Especialistas avaliam efeitos de vacinação desordenada no Brasil

Uma vez autorizada, a compra de imunizantes por estados e municípios pode ser terreno fértil para novas cepas. Autoridades no assunto alertam para os perigos da lentidão para que Plano Nacional de Imunização inicie no País

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Legenda: Aquisição de novas vacinas pode ocorrer no mês de abril em meio a polêmicas
Foto: Thiago Gadelha

Após o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizar por unanimidade, nesta semana, que estados e municípios comprem vacinas contra a Covid-19 sem intermediários, especialistas avaliam que vacinar a população fora do Plano Nacional de Imunização (PNI) — programa do Ministério da Saúde —, pode ser um risco, principalmente, pelo surgimento de novas variantes do vírus. No Ceará, por exemplo, a aquisição já pode ocorrer em abril, caso empresas do ramo tenham vacinas em estoque, segundo o titular da Secretarial da Saúde do Estado, Dr. Cabeto.

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Em paralelo, um Projeto de Lei (PL) apresentado pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), prevê que empresas também possam adquirir os imunizantes. Além disso, o texto responsabiliza, além do Governo Federal, prefeitos e governadores por possíveis efeitos colaterais em decorrência da vacina. “A iniciativa de buscas desenfreadas de vacina por estados e prefeituras gera um desbalanceamento na imunização. Do ponto de vista epidemiológico é terrível”, avalia o professor Jones Albuquerque, que faz parte do Comitê Científico do Consórcio do Nordeste, no subgrupo de Modelagem Matemática. 

Força-tarefa

O especialista explica ainda que é preciso uma espécie de força-tarefa em conjunto no processo de vacinação.

“A gente tem um dos melhores programas de vacinação do mundo, [...]o que não teve foi autoridade sanitária. [...]O nosso sistema de vigilância epidemiológica federal falhou no combate porque aditou medidas sem sincronia”, analisa.

Pesquisadores da área avaliam o risco. Isso porque, uma vez que determinadas regiões poderão estar parcialmente imunizadas, cidades ou estados vizinhos — onde o tráfego de pessoas entre eles é intenso —, poderão não ter a mesma eficácia na imunização. 

A epidemiologista, virologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, Caroline Gurgel, reforça que, apesar dos esforços para a compra das doses, “a vacina não impede a infecção, e sim os casos graves. Por hora, o vírus está ganhando, quem está levando a melhor é o coronavírus”.

Há críticas da comunidade científica pela lentidão do Governo Federal na compra e distribuição de vacinas. A preocupação é que, com a demora, é possível que o vírus sofra mutações, e os imunizantes que chegarão podem, em tese, não ser mais eficazes conta as novas cepas. 

No Brasil, já circulam ao menos três variantes do coronavírus. As novas cepas são objeto de estudo de autoridades sanitárias ao redor do mundo. 

As alterações na principal proteína usada pelo vírus para infectar as células humanas tornam essas novas linhagens potencialmente mais transmissíveis. “Municípios e Estados com dinheiro podem buscar vacinas que vão criar bolhas de imunização. Se o vírus não estivesse mutando, essa poderia ser uma saída, mas ele sofre mutação e com isso nós temos várias pandemias dentro de uma mesma pandemia”, destaca o professor Jones. 

O pesquisador pondera ainda que “a vacina foi testada, planejada, estudada testada com muita competência ao redor do mundo, mas o cenário de observação era outro \[...\] e agora ninguém sabe o que vai acontecer[...]”. 

 

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