O que o ciúme revela sobre nós?

Quando ele leva à humilhação, ao controle ou à destruição dos vínculos, revela dificuldades no amadurecimento emocional e torna difícil a convivência.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 06:38)
Legenda: Quando nos relacionamos, aparecem os recursos emocionais mais profundos de cada um, assim como as feridas e as dores.
Foto: Yan Krukau/Pexels.

Ciúme vem do termo latino zelus, com o sentido de "zelo" ou "ardor amoroso” que pode se manifestar não somente nas relações íntimas eróticas, mas entre irmãos, amigos, e expressa a maneira como respeitamos as diferenças e as frustrações.

Embora possa parecer o mesmo sentido, esse amor que arde é diferente do amor que zela, cuida e protege. O ciúme enquanto “ardor” relaciona-se com o desejo de posse, controle e, em algumas situações, assemelha-se ao comportamento obsessivo, que assinala a falta de aspectos valiosos na construção da subjetividade: a capacidade de diferenciação, de suporte à frustrações e a sensação de inexistência sem a presença do outro.

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David Laing (1960, p.42) define como "insegurança ontológica” pessoas que sentem a própria existência e o próprio ser como se fora muito frágil, que se percebem de forma mais irreal do que real:

“literalmente mais morto do que vivo; precariamente diferenciado do restante do mundo, de modo que sua identidade e autonomia estejam sempre postas em dúvida. É possível que lhe falte a experiência de sua continuidade temporal...".

Por conta disso, tais pessoas experimentam intensa sensação de vazio e necessitam sempre da presença do outro, para lhe conferir existência, estima e pertença.

Para pensar nessa relação da necessidade do outro para assegurar e sustentar nossa existência, Winnicott, psicanalista inglês, considera que o ciúme faz parte do desenvolvimento normal, pois a criança, ao viver uma relação de dependência absoluta  com quem exerce a função materna, quando percebe que esse objeto destina atenção a outras pessoas que não exclusivamente a ela, pode experimentar raiva, disputa, exclusão e ciúmes.   

Entretanto, à medida que se desenvolve, a criança deve aprender a lidar com frustrações sem destruir e atacar o vínculo com o objeto amoroso, ou seja, ser capaz de suportar não obter tudo o que deseja do outro, sem destruir o outro.

Quando esse processo falha, o ciúme pode permanecer muito primitivo, levando a comportamentos de controle, ataques ou tentativas de eliminar simbolicamente o rival; assim, o medo de perder o objeto amado indica insegurança  na capacidade de confiar e de que o vínculo sobreviverá  às separações  e às relações da pessoa amada com terceiros.

Percepção sobre o próprio comportamento

O sujeito experimenta a dúvida de que só será amado na exclusividade, que quando comparado a outrem deixará de ser especial para o objeto amado; acionando assim, o medo profundo de perder o objeto o qual garante a sustentação e o sentimento de continuidade do ser e da própria existência.

Ou seja, se eu perder esse objeto de quem dependo para existir, minha existência estará em risco. Daí podem resultar comportamentos de manipulação, chantagens, ameaças e agressões.

Ao longo do desenvolvimento, precisamos construir a capacidade de reconhecer que se ama e odeia o mesmo objeto e assim, preocupar-se com os efeitos da agressividade sobre o outro; pois, se destruo a quem amo, na hora que odeio, perco também o objeto amado.

Nesse contexto, aplicado ao ciúme, uma pessoa emocionalmente madura pode experimentar raiva e intensa insegurança, mas consegue preservar o respeito pelo outro e conter os impulsos destrutivos ou direcioná-los para outras possibilidades que não a violência, entendendo que eles podem existir, mas não precisam ser expressos.

Por exemplo, pode-se dizer: "Estou com ciúme", em vez de atacar quem percebe como rival, pois quando o ciúme leva à humilhação, ao controle ou à destruição dos vínculos, ele revela dificuldades no amadurecimento emocional e torna difícil a convivência.

Segundo Winnicott, a maturidade não consiste em não sentir impulsos destrutivos, mas em conseguir responsabilizar-se por eles e preservar aquilo que se ama. Quando alguém causa danos ao objeto amado ou a quem é importante para o objeto amado, qual a capacidade de reparar, pedir desculpas, refletir e reconstruir a confiança?

A posse e controle sobre o ser amado não permite a diferenciação, não respeita a história do outro e causa danos emocionais e físicos severos.

Além do ciúme nas relações amorosas, o qual  entrelaça-se com o patriarcado e a ideia do outro enquanto posse, existem relações de ciúme entre irmãos e amigos, ocasionando situações de rivalidade e competição por amor, reconhecimento, atenção ou aprovação dos pais, que pode persistir na vida adulta os quais podem conectar-se a sentimentos de inferioridade ou inveja em relação à aparência, sucesso profissional, relacionamentos ou posição na família; delatando feridas emocionais decorrentes de experiências de rejeição, favoritismo, negligência ou injustiça que nunca foram elaboradas.

Por conseguinte, o ciúme manifesta conteúdos projetivos quando atribui-se aos irmãos ou amigos, características ou conflitos internos difíceis de reconhecer em si mesmo, assim quanto mais semelhantes as irmãs ou amigos, maior pode ser a necessidade inconsciente de se diferenciar, gerando conflitos, disputas de poder, controle, intensificados por traumas familiares como: violência, alcoolismo, perdas importantes, segredos familiares, baixa autoestima ou insegurança.

Por este motivo, os ciúmes denunciam as inseguranças do ciumento, a baixa autoestima e, muitas vezes, a inveja e padrões de funcionamento narcísicos e dificuldades importantes de regulação emocional.

Ciúme não é prova de amor

Em decorrência disso, o objeto do ciúme funcionaria então como depositário de sentimentos ambivalentes de amor, inveja, admiração, culpa e agressividade, revelando muitas vezes que o conflito aparente é apenas a expressão de questões mais profundas relacionadas à história familiar e à constituição subjetiva.

Infelizmente há uma crença bastante difundida de que o amor se mede pela intensidade das emoções: quanto maior o ciúme, maior o amor; quanto mais sofrimento diante da possibilidade de perder alguém, mais verdadeiro seria o vínculo.

Poucas ideias, porém, são tão perigosas quanto essa. O ciúme é um afeto profundamente humano que atravessa relações amorosas, familiares, profissionais e até amizades, mas não é uma prova de amor. É, muitas vezes, a expressão do medo de perder um lugar, de ser substituído ou de deixar de ser importante para alguém.

A questão decisiva, entretanto, não é o que sentimos, é o que fazemos com aquilo que sentimos. Há quem reconheça a própria insegurança e encontre palavras para expressá-la; há quem procure compreender a origem do sofrimento, peça ajuda, conversa, espera a tempestade passar.

Mas há também quem transforme a dor em ataque, fazendo do outro o responsável por aquilo que não consegue elaborar em si mesmo. É nesse ponto que as relações começam a adoecer.

Diante de intenso sofrimento emocional, podemos perder temporariamente a capacidade de perceber o outro em sua complexidade. Quando isso acontece, a pessoa deixa de ser alguém com história, qualidades e singularidade para ocupar apenas um lugar imaginário: o do rival, do inimigo ou da ameaça. Então, a realidade cede espaço às fantasias, e a impulsividade passa a conduzir as escolhas.

Toda relação atravessa momentos de ciúme, raiva ou frustração até porque o infantil sempre nos espreita. Entretanto, o que diferencia vínculos maduros não é a ausência dessas emoções, mas a capacidade de reparação.

Será que conseguimos perceber quando ferimos alguém, será que conseguimos responsabilizar-nos por isso e reconstruir o vínculo? Será que consigo permitir o espaço do outro com sua vida diferenciada da minha, com espaços para outros vínculos e escolhas? Será que percebo como meus medos e inseguranças são dirigidos ao outro?

A reparação restaura não apenas o outro, mas também a nossa própria humanidade; mas para isso é preciso descobrir quem nos tornamos quando nos relacionamos e quando temos medo de perder. Há pessoas que, diante da insegurança, aproximam-se, dialogam; outras controlam, humilham; algumas assumem a responsabilidade pelos próprios afetos, outras distribuem a culpa entre todos que estão ao redor.

Quando nos relacionamos, aparecem os recursos emocionais mais profundos de cada um, assim como as feridas e as dores. Em razão disso, amar alguém significa também observar como essa pessoa enfrenta a frustração, o medo, a perda e a insegurança; quem essa pessoa se torna quando o ciúme e o medo tomam conta dela?

Porque o amor não se mede somente pela intensidade das emoções que experimentamos, mas pela responsabilidade com que escolhemos vivê-las.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.

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