Violência e exploração podem conviver com dependência emocional
Quando o objetivo é manter a submissão, várias coisas deixam de ser oferecidas, dentre elas a dignidade da educação formal para que alguém possa se saber sujeito de direitos.
Há alguns dias, foi noticiado que após uma denúncia anônima, uma mulher foi encontrada em situação análoga à escravidão ao trabalhar na casa de uma família há 55 anos, no Ceará.
Essa senhora já trabalhava para a terceira geração da mesma família, não teve acesso à educação formal, nunca recebeu salário e sua história nessa família remonta a quando tinha sete anos de idade, e sua mãe, que fora empregada dessa família, a oferece para ir trabalhar na casa dessa família, feito um objeto, como talvez já percebesse a si própria, o que revela um processo de coisificação, infelizmente comum, quando diante da perda de direitos na infância.
Observa-se a exploração do trabalho infantil disfarçado de ajuda humanitária. Prática, infelizmente habitual, em diversas famílias que se apropriam de infâncias em situação de vulnerabilização para obter mão de obra sem encargos e direitos.
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Quando uma criança com sete anos sai da sua família, perde o vínculo familiar, não tem amigos e não tem acesso a educação formal, pode crescer achando que a vida se resume a trabalhar e a servir a essa família, constituindo uma subjetividade baseada em obedecer, submeter-se, agradar e servir.
O desejo de pertencer, o medo de desagradar, as migalhas de cuidado e carinho, e a dependência pelo básico da sobrevivência vão costurando ambivalências e propiciando as bases para a dependência emocional e a identificação com o agressor.
Imagine-se com sete anos, em uma casa estranha, que não é a sua, com rostos nos quais você não reconhece semelhança com os seus traços, onde lhe dizem o que tem que ser, fazer, lhe dão ordens de trabalho e você precisa obedecer porque está numa condição de total dependência, qual o poder de autonomia e questionamento diante de uma situação assim?
Embora todos nasçamos em condição de dependência, para atingirmos autonomia e interdependência, precisaremos de um ambiente que nos cuide, olhe para nós, atenda às nossas necessidades físicas e emocionais, nos proteja e disponibilize todos os recursos sociais e culturais para o nosso desenvolvimento.
No entanto, quando o objetivo é manter a dependência, a submissão, várias coisas deixam de ser oferecidas, dentre elas a dignidade da educação formal para que alguém possa se saber sujeito de direitos.
A exploração do trabalho, assim como outros tipos de violência, constrói relações assimétricas onde para sobreviver, mecanismo psíquicos são desenvolvidos. A identificação com o agressor, conceito elaborado pelo psicanalista Sándor Ferenczi, é um desses mecanismos: há o desejo de pertencer, de ilusoriamente ocupar um lugar diferente da passividade, de pensar parecido, para antecipar os desejos e evitar punições: pois a mão que explora é a que se tem acesso para alimentação, lugar onde dormir e algum mísero afeto.
Desta maneira, o explorado deseja ter a liberdade que tem o explorador, o poder do explorador, e decorrente das manipulações emocionais, ainda se torna capaz de defender e justificar a própria violência e exploração.
Ferramenta de sobrevivência
Ressalte-se que esse mecanismo é inconsciente e relacionado a um mecanismo de sobrevivência psíquica, em relações onde existe simultaneamente violência e gestos mínimos de afeto e cuidado que geram ambivalência e vínculo traumático.
Pois, para sobreviver, torna-se necessário distorcer a realidade e envolvê-la em fantasias que oferecem a ilusão de que aquilo que desejo pode existir: ser querida, amada, respeitada, pertencente àquela família ou de que conseguirei modificar aquela realidade dolorosa.
Não significa que a pessoa concorde ou goste da situação de exploração e que escolha isso, mas que a forma como o temor e o afeto acontecem simultaneamente, propicia a dificuldade do reconhecimento da exploração e do abuso.
A pessoa não tem condições de perceber que é explorada, de entender a situação de violência a que é submetida, e muitas vezes não tem possibilidade de buscar ajuda e nem sair imediatamente daquela situação porque existem vínculos emocionais ambivalentes.
Esta situação pode acontecer em muitas outras situações de violência, principalmente naquelas onde há alternância de afetos, onde existem ninharias de cuidados e onde há perda de conexão com familiares e rede de apoio e pouco acesso a cuidados, direitos e a informações.
Além disso, famílias em que a violência era naturalizada, em que se tornaram comuns espancamentos, violências físicas, psicológicas, patrimoniais, em que havia admiração pela figura que dominava e maltratava, coexistindo com o desejo de ser amada e não mais receber as violências, constroem o ambiente propício para essa configuração emocional.
Some-se a isso que o trabalho doméstico possui algumas peculiaridades sociais e subjetivas: atravessado pelo patriarcado e racismo estruturais criam a ilusão de que a pessoa é “um membro da família “ e não um funcionário (o que acarreta a não profissionalização e posse de garantias trabalhistas); por se desenvolver no convívio íntimo da família, vínculos e afetos são construídos, o que pode tornar difícil entrar em conflito e manter a relação de limites, defesa da identidade e os vínculos com a família de origem; a falta de conhecimento sobre os direitos trabalhistas e a relação entre vida precarizadas, vulnerabilizada e submissão a trabalhos que exploram.
Tais ambivalências também podem acontecer em outras formas de violência: relacionamentos abusivos, violência sexual, assédio, pois o agressor pode provocar sentimentos de dependência, pelo poder existente e remontar às situações de vulnerabilização diante de uma figura de poder, sejam relacionadas às figuras parentais ou em situações similares ao longo da história pessoal e coletiva.
Por isso que libertar alguém ou se libertar envolve dimensões muito mais amplas e complexas: envolve criar as condições psíquicas para que uma pessoa possa existir, fortalecer sua identidade, diferenciar-se, constituir-se enquanto sujeito, o que evidencia a necessidade de um trabalho multidisciplinar, promotor de cuidados que entenda as ambivalências, a existência do querer bem e do rancor simultaneamente, e o tempo delicado e necessário para que alguém possa se afastar emocionalmente de relações abusivas e de violência, porque elas se entrincheiram em partes da relação da pessoa consigo e com os outros, que remontam a questões da história pessoal, da sociedade e da cultura.
Por isso não se deve julgar, atacar ou desqualificar a dor de alguém por ter dificuldades em reconhecer e sair de uma relação abusiva, de denunciar um familiar que agride sexualmente, de desvencilhar-se das armadilhas emocionais que uma violência provoca porque a manipulação e o medo distorcem a realidade externa e interna.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.