A importância das primeiras vezes

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: Desbravar novos caminhos e se permitir o desconhecido estimula a neuroplasticidade e traz mais vida à rotina.
Foto: Shutterstock.

Existe um período na vida em que tudo é primeira vez: primeiro pé na grama, banho de mar, dormir fora de casa, primeiro chocolate, aniversário, primeiro amor, primeira bicicleta, primeiro beijo, primeira viagem, primeira aula, primeira professora, primeira escola, primeiro cinema, primeira saída só com os amigos, primeira ida ao estádio, primeiros sabores, primeiras palavras, primeiras lágrimas, primeiras aprendizagens e deslumbramentos.

Aos poucos, as novidades vão rareando e a vida desbota sem as cores da surpresa. Sob o mando da produtividade, a repetição torna-se um padrão para poupar tempo e agilizar resultados. Embora o criar hábitos seja organizador da vida, do desenvolvimento e fundamental para a história humana, o enrijecimento que não permite a quebra da rotina, a curiosidade, o deliciar-se com coisas novas, torna-se danoso para o enriquecimento cerebral, emocional e para a evolução humana, ao enaltecer a segurança e a acomodação, propiciando temor e fuga diante do desconhecido.

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A importância de experimentar coisas novas é um tema muito estudado pela neurociência. Diversos estudos e pesquisas como as de Schultz e Loewenstein, mostram que a curiosidade surge quando há uma tensão entre o que se sabe e o que se deseja saber, ressaltando que precisa haver uma falta, um desconforto, que desperte a curiosidade e  acarrete o movimento para saber. Em tempos onde o desconforto e a falta são evitados, corre-se o risco de repetir somente as trilhas dos mesmos algoritmos digitais.

As pesquisas mostram que a novidade funciona como um combustível para o cérebro, favorecendo a aprendizagem, a descoberta de alternativas e incidindo positivamente sobre a saúde mental.  A curiosidade é uma experiência afetiva, um estado emocional que necessita ser instigada e apoiada.

Experimentar coisas novas é alimento para a alma, favorece a memória, criatividade, aprendizagem, expansão do mundo interno e aprofundamento da identidade. 

Além disso, quando fazemos algo pela primeira vez, a novidade ativa liberação de dopamina, que tanto prepara o cérebro para aprender quanto produz uma sensação de prazer e bem-estar, decorrente da motivação e exploração sobre o mundo. Assim, novas experiências estimulam a neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de aprender, se modificar e evoluir através da criação e reorganização de conexões neurais.

O livro: The Brain That Changes Itself: Stories of Personal Triumph from the Frontiers of Brain Science, de Norman Doidge, ressalta que o cérebro não é uma estrutura estática, imutável, e que experiências, pensamentos e prática , como a aprendizagem de novas habilidades, modifica fisicamente o cérebro. Assim, mudanças e desenvolvimento tornam-se sempre possíveis, pois o cérebro mantém a capacidade de adaptação mesmo na vida adulta e velhice e pode reaprender e compensar perdas sensoriais, danos neurológicos, desde que receba estímulos adequados e terapias específicas. 

Novos  desafios fortalecem conexões neurais; aumentam a flexibilidade cognitiva; ajudam a preservar funções mentais ao longo da vida; desta forma, ambientes enriquecidos e estimulantes mudam o cérebro.

Pessoas que viajam, se permitem aprender novas habilidades, conhecer culturas diferentes, explorar ambientes novos, tendem a apresentar maior flexibilidade mental e criatividade.

As primeiras vezes ampliam a capacidade simbólica, favorecem a construção da identidade, a descoberta dos próprios gostos e limites, fortalece a autonomia, aumenta a tolerância à incerteza, estimula a curiosidade e o pensamento. Quem faz sempre as mesmas coisas, do mesmo jeito, não se permite pensar outras ideias, descobrir novas experiências, utiliza sempre os mesmos circuitos; quem explora, abre novas trilhas neurais, afetivas e cognitivas.

O gosto, o toque, o cheiro, os olhos brilhando, a memória das primeiras vezes mantém o espírito vivo. É uma pena aquele que pensa que já viu tudo, que já sabe de tudo, que foi desprovido do encantamento curioso sobre o mundo e se entrincheira em um lugar de desgosto e crítica a tudo que envolve sair da acomodação. 

O novo, o desconhecido podem assustar, pode incomodar, pode nos desafiar, podemos apresentar mil desculpas para não ousar, para não sermos desinstalados do mesmo. Entretanto, se nos permitimos ler algo novo, experimentar algo diferente na cidade, conhecer outras pessoas, fazer o usual de formas diferentes, aprender novos sabores, saborear novas ideias, andar curioso com os olhos e os sentidos despertos sobre a cidade, estamos nos modificando, estamos experimentando prazer produzido internamente, sem aditivos nem danos, estamos nos ampliando e repetindo o passo humano tão fundamental para avançarmos enquanto espécie: a fome sobre o mundo.

Portanto, qual primeira vez você pode se permitir hoje?

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.