Legislativo Judiciário Executivo

Desenvolvida a partir de um forte militar holandês às margens do Riacho Pajeú, Fortaleza carrega, desde a origem, uma relação direta com disputas e conflitos. Situada em posição estratégica no litoral, a cidade cresceu não apenas sob o signo da expansão urbana, mas também marcada por episódios de tensão que transformaram ruas em trincheiras, fecharam o comércio às pressas e colocaram multidões frente a frente com forças militares no Centro.

Ao longo dos séculos, revoltas, levantes populares e confrontos expuseram disputas de poder, tensões sociais e momentos de ruptura política — seja no período imperial, seja durante a ditadura militar.

Na semana em que celebra seus 300 anos, o Diário do Nordeste publica uma série de reportagens multimídia que ajudam a entender como a capital cearense chegou aos três séculos de existência, das disputas políticas aos marcos econômicos, das mudanças urbanas às memórias afetivas que atravessam gerações. Nesta matéria, o PontoPoder relembra alguns dos principais conflitos que moldaram a história da capital cearense.

Aniversário de Fortaleza

Confederação do Equador (1824)

Gestada em Pernambuco, a Confederação do Equador eclodiu em 1824 como um movimento que pretendia emancipar os estados nordestinos diante da centralização do poder por Dom Pedro I e da influência portuguesa no País.  

Ainda com a Revolução Pernambucana fresca na memória popular, a mobilização de 1824 rapidamente se espalhou pelo Nordeste — e, com a mesma velocidade, foi reprimida pelas forças monarquistas.

Nos dois movimentos, o Ceará teve polos de adesão, inclusive na Capital. Em meados daquele ano, as ruas de Fortaleza passaram a ter manifestações com centenas de apoiadores da Confederação.

Duas placas com nomes de ruas de Fortaleza. Elas indicam as ruas Tristão Gonçalves  e Senador Alencar.
Legenda: Irmãos republicanos, Tristão Gonçalves e José Martiniano de Alencar dão nome a um cruzamento no Centro de Fortaleza.
Foto: Thiago Gadelha

Na esteira dessa revolta, a cúpula do movimento destituiu o presidente da província e elegeu Tristão Gonçalves de Alencar Araripe como novo governante. A mudança, no entanto, durou pouco. Em outubro, o Império enviou reforço militar para a Capital e a repressão passou a ser mais violenta, com perseguições e torturas. O próprio Tristão Gonçalves foi capturado e morto no Interior. 

Entre abril e maio de 1825, um dos espaços mais tradicionais e centrais de Fortaleza virou cenário da extrema violência do Império. Os líderes do movimento republicano, Azevedo Bolão, Feliciano Carapinima, Francisco Ibiapina, Padre Mororó e Pessoa Anta, foram executados no Passeio Público. No fim daquele século, o local foi renomeado para Praça dos Mártires, em homenagem aos revolucionários.

Placa com homenagem a mártires instalada no Passeio Público. Ao lado, um pedestre caminha no local.
Legenda: Martírio é lembrado em placa instalada no Passeio Público.
Foto: Thiago Gadelha

Revolta urbana contra a oligarquia Accioly (1912)

Fortaleza viveu, em janeiro de 1912, um dos episódios mais violentos de sua história política. A revolta teve como estopim uma eleição marcada por denúncias de fraude e pelo descontentamento com a oligarquia de Nogueira Accioly, um ciclo político de clientelismo, nepotismo, autoritarismo e corrupção.

A tensão explodiu após a repressão militar a uma passeata — composta, em grande parte, por crianças — no dia 21 de janeiro. Relatos da época indicam que a cavalaria avançou sobre os manifestantes, provocando feridos e mortes. Os pais das vítimas responderam disparando indistintamente contra os agentes públicos.

A reação foi imediata. Entre os dias 21 e 24, ruas e praças de Fortaleza se transformaram em cenários de confronto, com tiroteios, incêndios, barricadas e ataques a prédios públicos.

A Delegacia Fiscal e a Cadeia Pública foram alvos dos revoltosos. O comércio fechou, o transporte foi paralisado e a cidade mergulhou em um clima de guerra. Estima-se que o Governo tinha cerca de mil soldados, mas eles permaneceram em seus redutos. À medida que os dias avançavam, os militares começaram a se ver com fome e sede.

O movimento só arrefeceu após a renúncia de Accioly, que deixou o Palácio da Luz, então sede do governo, e seguiu às pressas para o Rio de Janeiro. Nas eleições seguintes, o candidato oposicionista Franco Rabelo foi eleito no Ceará.

Jornal Pátria noticiava a renúncia do governador.
Legenda: Notícia da época relatando a situação do então governador.
Foto: Reprodução/Hemeroteca Nacional.

Revolta dos bondes (1925)

Em 1913, começou a circular por Fortaleza o primeiro bonde elétrico. A novidade causou alvoroço na população, que queria experimentar o equipamento. A operação dos bondes era comandado pela companhia inglesa “Ceará Tramway, Light and Power”, que não tinha concorrentes. 

Pouco mais de 10 anos após a inauguração, as críticas se avolumavam. Havia queixas de superlotação, sujeira, falta de conforto, exposição dos passageiros à chuva e até interrupções no fornecimento de eletricidade, que comprometiam a circulação dos bondes.

Imagem histórica de um bonde lotado circulando pela rua Major Facundo.
Legenda: Bonde circulando pelo Centro de Fortaleza.
Foto: Reprodução/Arquivo Nirez/Acervo Digital de Fortaleza

Em 1925, a Light and Power anunciou uma série de medidas, entre elas a elevação das tarifas e mudanças no sistema de transporte — como a divisão dos veículos em 1ª e 2ª classe e alterações nos horários —, o que deflagrou uma revolta popular.

Em setembro de 1925, estudantes iniciaram protestos que rapidamente ganharam adesão popular. A Praça do Ferreira virou o principal palco das manifestações. Bondes foram invadidos, depredados e interrompidos. A polícia reagiu com prisões, mas os protestos continuaram nos dias seguintes, com paralisação do comércio e suspensão de aulas.

A revolta foi contida, mas escancarou o descontentamento da população com os serviços urbanos e com a falta de regulação sobre empresas estrangeiras.

Aniversário de Fortaleza

Quebra-quebra contra estrangeiros (1942)

Em plena Segunda Guerra Mundial, a Alemanha afundou, em meados de agosto de 1942, cinco navios brasileiros em um intervalo de dois dias. O episódio provocou a morte de 600 tripulantes.

O caso reforçou uma insatisfação já crescente na população de rejeição a estrangeiros. No dia 18 de agosto, o movimento foi deflagrado com protestos que partiram da Faculdade de Direito da UFC em direção à Praça do Ferreira. 

Multidão reunida em frente a um prédio histórico, em cena antiga em preto e branco. Várias pessoas, muitas usando chapéus, observam ou participam de uma aglomeração diante de uma fachada com sacada e uma placa com o nome “A Cruzeiro”. A imagem tem aparência desgastada, típica de fotografia histórica, e sugere um evento público ou manifestação.
Legenda: Vândalos se encaminham para destruir a loja A Cruzeiro, cujo dono era dito partidário do integralismo, movimento brasileiro de inspiração fascista.
Foto: Acervo Thomaz Pompeu Gomes de Matos.

O movimento rapidamente se espalhou pelo Centro, com ataques a estabelecimentos associados a estrangeiros — especialmente alemães e italianos. Lojas, padarias, cafés e armazéns foram depredados. Durante os atos, manifestantes gritavam palavras de ordem contra Adolf Hitler.

Foram alvos das depredações:

  • as lojas Pernambucanas, da família alemã Lundgren; 
  • a Fábrica Italiana, do espanhol Rudezindo Nocelo Feijó (entrou na mira por causa do nome);
  • a Padaria Italiana, da família italiana Rattacaso; 
  • o Café Íris, do italiano Francisco Orlando Laprovítera; 
  • os Armazéns, do italiano Alexandre Papaleo; 
  • a Casa Veneza, sapataria do italiano Francesco di  ngelo;
  • a loja A Formosa Cearense, a Tinturaria Italiana, a Tinturaria Modelo e a Casa de Confecções 3 Oitos, todas da família italiana Marino; 
  • a Casa Cunto, alfaiataria e sapataria da família italiana Cunto; 
  • o Jardim Japonês, da família Fujita. 

Naquele momento, o Brasil ainda não havia declarado guerra à Alemanha e à Itália, o que ocorreu em 22 de agosto de 1942.

Aniversário de Fortaleza

Guerra das Castanheiras (1968)

Nos anos 1960, impulsionada pela expansão industrial, Fortaleza concentrava um grande contingente de trabalhadores pobres, especialmente mulheres empregadas na indústria de beneficiamento da castanha. Nesse contexto, a cidade funcionava como um polo de mão de obra precarizada, marcada por baixos salários, condições insalubres e forte desigualdade urbana.

Foi nesse cenário que centenas de operárias da fábrica Companhia Industrial de Óleos do Nordeste (Cione), conhecidas como “castanheiras”, deflagraram uma greve exigindo aumento salarial, melhores condições de trabalho e o fim das punições às trabalhadoras mobilizadas.

O movimento teve início de forma espontânea, com a paralisação das atividades, e rapidamente evoluiu para formas mais organizadas de ação, como piquetes, enfrentamentos com a direção da fábrica e mobilizações fora do espaço industrial.

As operárias ocuparam ruas, dialogaram com estudantes e outros trabalhadores e buscaram apoio em sindicatos e organizações políticas, transformando uma reivindicação inicialmente econômica em uma mobilização com maior alcance social e político. 

A reação patronal e estatal também marcou o desenrolar do movimento. Houve tentativas de repressão direta dentro da fábrica, além da posterior intervenção sobre o sindicato e ação dos órgãos de repressão do regime.