Resgate histórico

Beata Maria de Araújo ainda é pouco conhecida por romeiros

No dia 17, completam 104 anos da morte da Beata, que passou seus últimos 20 anos de vida enclausurada

Sua imagem, no Memorial do Horto, é uma das poucas referências à sua figura que restaram na cidade Sua imagem, no Memorial do Horto, é uma das poucas referências à sua figura que restaram na cidade. Para alguns pesquisadores, a Beata Maria de Araújo não é mais conhecida por causa do Igreja Católica, mas é tão importante quanto o Padre Cícero para o surgimento das romarias ( Fotos: Antonio Rodrigues )
00:00 · 13.01.2018 / atualizado às 06:47 · 15.01.2018 por Antonio Rodrigues - Colaborador

Juazeiro do Norte. Um vitral na Capela do Socorro; o nome apagado em uma placa de rua do bairro João Cabral; a estátua no Museu Vivo do Padre Cícero, no Horto; e um jazigo vazio são os lugares em que Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo, a Beata Maria de Araújo se faz presente neste Município do Cariri cearense. Muito pouco para a mulher que, para muitos, foi responsável pelo início das romarias e, consequentemente, o crescimento da cidade de cerca de 270 mil habitantes.

Na próxima quarta-feira (17), completam 104 anos da morte da Beata Maria de Araújo, que passou seus últimos 20 anos de vida enclausurada numa casa, na expectativa de que ela e seus milagres fossem esquecidos. Após sua morte, no dia 17 de janeiro de 1914, seu corpo foi colocado na Capela do Socorro. No entanto, em 1930, seu túmulo foi destruído e seus restos mortais roubados. Até hoje, ninguém sabe o paradeiro.

Para a historiadora Edianne Nobre, que durante 12 anos pesquisou sobre a vida de Maria de Araújo, o episódio do roubo dos restos mortais dela é simbólico, pois muitas pessoas ainda visitavam o túmulo, deixando flores e pedindo graças. "Não bastou sumir com a memória. Se ela não fosse importante, isso não aconteceria", garante.

Edianne acredita que a beata não foi considerada santa não porque era mulher, negra, pobre, analfabeta, mas porque a Igreja Católica, na época, adotou uma estratégia para evitar novos polos de romaria e fé popular. Outras mulheres, em várias partes do mundo e de classe social diferente, também foram condenadas pelo Vaticano por seus milagres. Deveriam existir apenas as romarias oficiais na Alemanha, Itália e Portugal. No Século XIX, o catolicismo estava perdendo muitos fiéis para o protestantismo, então a Igreja resolveu aumentar os padres como seus representantes oficiais. "Não acho que Padre Cícero invisibilizou a beata, foi toda uma estratégia da Igreja de como ela conduziu a situação do processo sobre o fenômeno do sangramento. A Igreja não estava disponível para assumir novos milagres, um novo culto popular. Foi o próprio contexto histórico", explica.

Maria de Araújo consagrou a hóstia em sangue, pela primeira vez, em 1886, mas antes já havia manifestado estigmas, fazia visões, profecias e viajava em espírito para salvar as almas do purgatório. Muitos dos milagres creditados ao Padre Cícero. Até 1889, ela chegou a transformar o "corpo de Cristo" em sangue por, pelo menos, 82 vezes. Na época do milagre, começaram a surgir as primeiras romarias com destino à casa da beata.

Mas após vários padres irem a Juazeiro, analisar o caso, ela foi condenada à reclusão em 1894 e os documentos foram, em sua maioria, queimados. "Não se podia falar do nome dela", acrescenta, Edianne. Porém, Maria de Araújo sempre acreditou no seu milagre e não se retratou à Igreja. O mesmo aconteceu com o Padre Cícero, que teve suas ordens suspensas, pois nunca afirmou que os fenômenos eram "embustes", como o Vaticano exigia. "Se acreditasse no milagre não se confessava, não se comungava com os padres locais", completa.

Mesmo condenada, as pessoas continuavam chegando a Juazeiro do Norte para ver a beata, no entanto, o Padre Cícero despistava a Igreja: daí surgiu a Romaria de Nossa Senhora das Dores. "Ele precisava de uma desculpa. Admitia que as romarias aconteciam, mas não eram de sua responsabilidade. Dizia que os romeiros vinham por causa da padroeira", conta.

Segundo Edianne, hoje, a beata Maria de Araújo não se tornaria uma santa, porque ela não tem a empatia da população e muitas pessoas sequer a conhecem. "As pessoas são crentes no Padre Cícero e não na beata. Muita gente a confunde com a beata mocinha. A própria Igreja local não reforçou uma história oficial sobre ela. Não é objeto de culto. Não há possibilidade de se tornar uma santa popular, porque não existe devoção a ela".

Padre Cícero

Para o professor e pesquisador Daniel Walker todos os outros personagens da história de Juazeiro do Norte, incluindo Floro Bartolomeu e a beata, são secundários por causa do Padre Cícero. No entanto, acredita que ela anda sendo resgatada nas universidades por meio de pesquisas acadêmicas. "Sobre a santidade dela, a gente nem resolveu a do Padre Cícero. A Igreja é lenta. A gente tem que pensar primeiro na do Padre Cícero, que vai demorar", pondera.

Por outro lado, Daniel Walker admite a importância da beata para o crescimento de Juazeiro do Norte. "Foi o milagre, tendo ela como protagonista, que deu muita visibilidade ao povoado. A gente pode dizer, sem querer exagerar, que esse milagre colocou Juazeiro no mapa do Brasil", completa o pesquisador.

Enquanto isso, o Padre Cícero José da Silva, pároco da Basílica de Nossa Senhora das Dores, admite que a beata é celebrada de maneira simples, mas que devem ser feitas ações para dar mais visibilidade a Maria de Araújo. "Não é que o romeiro não se lembre dela, mas tem sua fé em outra centralidade. É um dever levar e reconhecer o protagonismo da beata", acredita o sacerdote. Já a comerciante Maria das Graças, que trabalha no Horto, no pé da estátua do Padre Cícero, reconhece que os romeiros pouco sabem dela. "É mais por ele que pela beata".

Mostra

Pensando em dar mais visibilidade a Maria de Araújo, a Biblioteca Pública Municipal Possidônio da Silva Bem, de Juazeiro do Norte, está realizando, na próxima quarta-feira (17), às 19h, no Memorial Padre Cícero, a 1° Mostra Poemas para Maria - Beata Maria de Araújo. A Mostra resultou num livreto, que reúne 22 trabalhos de poetas locais.

"Acredito que o juazeirense sabe pouco. Em questão de Justiça, ela precisa ser lembrada em poesia, prosa, documentos históricos, que a nossa cidade comece a valorizar assim como é o Padre Cícero. Para mim, os dois foram santos, tiveram uma vida exemplar", explica a coordenadora da Mostra, Rosana Marinho.

A Biblioteca irá distribuir 500 livretos para os poetas participantes e mais de 100 escolas municipais. A ideia é que Maria de Araújo seja estudada em sala de aula. Dependendo da demanda, pode haver republicação.

Enquete

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"Não sei contar bem, mas já ouvi falar que ela fez muito milagre com o Padre Cícero, que ela é muito importante e que foi retirada da casa dele e também sofreu muito"

Severina Ferreira. Aposentada

"Foi a partir dela que o Padre Cícero ficou conhecido, por causa do milagre da hóstia. Aí o romeiro começou a vir para Juazeiro. Já vinham antes, mas começaram a vir mais"

Maria das Graças Conceição. Comerciante

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Propagação da história

A Biblioteca Pública Municipal Possidônio da Silva Bem realiza, no dia17, às 19h, no Memorial Padre Cícero, a 1° Mostra Poemas para Maria, que resultou num livreto com 22 trabalhos de poetas locais. Serão distribuídos500 livretos com a história da beata para os poetas participantes, o restante irá para mais de 100 escolas municipais.

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