Empreendedorismo digital: caminho para o Ceará

O incentivo ao empreendedorismo digital é fundamental para que o Ceará possa avançar e reduzir o atraso que o Estado e a própria região Nordeste experimentam em relação ao eixo Sul/Sudeste na área. É importante registrar, no entanto, que a ambiência de negócios digitais no Brasil como um todo - até nas áreas mais prósperas - enfrenta dificuldades. Hoje, nem criar um aplicativo é algo simples no Brasil. Elaborar todos os procedimentos dentro da lei e registrar a sua invenção será ainda mais desafiador.

Mas há aspectos globais que revelam um cenário de oportunidades às quais o Brasil e o Ceará precisam estar atentos. Nos Estados Unidos, onde o empreendedorismo digital está em alta e o ambiente de tudo isso é bem diferente, mudanças na legislação tributária podem levar muitos investidores de startups a migrarem para novos mercados nos próximos três anos. Mas será que o Brasil e o Ceará estão preparados para receber esses investidores digitais globais?

Aqui no Nordeste, não há consistência em termos de investimentos digitais na comparação com outras regiões. Em outros países, de estrutura social parecida (até inferior) com a do Brasil, há casos de sucesso. Isso me fez investigar mais a fundo a temática no nosso País. Nesse processo, obtive respostas desconexas e algumas que convergiam para uma afirmação clichê: "fazer negócios no Brasil é burocrático, caro e corre um alto risco da imprevisibilidade das leis".

O que fizemos efetivamente para mudar essa dinâmica? A reação do Brasil foi aprovar legislações como o Inova Simples (Lei Complementar 167/2019) e a própria Lei da Liberdade Econômica (Lei 13.874/2019), entre outros dispositivos. Um caminho traçado na tentativa de simplificar processos legais e atrair empresas e/ou investidores. Há bem pouco tempo, o Governo Federal abriu consulta pública a interessados e especialistas no tema para receber sugestões sobre uma nova legislação voltada às startups. O objetivo final é subsidiar a elaboração de um novo marco legal para o setor.

No Ceará, penso que os efeitos dessas mudanças legais serão mínimos. Aqui, antes, precisamos pensar os aspectos locais e remodelar o papel do desenvolvimento na criação de prosperidade. É imprescindível criar um ambiente que dê suporte à criatividade de muitos inovadores que vislumbram oportunidades, mesmo nas dificuldades. Nessa área da inovação digital, é importante reconhecer o nosso Estado, celeiro de campeões no ITA/IME, está atrasado.

Obras estruturantes como o HUB de conectividade são fundamentais, mas insuficientes. Tem que se reinventar mesmo! Reagir positivamente a esses mercados dinâmicos e de olho em objetivos mais amplos, estimulando melhor os ecossistemas de inovação, para além do "Rapadura Valley" (ecossistema de startup de Fortaleza), que é um bom exemplo, embora insuficiente para o contexto maior. Aqui, não há, por enquanto, crescimento de fintechs nacionais ou mesmo outras importantes áreas da economia, a não ser duas importantes edtechs: a Arco Educação e a Agenda Edu. Há espaço de crescimento para o Estado ir além.

Há vagas de emprego na área do empreendedorismo digital, mas não há contrapartida de mão de obra especializada. A estratégia vencedora nesses mercados emergentes digitais diverge da abordagem convencional em quase todos os aspectos, vez que deveria se concentrar em empreendimentos que abordam as necessidades não satisfeitas dos consumidores diários (a dor do cliente), em vez de procurar oportunidades de alta margem na classe média/alta. Pode estar aí um nicho de oportunidades a oxigenar a economia cearense. Algo virtuoso e retroalimentado. Caso contrário, a repetida tentação da improvisação vai vencer. Estejamos atentos, para não perdermos o timing!