Cineasta do Jangurussu lança filme com vivências da periferia: ‘Minha arte é a minha comunidade'

Com produção artística voltada para aspectos do cotidiano do Santa Filomena, onde nasceu e se criou, cineasta e fotógrafo Leo Silva lança 'Luza' nesta segunda (28)

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: Curta-metragem "Luza", de Leo Silva, será disponibilizado no YouTube a partir desta segunda-feira (28)
Foto: Flávia Almeida / Divulgação

“A minha arte é a minha comunidade”, atesta o fotógrafo e cineasta Leo Silva. A produção de fotografia e audiovisual não é “sobre” a comunidade do Santa Filomena, no Grande Jangurussu, onde ele nasceu, se criou e mora, mas ela se revela em sua existência.  

A afirmação ajuda a compreender as escolhas e inspirações da produção do artista fortalezense. A partir desta segunda (28), ele disponibilizará o mais novo curta, “Luza”, no YouTube. A personagem-título é Luzanira, mãe de Leo, para quem ele produziu o filme como um presente de aniversário. 

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A obra entremeia um mergulho no passado da família feito pelas filhas mais velhas dela a partir de álbuns de fotografias — que registram a mudança do município de Mucambo até o estabelecimento no Jangurussu — com as ligações que a protagonista recebe de quem mora fora — da própria mãe a outros filhos.

Ao mesmo tempo em que a narrativa do documentário foca no núcleo familiar e se dedica a homenagear Luza, ela também traz, nas entrelinhas, aspectos históricos, sociais e cotidianos reconhecíveis para moradores não só do Santa Filomena, mas outras periferias da Capital

Produções familiares

“É homenagear uma mulher que tem uma importância muito forte para a gente, mas também pode ser sobre tantas mães, tantas Luzas no mundo. Se a gente observar, consegue ver algumas relações meio parecidas com outras famílias, por exemplo”, aponta o diretor.

O olhar de intimidade ecoa outra obra de Leo, lançada na pandemia com apoio do edital emergencial Cultura Dendicasa, da Secult Ceará: em “Rotina Familiar” (2020), o diretor apresentou detalhes do cotidiano de casa durante o isolamento. 

No projeto mais recente, o caráter cotidiano segue não apenas dando o tom do filme, mas guiando o próprio processo de produção. “Tem uma equipe maior, mas no trajeto da gravação eram três pessoas”, diz Leo: ele mesmo, a produtora e diretora de fotografia Flávia Almeida e a diretora de arte e captadora de som Rebeca Eloi.

“Tem um sentido para ser para poucas pessoas. Como se trata de um filme dentro de uma casa, sobre uma família, especificamente sobre uma mulher, elas já tiveram convívio na casa de conhecer minha mãe, tomar um café, conversar. Foi super importante ser uma equipe bem reduzida, para poder deixá-las mais à vontade”
Leo Silva
cineasta

Proximidade e naturalidade 

Luzanira, mãe do artista, já foi homenageada em obra de arte (na imagem) e agora ganha filme
Legenda: Luzanira, mãe do artista, já foi homenageada em obra de arte (na imagem) e agora ganha filme
Foto: Flávia Almeida / Divulgação

“Luza” é um documentário, como o próprio diretor define, mas lança mão de artifícios de construção de cenas que dão espaço para a narrativa e as conversas da família se desenvolverem.

Um exemplo é o próprio pontapé do filme, que abre com a sobrinha de Leo encontrando os álbuns de família num móvel da casa e indo mostrar para a mãe e a tia. 

“Antes da gravação, elas estavam super tímidas, pensando que não ia dar certo, intimidadas com as câmeras, e aí nós conseguimos construir cenas para poder tirar um pouco dessa timidez”, aponta o diretor.

Irmãs mais velhas do diretor partilham no curta memórias sobre a mãe, a vinda do interior para Fortaleza e o início das lutas da comunidade
Legenda: Irmãs mais velhas do diretor partilham no curta memórias sobre a mãe, a vinda do interior para Fortaleza e o início das lutas da comunidade
Foto: Flávia Almeida / Divulgação

A intenção, diz ele, foi a de “contar a história dessa mulher sem entrevistar diretamente ela, mas propondo situações onde possa se alinhar, depois, uma narrativa cinematográfica”.

A busca por naturalidade a partir do artifício deu resultados ricos para a intenção. “Nunca tinha visto as minhas irmãs falarem sobre ela, sobre como chegaram em Fortaleza”, exemplifica Leo.

“Elas pegaram esse trajeto da minha mãe de sair do interior, aquele iniciozinho de estar em Fortaleza participando também das ocupações de terra nos anos 1980, 1990. Elas falarem sobre essa vivência foi importante para entender como elas observam a nossa mãe”
Leo Silva
cineasta

A naturalidade alcançada vem, também, pela vontade de que a intimidade retratada acolha também quem estiver vendo o filme. “A gente consegue criar proximidade não só nossa, de quem está filmando e organizando essa narrativa, mas de quem assiste. A ideia é que aquela pessoa também se sinta à vontade no meio da conversa sobre essa história”, compreende.

Histórias pessoas e coletivas

A escolha por voltar a câmera para o que está perto, o que conhece, é característica central da obra de Leo — seja a casa, a família ou a comunidade.

O interesse pelas imagens veio há mais de 10 anos, quando ele acessou cursos de fotografia e cinema na Rede Cuca e, ao mesmo tempo, passou a compor movimentos e coletivos do Jangurussu.

Cineasta Leo Silva, morador do Santa Filomena, no Grande Jangurussu: 'A minha arte é a minha comunidade'
Legenda: Cineasta Leo Silva, morador do Santa Filomena, no Grande Jangurussu: "A minha arte é a minha comunidade"
Foto: Jef de Castro / Divulgação

“Mesmo que não seja uma história direta, você sempre vai ver algo específico sobre esse território. Quando minhas irmãs estão falando daquelas lembranças, elas estão falando do Santa Filomena. Aquelas fotos são aqui, seja na escola, na ocupação”, elabora.

“Pode ser um filme mais para a gente, mas quando a gente compartilha essas histórias, acha semelhanças e ajuda a ver outros horizontes, outras histórias que são próximas também”
Leo Silva
cineasta

Além de “Rotina Familiar” e “Luza”, o cineasta também assina a ficção “Pedro” e o documentário “Uma História de Amor, Esperança e Fé”, que retratam de forma mais direta outras histórias da comunidade.

“Por ser nascido e criado aqui, existe uma afetação muito forte. Sempre que eu posso, em boa parte dos trabalhos não só anteriores como os próximos, trago muito forte algum elemento histórico específico do Santa Filomena, seja numa imagem, seja numa narrativa”, ressalta.

Para além da familiaridade com as ruas, as pessoas e as histórias da comunidade, Leo cultiva outro propósito: visibilizar o Santa Filomena para si mesmo e para a Cidade.

“É entender a importância da história desse território pensando que é também uma parte de Fortaleza que não é muito vista, ou poucas pessoas conhecem, mas tem uma história importante de luta, crescimento”, explica.

“Missão” de “levar o nome do Santa Filomena” acompanha obra artística de Leo Silva

Do mesmo modo que faz em casa, Leo diz: “Eu tô sempre andando com câmera, fazendo fotos das ruas, dos moradores”. Esse costume estabeleceu relações de proximidade do diretor com a vizinhança, que contribui para as produções do diretor.

"É com o apoio dos moradores, conversando com eles, eles cedendo tempo para serem entrevistados, fotografados”, destaca.

Em “troca”, o artista já promoveu exposições e projetos artísticos em espaços como paradas de ônibus e paredes da comunidade. Ele, ainda, tem um projeto de construção de um museu comunitário sobre o local.

“(Quando) os meninos estão soltando raia, eu acompanho na rua, acabo fotografando, faço uns vídeos e entrego para eles postarem”, acrescenta.

“É tudo sobre esse território, sobre essas pessoas, e isso acaba levando a história desse local para outros espaços”, relata. “Acho que eu tenho tomado isso um pouco como missão: tenho que levar o Santa Filomena para vários espaços, seja na fotografia, no audiovisual, seja nas crônicas”, 

É o que aconteceu, por exemplo, quando Leo levou ao Museu Arena Castelão a exposição de fotografias “Da Terra Batida ao Gramado no Santa Filomena” (2024), que focou no Campo do Coritiba, um dos únicos espaços de lazer da comunidade.

Leo Silva - obra A quem me deu a Terra - exposição Mac Dragão - foto Késsia Nascimento
Legenda: Na obra "A quem me deu a Terra", que foi exposta no Mac Dragão, Leo Silva retrata a mãe Luzanira no quintal de casa
Foto: Késsia Nascimento / Divulgação

No Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar, o artista expôs na coletiva “Reflorestamento” (2022) — na qual esteve presente com uma fotografia de Luza — e na individual “Uma Filomena: um olhar sobre a comunidade” (2023).

“Isso também me insere muito mais forte dentro desse território, esse reconhecimento, o pessoal saber o que eu estou fazendo”, celebra Leo. Para ele, é essa a “importância maior”:

“O pessoal ver que está sendo contada uma história sobre o território por diversos meios, seja na fotografia, no audiovisual, e ela está indo para outros espaços. É a chave de ouro do trajeto: o pessoal entender a importância dessas imagens que estão circulando com outro olhar sobre esse território”
Leo Silva
cineasta

“Ele é a importância do meu trabalho. Se eu não focasse nisso, eu acho que enquanto artista, eu não teria muita coisa”, reforça.

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