Fabiano Contarato deu o recado: diante do preconceito, a política não pode silenciar

Ver as casas legislativas, ainda pouco diversas em relação às populações que representam, não silenciarem diante de absurdos é passo importante

Senador Fabiano Contarato
Legenda: Contarato foi apoiado por colegas após responder comentário homofóbico do empresário Otávio Fakhoury
Foto: Agência Senado

Em um dos discursos mais potentes vistos na cena política brasileira nesta semana, o senador Fabiano Contarato (Rede-ES) parafraseou Martin Luther King para falar sobre sonhos:  

“Eu sonho com o dia em que eu não vou ser julgado por minha orientação sexual. Sonho com o dia em que meus filhos não serão julgados por serem negros. Eu sonho com um dia em que minha irmã não vai ser julgada por ser mulher e que o meu pai não será julgado por ser idoso", disse. 

Na cadeira da presidência da CPI da Covid, ele colocou o empresário bolsonarista Otávio Fakhoury diante da própria homofobia, despejada antes nas redes sociais. Em rede nacional, veio a “desculpa” de que foi uma “brincadeira”. Não deve haver mais espaço, em 2021, para “desculpas” ou “brincadeiras” do tipo. Pessoas morrem pelo ódio alimentado por "brincadeiras". O nome é outro.  

Em meio a centenas de reações em apoio a Contarato, único senador abertamente gay entre os 81 que atualmente exercem mandato no Senado, houve também quem questionasse desvio de foco, já que o objeto das investigações, como é de conhecimento geral, é a atuação federal no combate à Covid-19

Não silenciar

Recorro, então, a outra frase, também atribuída ao líder histórico da luta por direitos civis nos Estados Unidos, para afirmar que não houve desvio nenhum: “o que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”. Vale também para a política institucional que, ao contrário do que podem pensar alguns, não está nada distante das relações sociais que construímos, dia a dia, como cidadãos. 

Nesta semana, foi a resposta à homofobia de um empresário que virou notícia. Dias antes, o que ganhou as manchetes foi o racismo que fez a delegada Ana Paula Barroso e a estudante Mel Campos romperem o silêncio da dor. Ainda em setembro, uma discussão entre vereadores de Iguatu provocada por uma atitude machista de um legislador.

Os episódios geraram repúdio de políticos e, mais do que isso, sinalizações concretas. 

Providências

Na Assembleia Legislativa, a Procuradoria Especial da Mulher solicitou providências à Câmara Municipal de Iguatu sobre possível violência política sofrida pela presidente da Casa, vereadora Eliane Braz (PSD). No turbilhão das repercussões das duas denúncias de racismo, os deputados estaduais também aprovaram a criação do Selo Município Sem Racismo

Ver as casas legislativas, ainda pouco diversas em relação às populações que representam, não silenciarem diante de absurdos é um passo importante. Combater a homofobia, o racismo, o machismo e outras mazelas não deve ser bandeira política de uma bancada ou outra.

Ao mesmo tempo, reagir, embora tenha um peso simbólico, não é suficiente. Ainda falta agir mais. É preciso que cada vez mais os nossos vereadores, deputados e senadores usem suas vozes para defender transformações necessárias. Com isso, não estão fazendo nada além de cumprir o papel que lhes cabe numa democracia. É obrigação.

Mesmo com a crise de representatividade, materializada na falta de confiança na classe política, quem exerce cargos eletivos têm o dever de dar exemplo. Enquanto o ocupante do cargo máximo do País não tem vergonha de ser preconceituoso na televisão, é cada vez mais urgente fazer ecoarem da política lições de civilidade.

* Colunista entra em férias a partir de 04/10.