Como sobreviver a um dia difícil

Esperança brota com poucas gotas de alegria e cuidado, e palavras podem ajudar a cicatrizar dores lancinantes.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier ceara@svm.com.br
Legenda: Identificar qual o cuidado aquela dor demanda é trabalho que nem sempre é possível sozinho, pois exige profunda capacidade de se perceber.
Foto: Tony Peck/Pexels.

Durante um dia, podemos experimentar diversos desconfortos, frustrações, quebra de idealizações, decepções, surpresas desagradáveis e cobranças, as quais fazem parte da vida em coletividade e que nos confrontam continuamente com necessidades de ajustes e adaptações. 

Entretanto, para algumas pessoas, os dias difíceis não são pontuais, são contínuos; para outras, um dia difícil pode ser devastador, como se estivesse em areia movediça que paralisa e afunda. 

Forjar recursos para sobreviver a um dia difícil demanda processos internos e externos. Torna-se necessário ter criatividade, esperança, capacidade de pedir ajuda, autoestima, confiança, e pressupõe a existência de políticas públicas, amizades, profissionais disponíveis para acolher e cuidar, rede de suporte institucional e afetiva, acesso a experiências que ajudem a explorar o novo e o diverso, família que proteja e ofereça assistência, um mundo interno que contenha e sobreviva ao inesperado, ao caótico, ao múltiplo e diverso.

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Um dia difícil precisa ser superado, e a primeira coisa é entender de onde vem a dificuldade. O que torna este dia um desafio, o que incomoda, onde dói, o que nos provoca, quais impasses e quais são as adversidades que se nos apresentam: solidão, desemprego, necessidade de mudanças, doença, conflitos profissionais, questões financeiras, decepções, medo de decepcionar, problemas no trabalho? 

Entender a dimensão do problema e o que ele nos provoca emocionalmente é compreender que um desafio nos confronta com quem somos e permite visualizar porque estamos sofrendo por isso ou aquilo.

A fonte de um sofrimento pode requerer um olhar profundo sobre nós mesmos: as exigências que fazemos conosco; as culpas; as dificuldades em perdoar e seguir; limites que permitimos que fossem ultrapassados; desrespeitos; desamor; desejos que deixamos de lutar por eles; necessidade de elaborar lutos e perdas; urgência em nos posicionarmos e dizer não; interromper ciclos de apatia e começar a agir e se responsabilizar pela vida; necessidade de busca por ajuda profissional e reconhecimento de processos de adoecimento; trabalhar-se para permitir-se amar e ser amado.

Uma dor emocional avassaladora pode deixar o dia em redemoinho, pode desorientar, desorganizar. O sofrimento turva o olhar sobre as coisas, geralmente oferecendo uma visão negativa. Por isso torna-se tão importante poder pedir e receber ajuda. 

Diversas vezes, é só um dia terrível, onde nos faltam bússola, ar e apoio para seguir; outras, é mais um dia que coleciona desespero. O antídoto para dias de  sofrimento é o cuidado. Identificar qual o cuidado que aquela dor demanda é trabalho que nem sempre é possível sozinho, pois exige profunda capacidade de se perceber. 

O cuidado pode ser individual ou coletivo, e requer escuta sensível: pode ser necessário um novo emprego, conseguir conter a impulsividade, construir novos projetos de vida, lidar com frustrações, pagar uma dívida financeira ou emocional,  aprender a dizer não, reaprender sobre os limites do corpo, conseguir diferenciar-se da família, defender-se de chantagens emocionais, libertar-se do jugo "o que os outros irão pensar", do medo de desapontar, da necessidade de agradar a todos, do desejo de perfeição,  da falta de confiança nos afetos, da falta de respeito, do sentimento de vergonha e do medo de ser quem se é.

Pode ser necessário crescer ou pode ser necessário permitir-se desabar.

Em desespero, muitos resolvem "chutar o pau da barraca". No entanto, para chutar o pau da barraca, é preciso ter retaguarda. Pois precisa avaliar: se você não vai dormir na barraca (porque se quebrar a barraca, depois terá o problema de procurar abrigo), se não tem ninguém dentro da barraca e se a barraca lhe pertence (para evitar culpa e processos), se você já usou a barraca (porque se ainda for usar terá que montar de novo, o que provavelmente dará mais trabalho e raiva), se está de sapato (porque pode machucar o pé no chute).

Eu já vi o desespero, a agonia, a perda do brilho no olhar de muita gente, e já vi a esperança voltar a correr pelo corpo e pela alma,  após os cuidados adequados, que não são mágicos e nem sempre rápidos ou simplistas.

Em algumas situações, certas "boias emocionais" podem nos aliviar do afogamento: conseguir aquietar, ouvir música (criar a playlist para os dias difíceis); entrar em contato com a natureza; realizar alguma atividade física; encontrar amigos; uma caminhada leve que permita olhar para o que está no caminho e pensar com quem pode contar, nos problemas que já enfrentou e nos aprendizados que possui para lidar com o desafio atual; respiração consciente e profunda; dança espontânea (sem coreografia e sem necessidade de acompanhar o ritmo); buscar apoio da rede afetiva ou profissional; adiar decisões importantes; distanciar-se momentaneamente de situações de conflito e ambientes com muitos estímulos; escrever sobre o que está sentindo; colocar em prática o plano terapêutico elaborado previamente com o profissional que lhe acompanha; entender que por pior que possa parecer a intensidade de uma crise, ela irá diminuir; permitir-se o choro; procurar um lugar seguro para descansar; manter os cuidados básicos com alimentação, sono, hidratação; não se abandonar. 

Um dia difícil irá exigir a nossa presença e companhia; que não nos ataquemos e possamos verter o amor que tivermos por nós sobre as feridas, que possamos lembrar que esperança brota com poucas gotas de alegria e cuidado, e que palavras podem ajudar a cicatrizar dores lancinantes.

Um dia difícil amplia o que sabemos sobre nós e sobre tudo o que nos acompanha. Assim, quando o dia estiver muito difícil, não se abandone. Como canta Marisa Monte: “todo corpo que tem um deserto, tem um olho de água por perto. Para ouvir basta abrir os poros, para aceitar, basta oferecer”.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.

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