O trabalho que constrói e o trabalho que adoece
Fortalecer redes e ter olhar crítico sobre o que se faz é imprescindível quando o trabalho deixar de se conectar com a vida.
O trabalho, segundo Marx, um dos grandes estudiosos desse tema, é a atividade fundamental que nos diferencia dos animais e dá origem à vida social e à própria humanidade. Ele assenta-se em uma atividade consciente, intencional, onde o ser humano, através da transformação da natureza para satisfazer suas necessidades, transforma dialeticamente a si mesmo, através de mudanças no pensamento, na linguagem, na forma de se relacionar e de agir.
Desta forma, o trabalho está na origem da ação do homem sobre o mundo, construindo cultura, cidades, vida em sociedade e a própria história.
O trabalho possui uma dimensão ontológica, ou seja, é constitutivo do ser, e atividade fundante do ser social; e teleológica, pois o homem, ao agir sobre a natureza, primeiro imagina o objetivo que deseja alcançar, e organiza suas ações para realizar o que deseja, ou seja, constrói primeiro na mente antes de construí-la na realidade.
Assim, o trabalho não é algo que se faz somente para ganhar dinheiro: envolve uma atividade consciente, planejada, com uma finalidade e que oferece sentido à existência, quando exercido de forma livre, consciente e criativa.
O trabalho envolve a criatividade, a nossa ação sobre o mundo e a nossa própria construção enquanto sujeito. Desta maneira, o trabalho, ao encontrar-se entrincheirado na produção de sentido sobre o mundo e naquilo que permite a um ser tornar-se quem ele é, quando acontece de forma alienada, repetitiva, sem reflexão, invisibilizada, desvalorizada, produz imenso sofrimento.
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Obviamente que todo trabalho produzirá algum sofrimento e mal-estar; entretanto, com o advento do capitalismo, o trabalho passa a operar em outro nível: o da exploração e alienação de si.
A perda do controle sobre os processos de trabalho, a fragmentação do trabalho e a alienação, acarretam também uma perda do próprio sentido do trabalho.
Atualmente observa-se um incentivo para que o sujeito seja um empreendedor, um "explorador de si". Tal ideia sustenta inúmeras ilusões: sob a pretensa sensação de posse e controle do seu trabalho, o sujeito abre mão de garantias trabalhistas, envolve-se em uma jornada de trabalho sem descanso para produzir ininterruptamente, movido pela ilusão de que conseguirá pelo mérito, o patrimônio bilionário das celebridades que acompanha pelos algoritmos. Tal empreitada será adoecedora e impactará nas políticas de saúde do trabalhador.
Para se ter ideia dos impactos do trabalho sobre a saúde mental, em 2025, no Brasil, segundo dados do INSS, foram mais de 546.254 afastamentos por questões de Saúde Mental, o recorde do país.
Tais dados não são aleatórios. A falta de políticas de saúde mental do trabalho, metas cada vez mais altas, discrepância entre exigências do trabalho e oferta de suporte e condições adequadas de trabalho, assédio, remuneração insatisfatória, vínculos precários, jornadas longas de trabalho, mudanças tecnológicas e dificuldades nas relações interpessoais são alguns dos fatores responsáveis pelos indicadores de saúde mental que envolvem depressão, ansiedade, alcoolismo, esquizofrenia e estresse crônico no trabalho
Além disso, existe uma questão de gênero no ambiente laboral que acarreta taxas de afastamento de 60% em mulheres em comparação a 30% nos homens, o que se relaciona com jornadas triplas de trabalho, assédio e menor remuneração.
Diante desses dados, no ano passado, o Governo atualizou a NR-1, norma que estabelece as diretrizes de saúde no ambiente de trabalho e que submete as empresas a fiscalizações para avaliar: condições precárias de trabalho, jornadas excessivas, assédio moral, metas discrepantes, falta de suporte, etc., na tentativa de propiciar melhorias nos ambientes de trabalho.
Futuro do mundo do trabalho
As expectativas em relação ao mercado de trabalho são preocupações constantes também entre adolescentes: se haverá emprego, se conseguirão ser bem remunerados, se encontrarão satisfação no trabalho, se conseguirão ter tempo para si quando começarem a trabalhar, se encontrarão um trabalho onde se sintam dignos, respeitados e felizes, se conseguirão visibilidade através de uma função que lhes ofereça pertença social atrelada ao trabalho.
O medo contínuo do desemprego, exposição à violência, precariedade de políticas públicas, fragilidades em relação a suporte para educação, saúde, moradia, ampliam os indicadores de adoecimento e aumentam a procura pela medicalização e agravam a culpabilização diante do sofrimento psíquico, ao pensar que é falta de força, coragem ou determinação; o que mascara os aspectos sociais e multideterminantes do adoecimento e transtorno mental.
Uma pessoa pode estar muito bem consigo, com sua família e amigos e, ao começar um trabalho que é mal remunerado, trabalha sobre pressão constante, sem apoio, sob ameaça, recebendo críticas que ultrapassam as avaliações profissionais e a dignidade das comunicações, sem perceber o valor social do que faz, sem acrescentar nada ao seu desenvolvimento pessoal, onde se sente incapaz e incompetente, sem o apoio e suporte de condições adequadas de trabalho, pode começar a apresentar sintomas de ansiedade, depressão, uso abusivo de substâncias decorrentes das experiências danosas do ambiente de trabalho.
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Além do mais, pessoas submetidas a ameaças, com receio de serem demitidas continuamente, pressionadas para produzirem incessantemente, podem apresentar quadros de Burnout (decorrente de estresse crônico ocasionado pelo trabalho) que envolvem desde sintomas físicos: insônia, dores musculares, enxaqueca, sensação de cansaço extremo (que não recupera mesmo após o sono) problemas gastrointestinais, alteração de peso, problemas cardiológicos, até sintomas emocionais: síndrome do impostor, sensação de fracasso, irritabilidade, alteração de humor, falta de motivação tanto para fazer as mesmas coisas quanto para se engajar em novos projetos, dificuldade de concentração e apatia.
O trabalho deveria permitir a dignidade, a solidariedade, o trabalho em equipe com valorização da diversidade, empoderando a criatividade e o sentido de pertencimento e valor.
Um trabalho em que informações são confusas, ambivalentes, relações de poder que oprimem e massacram, que não permite o desenvolvimento e crescimento pessoal, que não faz sentido, que distancia da família, que interfere na qualidade de vida, que não oferece descanso, proteção, onde a cultura organizacional favorece o preconceito e a discriminação, é um trabalho que adoece.
Infelizmente, nem sempre é possível conseguir sair rápido de um trabalho adoecedor. Entretanto, é necessário perceber quando se está identificado com o regime opressivo e competitivo, que ilude o trabalhador como se fosse o próprio patrão e cria a ilusão de ser querido e respeitado quando não o é.
Encontrar alternativas de trabalho de forma cooperativa, fortalecer movimentos que dialogam em busca de condições dignas de trabalho, acompanhar projetos e leis que incidem sobre as garantias trabalhistas e mudanças no mundo do trabalho, e fortalecer a identidade e o olhar crítico sobre o que se faz, é imprescindível para que quando o trabalho deixar de se conectar com a vida e virar adoecimento, ser capaz tanto de buscar os direitos existentes quanto procurar outras alternativas.
Nesta perspectiva, que sujeito o seu trabalho cria e o quanto de você é criado pelo seu trabalho? Quando pensa no seu trabalho, ele contribui para a sua vitalidade, sua saúde ou ele lhe adoece?
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.