A crise da atenção: estamos perdendo a capacidade de pensar profundamente?

Fenômeno pode levar a mais prejuízos para o nosso desenvolvimento, para nossas relações e para nossas aprendizagens.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: Quanto mais se usam, mais o automatismo de checar as telas continuamente se estabelece.
Foto: Cottonbro Studio/Pexels.

Quando nascemos, exploramos curiosamente o mundo, e dessa exploração garantimos a sobrevivência e o desenvolvimento físico, psíquico, emocional e social, pois a atenção entrelaça o desenvolvimento cerebral, as aprendizagens e os afetos.

Ser visto pela primeira vez e olhar quem irá nos acolher é um marco emocional especial. Ademais, a atenção envolve também um mecanismo de sobrevivência, pois precisamos identificar aqueles elementos que serão necessários à nossa existência e aqueles que nos ameaçam.

Nesse processo, as interações tornam-se fundamentais, assim como a garantia de um ambiente seguro que forneça as bases necessárias para explorar e perceber o mundo, visto que, em um ambiente caótico, inseguro e instável, a atenção curiosa e criativa, tão necessária para a aprendizagem e o desenvolvimento, sucumbem a um comportamento de hipervigilância que gera ansiedade e bloqueia a espontaneidade e motivação para explorar.

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Em um mundo com tantos estímulos, como escolher onde colocar nossa atenção? Aliás, quem decide em quê colocamos nossa atenção? Porque a atenção não organiza apenas o nosso olhar sobre o mundo, mas a nossa própria subjetividade. Aquilo a que direcionamos atenção compõe quem somos, engendra nosso mundo interno, nossas memórias, nossas identificações.

A atenção, por ser uma função que sofre a influência do ambiente, tem apresentado algumas mudanças ao longo dos anos. Cotidianamente, precisamos repetir uma informação várias vezes, observamos pessoas realizando multitarefas e posteriormente sem lembrar do que fizeram, observamos aumento na dificuldade de leitura e concentração com interferência na perda da capacidade de contemplação e do pensamento crítico.

Torna-se comum pessoas em um mesmo ambiente, mas cada um com sua tela sem prestar atenção uns aos outros, sem diálogo nem interação, além da dificuldade em simplesmente não estar ocupado com nada.

O automatismo, ocasionado pela obtenção de dopamina decorrente uso de tela, faz com que um sujeito pegue o celular para responder uma mensagem, continue olhando outras coisas, fique capturado pelo algoritmo e depois não se lembra mais do que ia fazer; nessa perspectiva, constrói-se e fortalece-se o hábito de precisar continuamente conectar-se com a tela e desconectar-se do que está aparecendo seu redor.

Parece que estamos ligados a inúmeros estímulos e, ao mesmo tempo, não prestamos atenção a nada. Diante desse cenário, será que estamos perdendo a capacidade de sustentar a atenção?

Pesquisas da University College London indicam que a formação e a mudança de hábitos dependem da repetição e do contexto, ou seja repetição de comportamentos em contextos consistentes consolidam padrões de automação; assim mostra como o uso contínuo do celular pode consolidar padrões automáticos de checagem.

Consequentemente, quanto mais se usa, mais o automatismo de checar as telas continuamente se estabelece. Além disso, quanto mais automatizado é um comportamento, menos controle executivo ele exige — e mais facilmente ele interrompe tarefas que exigem concentração, pois as repetições criam hábitos que passam a serem disparados automaticamente, principalmente diante de dificuldades. 

Em relação a isso, é importante considerar a liberação de dopamina decorrente do uso das telas, o que concorre com a atenção direcionada a problemas que precisam ser enfrentados, instaurando um ciclo difícil de interromper: problemas, desconexão, desatenção ao que precisa de resolvido, persistência dos problemas, o que alimenta um pensar superficial e uma existência frágil.

Estudos desenvolvidos em Harvard mostram que a divagação mental, que é diferente do ócio criativo, frequentemente está associada a menor sensação de felicidade e bem-estar, sugerindo que uma mente constantemente dispersa tende a experimentar mais sofrimento psicológico, o que relaciona uso intenso de redes sociais a piores indicadores de ansiedade, depressão e qualidade do sono, especialmente entre adolescentes e adultos jovens.

Desta forma, ambientes repletos de estímulos fragmentam a atenção e interferem inclusive na capacidade de aprendizagem e leitura. Acrescente-se a isso,outros fatores que incidem sobre a atenção: ambientes violentos, sobrecarga de trabalho, estresse crônico, dificuldade de ficar consigo, esvaziamento simbólico, dificuldade de lidar com perdas, frustrações.

Nesse contexto, algumas alternativas para cuidar da atenção envolvem:

  • Redução de atividades de multitarefas
  • Controle do uso do celular
  • Prática de atividade física
  • Dedicar-se à percepção de si e do ambiente
  • Exercícios de atenção plena
  • Leitura sem distrações externas
  • Resolver palavras cruzadas, quebra-cabeças, sudoku ou jogos de lógica
  • Aprender uma habilidade nova que exige foco sustentado (idioma, instrumento musical, pintura, atividade artística ou novos conhecimentos)
  • Cuidar da qualidade do sono
  • Cuidar da alimentação (evitar ultraprocessados e açúcar)
  • Praticar estimulação cognitiva da memória (memorizar números de telefone, descrever cenas de ambientes e filmes com detalhes, entre outros exercícios)
  • Observação do ambiente e conexão com a natureza sem o uso de celular

Muitas vezes, fugimos de prestar atenção ao que pode nos incomodar, necessitar de tempo, e podemos ser capturados pela anestesia e prazeres aditivados que nos distanciam do pensar e do olhar crítico. 

Entretanto, quanto mais vamos perdendo nossa capacidade de atenção, mais prejuízos para o nosso desenvolvimento, para nossas relações e para nossas aprendizagens e mais podemos ficar passivos e acomodados; pois dispersos e desatentos, somos mais facilmente manipuláveis.

A grande questão talvez não seja apenas quanto tempo conseguimos olhar para uma tela, mas quanto tempo ainda conseguimos permanecer diante de nós mesmos. Se toda pausa é preenchida por um estímulo, quando o desejo encontra espaço para nascer?

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.

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