Atraso para servir o almoço pode ter salvo a vida de outras crianças em Saudades

Ataque a creche ocorreu por volta das 10h, quando todas as crianças deveriam estar reunidas no refeitório

Vítimas do ataque
Legenda: Fotos das vítimas mortas foram coladas no portão da escola
Foto: André Ávila / Agencia RBS

O ataque dessa terça-feira (4) à creche Pró-Infância Aquarela em Saudades, no oeste de Santa Catarina, poderia ter um desfecho ainda pior, se não fosse o atraso para servir o almoço das crianças naquela manhã.

Segundo relato de umas das professoras da escola, que preferiu não se identificar, as 30 crianças da unidade já deveriam estar reunidas no refeitório por volta das 10 horas, o que não aconteceu.

Nesse mesmo horário, ela ouviu gritos, percebeu que tinha um homem armado e gritou para alertar toda a escola. No momento do ataque, havia cerca de 20 funcionárias e professoras na creche. O aviso foi decisivo para que outras crianças fossem protegidas.


 
"Estava na sala dos professores realizando atividades extraclasse, o almoço atrasou não sei porquê. Eu ouvi minha colega Keli (professora) dizer que atenderia uma pessoa no portão. Em seguida, ouvi gritos, larguei minha caixa de atividades e fui ver o que estava acontecendo. Ele já estava esfaqueando ela. Nesse momento eu gritei bem alto para avisar que tinha um homem armado dentro da escola, voltei pra sala, fechei a porta, peguei meu celular e avisei a secretaria de Educação", conta.

"Depois, eu sai pelo corredor e vi que a Mirla (agente educadora morta durante os ataques) já estava deitada no chão. Pulei uma janela e consegui entrar na minha sala. Todas nós (professoras) ficamos segurando as portas para ele não conseguir entrar. Daí ele começou a bater nas janelas e (tentou) forçar para entrar nas salas", relata a professora.

Um homem que trabalhava em uma metalúrgica do outro lado da rua e o vizinho, numa loja de motos ao lado do prédio da creche, ouviram os gritos.

Segundo a professora, o primeiro pegou uma barra de ferro do chão e correu em direção à creche para conter o agressor e impedi-lo de cometer suicídio, enquanto o outro pegou uma das crianças feridas e a levou ao hospital. Toda a ação durou cerca de 10 minutos.

"Quando pude sair, o vi deitado no chão com muito sangue. A minha colega Keli tentou salvar as crianças, mas ele conseguiu entrar naquela sala porque a Mirla havia saído para preparar o almoço delas e a porta estava aberta. A Keli tentou avisar, mas não deu tempo. Isso parece um filme de terror que ainda não acabou", lamenta a professora.

A creche Pró-Infância Aquarela tem sete salas de aula, no total, sendo quatro na parte da frente, e atende a cinco turmas do berçário com crianças de até dois anos. Apenas uma professora conseguiu retirar as crianças da sala enquanto o jovem praticava os crimes. As três crianças que morreram no ataque tinha menos de 2 anos. 

Suspeito atacou escola no intervalo do expediente

Funcionário de uma fábrica de roupas e calçados em Saudades, o jovem de 18 anos suspeito do crime cometeu o ataque na pausa do seu expediente, segundo informações do portal GZH. Ele bateu o ponto às 5h e às 9h15 saiu para o intervalo

Um morador vizinho à escola disse que ele chegou no local de bicicleta, usando moletom e mochila, e entrou pelo portão, como um pai de uma criança entraria.

A atendente educacional Aline Biazibetti, 27 anos, não estava na creche, pois trabalha à tarde. Também vizinha da escola, ela ouviu os gritos e correu em direção ao local, resgatando um bebê de um ano e oito meses que foi salvo por um mecânico.

"Estava com um corte na boca e no pescoço. Eu levei ele para o hospital com meu pai. Eu só pensava em salvar aquela criança", disse ela.

Enquanto isso, acrescenta ela, outras funcionárias corriam pela rua pedindo socorro. "Um dos homens que invadiu catou duas crianças pelo braço que achou que estavam vivos e trouxe para fora da creche. Era um pesadelo", contou Aline.

Tentativa de suicídio

O autor do crime tentou suicídio após o ataque, mas foi interrompido pelos agentes de segurança. Ele foi atendido, passou por uma cirurgia e não corre risco de vida.

O Instituto Geral de Perícias (IGP) afirmou, em coletiva de imprensa, que o adolescente entrou com duas facas na escola, mas só usou uma. Todas as vítimas receberam pelo menos cinco golpes

Ele não tinha antecedentes criminais e ninguém da sua família suspeitava que ele planejava o crime, ainda segundo IGP. A possível motivação do crime não foi divulgada pela polícia. 

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