Em 13 de janeiro, levado no lombo de animais, Cícero parte de Juazeiro do Norte com destino ao Recife. Tinha apenas a companhia de um comerciante de nome João David. Para que se tenha uma ideia da demora dessa viagem, só entre Juazeiro e Salgueiro foram 4 dias; até a capital Pernambucana, quase um mês; em 25 de fevereiro, chegaria a Roma.
Hospedou-se no Albergo dell'Orso, hoje um restaurante na capital italiana, sobrado imortalizado em aquarela de Ettore Roesler Franz. Em Roma, Cícero conviveria com a saudade do Cariri, a preocupação com a mãe idosa e também com a falta de dinheiro. Além de tudo isso, havia o tempo da igreja.
A resposta tão esperada chegaria apenas em 1º de setembro:
"O Pe. Cícero é absolvido em Roma. Naquele dia esteve presente na sessão da Sagrada Inquisição; era a 5ª vez que ele comparecia às reuniões dos Cardeais, respondendo sobre os fatos de Juazeiro. Terminado o inquérito mandou o Cardeal Parochi que ele fizesse seu ato de submissão e obediência aos decretos da Igreja que condenam os Milagres de Juazeiro. Foi o que exigiu o Santo Ofício, para permitir sua volta a Juazeiro, dando-lhe ordem de celebrar, o que ele fez no dia 5 de setembro em Roma. Pe. Cícero fez seu Ato de Submissão aos decretos, e este ato revogou e foram retiradas as proibições que aquele tribunal havia dado, mandando que se retirasse de Juazeiro e mesmo da Diocese."
Mais de um mês depois, em 6 de outubro de 1898, o padre Cícero consegue ser recebido pelo Papa Leão XIII. Era meio-dia, o sacerdote pôde conversar com o pontífice e pediu que benzesse crucifixos que seriam entregue aos bispos de Olinda e do Ceará. Este último, mesmo com a absolvição dada pelo Vaticano, seria o maior empecilho à volta ao trabalho do Padim, que se lançou na política, foi prefeito, vice-governador e deputado federal.
Nove décadas depois, passada tanta água sob a ponte da história, o Papa Leão XIV tem em suas mãos uma das decisões mais promissoras. Se o pontífice tiver tempo de entender um pouco mais sobre Cícero Romão Batista, conhecerá tão fiel sacerdote que teve a Igreja no interior do Brasil, o principal responsável por fazer do Cariri a região do país com o maior número proporcional de católicos.