Bicampeã mundial de skate fala sobre machismo, carreira, desafios e traça objetivo para Paris 2024

Aos 22 anos, Pâmela Rosa é líder do skate street no mundo. Em entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste, avalia o ciclo olímpico que poderá levar a Paris

Pâmela Rosa, aos 22 anos, é hoje referência mundial no skate
Legenda: Pâmela Rosa, aos 22 anos, é hoje referência mundial no skate
Foto: Claudio Vieira

Desbravar um universo antes visto como marginalizado e se destacar, enquanto mulher, em um ambiente predominante masculino. Pâmela Rosa, aos 22 anos, é hoje referência mundial, mas chegar onde está não foi tarefa fácil. Em entrevista à coluna, a jovem, bicampeã mundial de skate street conta sobre o início difícil, analisa o cenário do skate e avalia o ciclo olímpico que poderá levar a Paris, em 2024.  

Que as Olimpíadas são um divisor na carreira de qualquer atleta, não há dúvida. Mas a mais diversificada e completa competição do meio esportivo é marcante também para as modalidades. Algumas passam a fazer parte do programa e saem, como o caso do softbol/beisebol e caratê, que já não serão disputados em Paris 2024. Outras têm nos Jogos, a chance de virar a chave, desestigmatizar um padrão e crescer no gosto popular. Isso vem acontecendo com o skate, que estreou em Tóquio 2020 em duas categorias: park e street.

De lá para cá, não é difícil ver em praças gente de todo jeito se arriscando sobre as rodinhas. Não que não existisse antes. É impossível negar o crescimento do skate nos últimos anos, mas o status de esporte olímpico tem um peso positivo e respalda ainda mais a transformação de um universo, abre caminhos. 

A atleta e seu treinador e empresário Hamilton Freitas
Legenda: A atleta e seu treinador e empresário Hamilton Freitas
Foto: JacksonVille

Caminhos que Pâmela Rosa foi abrindo despretensiosamente. Começou no skate aos nove anos, mas na infância não foi fácil enveredar como atleta, em sua cidade natal, São José dos Campos, em São Paulo.

"Minha família nunca teve dinheiro. Até meus 16 anos dormia no chão. Dinheiro sempre foi contado na casa dos meus pais. O skate começou na minha vida de maneira despretensiosa. Nos primeiros campeonatos minha família não tinha condição de comprar os melhores equipamentos para mim. De qualquer forma, sempre me dediquei e as portas foram se abrindo na medida que as vitórias começaram aparecer. "

Bicampeonato mundial, Jogos Pan-Americanos Júnior, Tricampeonato Sul Americano, Bicampeonato do X-Games (três medalhas de prata e uma de bronze), Campeonato Brasileiro...Essas são apenas algumas das conquistas de Pâmela, que chegou à primeira Olimpíada como favorita e número um no ranking do skate.

Apesar do resultado ter ficado bem longe do que se esperava, ela destaca o aprendizado e a importância da participação nos Jogos. "A experiência foi fantástica. Teve uma frustração por não conseguir voltar como uma medalha, mas todo mundo já sabe, que cheguei em Tóquio lesionada. Além disso, não estava com meu treinador. Tenho certeza que se o Hamilton (treinador) estivesse lá certamente iria classificar para as finais. Acho que por tudo que aconteceu, esse aprendizado e no fim do ano a coroação com o título mundial... fica com aquela sensação de trabalhar com mais garra para esse novo ciclo olímpico em busca de uma medalha em Paris."

Foco nas Olimpíadas

 Para chegar até essa sonhada medalha olímpica, Pâmela encara um ciclo mais curto e preparação e disciplina serão fundamentais nesses cerca de dois anos e 5 meses até chegar à competição. Apesar do avanço nacional da modalidade, ainda não é possível equiparar a estrutura encontrada aqui com a dos Estados Unidos, por exemplo, o que leva muitos atletas a morar fora do País em busca de aprimoramento.

"O Brasil ainda tem muito pouco relacionado à pista e obstáculos de skate. Nos Estados Unidos tem uma variedade enorme de pistas, obstáculos, além de locais cobertos. Realmente, se um atleta de alto nível, pretende competir para vencer nas principais competições, ainda precisa se preparar fora do Brasil", destacou a atleta que está desde o início do ano nos EUA treinando para essa temporada.

"O Kelvin (Hoefler) tem me ajudado muito me recebendo na sua casa, para que eu possa treinar. Com certeza, isso é um grande incentivo, ter um medalhista olímpico me auxiliando nos treinamentos", divide Pâmela.

Vencendo o machismo

Pâmela afirma que vencer a distinção de gênero no esporte deve acontecer dentro e fora das pistas
Legenda: Pâmela afirma que vencer a distinção de gênero no esporte deve acontecer dentro e fora das pistas
Foto: Marcello Zambrana

 Assim como em outras modalidades, apenas o fato de ser mulher gera mais obstáculos. Apesar de destacar o incômodo maior com a marginalização do skate, Pâmela ressalta em relação à distinção entre os gêneros.

"Acho que a maior dificuldade está fora das pistas. A premiação, patrocinadores, por exemplo, precisam ser iguais para ambos os sexos. Não pode ter distinção. Ano passado disputei o Tampa Pro e foi um sonho realizado. Fiquei muito feliz só de estar participando, representando o skate feminino. Foi através do Tampa que eu me inspirei muito em andar de skate. Porque era uma pista que eu via meus ídolos andar. Disputei um evento em que era a única mulher e cheguei até a semifinal. Algo inédito no skate feminino mundial."

O Tampa Pro é uma tradicional competição realizada na Flórida, desde 1995. A disputa acontece em uma pista de madeira e não há chave feminina.

Para as meninas que se espelham e sonham em alçar grandes voos, como Pâmela, ela dá a dica:

"O que posso falar para as meninas é nunca desistir do seu sonho. Eu persisti demais! Acho que as meninas que estão começando a praticar skate agora tem um norte para guiá-las devido ao crescimento do skate no país, principalmente depois dos Jogos de Tóquio e com as chegadas de mais campeonatos e etapas do STU. "
Pâmela Rosa
skatista