O afeto que tem patas
Os animais muitas vezes nos salvam e nem sempre sabemos disso.
Vínculos são relações fundamentais na construção de quem somos. As trocas emocionais, a percepção do outro, a atenção, o sentir-se querido, visto, especial, amado, oferecem o senso tanto de pertença quanto de identidade e diferenciação. Saber-se parte do afeto de um outro ser é ser visto como alguém que existe e tem valor.
O afeto exige tempo, delicadeza, disponibilidade e cuidado, e pode existir mesmo entre espécies diferentes. Essa é uma das belezas do encantar-se pelo outro, do descobrir o outro e do encontro nas diferenças: que há sempre possibilidades para o querer bem brotar.
Quando nossa história é tocada pelo convívio com um animal, muitas aprendizagens se realizam: a descoberta da espera, do ritmo, a observação dos gestos, de outras comunicações, a construção do cuidado e a experiência de ter um ser que depende do seu zelo para sobreviver e o desenvolvimento do disponibilizar-se a um outro. Os animais ensinam o afeto incondicional, a festa do encontro, a importância do aconchego e da presença e o valor da segurança e da confiança para poder relaxar.
Veja também
A presença de um animal na vida auxilia a desembrutecer, a dar valor ao tempo, a compreender o ciclo da vida em sua inteireza, pois, como geralmente possuem o fluxo de existência menor que o nosso, nos leva a experimentar o nascimento, o crescimento e desenvolvimento, a adultez, o envelhecimento e a morte concentrados em 10, 15 anos e, assim, temos a oportunidade de perceber mudanças neles e em nós, realizar adaptações e aprender a agradecer e a despedir. Descobrimos nesse enlace a importância da parceria e da lealdade, e que afeto é conquista que se aprofunda no cotidiano.
Além disso, a presença de um animal oferece inúmeros benefícios para a saúde: auxilia na regulação emocional, diminuição de estresse e ansiedade, atenua a solidão, favorece a prática de atividade física, a construção e manutenção de uma rotina, podem oferecer a sensação de presença e constância diante de situações de perdas e mudanças; são fundamentais enquanto recursos terapêuticos na função de cão-guia; podem participar de atividades terapêuticas como visitas a hospitais, equoterapia, auxiliando na recuperação e desenvolvimento de funções neurológicas, propriocepção e socialização.
Os animais nos ensinam sobre a necessidade dos limites, da contenção da nossa raiva, da paciência e do valor de um ser que sente nossos estados emocionais. O sentir que ultrapassa palavras revela outras possibilidades de conexão e compreensão.
Quando um animal confia em você, é perto que procura aconchego, é sua a presença favorita, é você quem os olhos procuram, é a você quem oferece o afeto e a obediência.
O animal nos ensina que obediência vem decorrente de compreensão e respeito, e não do medo; e que, se não dedicamos tempo às aprendizagens, elas não se desenvolvem, pois são a prova do que pode ser modificado aquilo que é instintivo ou inato; tanto que muitos animais passam a adquirir comportamentos diferentes dos da sua espécie após longo contato com humanos.
Eles interagem, exploram, aprendem a nos observar, possuem outra lógica de tempo e uma generosidade sem limites para expressar a alegria. Animais não substituem pessoas, mas complementam nossa existência e acrescentam experiências que talvez tenhamos dificuldade em desenvolver com outros humanos e que os animais podem servir de ponte.
Criar um animal é um compromisso e uma responsabilidade, que nos interpela a manter um dever de cuidado e vínculo, independentemente da funcionalidade ou do pragmatismo, pois exigirão o nosso cuidado responsável até o fim, mesmo quando já não puderem brincar, nos receber com a mesma alegria ou nos fazer companhia.
Descobrir o valor de uma vida em toda a sua amplitude e dimensão, e ser capaz de ser afetado por essa vida em alegria, presença, cuidado, amor e confiança é uma dádiva. Os animais muitas vezes nos salvam e nem sempre sabemos disso.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.