Primeiro-ministro do Sudão é preso e general dissolve governo em golpe militar

Protestos contra a detenção de Abdallah Hamdok foram reprimidos com "balas reais" pelo Exército

Primeiro-ministro do Sudão Abdallah Hamdok, preso pelos militares em outubro de 2020
Legenda: O país enfrenta uma transição política precária, marcada por divisões e lutas de poder desde a queda do ditador Omar al-Bashir em abril de 2019
Foto: AFP

O chefe das autoridades de transição do Sudão, general Abdel Fattah al-Burhane, anunciou nesta segunda-feira (25) a dissolução do governo e do Conselho de Soberania e declarou estado de emergência.

No anúncio, o general disse que formará um governo composto de "pessoas competentes" e reiterou o compromisso com a "transição para um Estado civil". Prometeu, ainda, criar várias instituições estatais, como a Suprema Corte, as quais já deveriam ter sido instaladas há meses, conforme o calendário de transição adotado após a queda do autocrata Omar al-Bashir, em 2019. 

Esta captura, tirada do Sudão, mostra o general do exército Abdel Fattah al-Burhan se dirigindo ao povo sudanês em 25 de outubro de 2021.
Legenda: al-Burhan declarou estado de emergência em todo o país, dissolveu as autoridades que lideravam a transição do país para a democracia e anunciou a formação de um novo governo
Foto: SUDAN TV/AFP

Antes do comunicado, as Forças Armadas prenderam o primeiro-ministro do Sudão, Abdallah Hamdok, e várias outras autoridades civis por se recusarem a apoiar um "golpe de Estado", segundo o Ministério da Informação, após semanas de tensões entre civis e militares, que dividem o poder desde 2019.

"É um golpe de Estado militar", denunciou a Associação de Profissionais, uma das organizações que liderou a revolta de 2019 que acabou com 30 anos de ditadura de Omar Al Bashir neste país do leste da África, um dos mais pobres do mundo.

Manifestantes sudaneses saltam sobre um bloqueio de estrada feito de tijolos e pneus em chamas enquanto se manifestam na 60th Street na capital Cartum
Legenda: "Não aceitaremos um regime militar", declarou um dos indivíduos que protestaram contra as detenções de autoridades civis
Foto: AFP

Antes de ser preso, o gabinete do primeiro-ministro sudanês convocou os compatriotas a saírem às ruas contra os movimentos dos militares. 

"Estimulamos o povo sudanês a protestar utilizando todos os meios pacíficos possíveis (...) para recuperar sua revolução das mãos dos ladrões", declarou a assessoria do premiê, em um comunicado.

Manifestantes se aglomeraram nas ruas e queimaram pneus para protestar contra as detenções. Ao mesmo tempo, homens de uniforme militar bloquearam as estradas principais que levam à capital, Cartum, onde o acesso à internet foi interrompido, e à cidade vizinha de Omdurman.

"Não aceitaremos um regime militar. Estamos dispostos a dar nossas vidas pela transição democrática", declarou à AFP um deles, Haitham Mohamed.  

No entanto, os protestos foram reprimidos com "balas reais" pelo Exército diante dos quartéis-generais das Forças Armadas, no centro de Cartum. O acesso à área está bloqueado por blocos de concreto e por soldados há vários dias, acrescentou o mesmo ministério no Facebook. Um comitê de médicos locais relata que pelo menos 12 pessoas ficaram feridas nos confrontos, conforme o G1

Forças de segurança sudanesas destacam-se na capital Cartum, em 25 de outubro de 2021, após detenções noturnas pelo exército de membros do governo sudanês
Legenda: As manifestações foram reprimidas com "balas reais" disparadas membros das Forças Armadas
Foto: AFP

Instabilidade política

O Sudão enfrenta uma transição política precária, marcada por divisões e lutas de poder desde a queda de Bashir em abril de 2019. 

Desde agosto, o país está sob o comando de uma administração cívico-militar, responsável por conduzir o país para uma transição democrática plena sob gestão civil, visando organizar no fim de 2023 as primeiras eleições livres em três décadas. Mas nos últimos dias, a tensão aumentou entre os dois lados. 

Em 21 de outubro, dezenas de milhares de sudaneses participaram de passeatas em várias cidades para apoiar a transição de poder aos civis e contra-atacar uma "manifestação" iniciada dias antes diante do palácio presidencial de Cartum para exigir a volta do "governo militar".

Um dos problemas é que o principal bloco civil, as Forças pela Liberdade e a Mudança (FCC), que liderou o movimento contra Bashir, se dividiu em duas facções.

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