'Sensação que o dinheiro não dura': 75% dos fortalezenses com renda recebem até R$ 2,8 mil

Dados do IBGE e do Ipece apontam faixas de rendimento na capital cearense, considerando formais e informais

Legenda: O 1% dos "mais ricos" da Capital incluem aqueles que recebem uma renda acima de R$ 10 por mês.
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Mesmo tendo o "melhor salário que já teve na vida", a social mídia Alana Maria, de 27 anos, ainda tem dificuldades para fazer planos depois de pagar as contas do mês. Isso porque boa parte do salário, que está na faixa dos R$ 4 mil já está comprometido com gastos fixos e despesas emergenciais.

Fato curioso é que ela faz parte dos 25% "mais ricos" de Fortaleza, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece). 

De acordo com um levantamento feito no segundo trimestre de 2021, 75% da população com alguma renda mensal na capital cearense recebe até R$ 2,8 mil.

Os dados ainda apontam que quem ganha mais de R$ 5 mil por mês está entre os 10% "mais ricos". Já o 1% "mais rico" inclui aqueles que recebem uma renda acima de R$ 10 mil por mês. 

A social mídia conta que as coisas começaram a ficar bem mais complicadas nos últimos meses, quando todos os produtos e serviços básicos começaram a ficar mais caros. 

"Se em janeiro eu pagava de R$ 160 a R$ 180 reais de energia, agora, são R$ 280 a R$ 300 reais e não é como se fosse uma casa grande, é onde moram 3 pessoas e se usa o básico para se viver que é geladeira e computador, praticamente. Além disso, tem a gasolina, a minha companheira tem um carro e a gente só usa para fazer compras ou ir trabalhar e não dá para nada. A sensação é que não dura. O salário entra na conta e não se sabe para onde o dinheiro vai", contou.  

"Essa é a perspectiva que a gente vê. A gente até deixou de sair para festas ou eventos por conta da pandemia e não viu economia, até porque estamos pagando mais em alimento. Uma bandeja de ovo, hoje, está R$ 16 a R$ 18", completou. 

Outro problema apontado por Alana Maria foi ter passado por uma emergência de saúde, que elevou os custos com exames, remédios e outros cuidados, comprometendo ainda mais os rendimentos mensais.

Veja as faixas rendimento no 2º trimestre de 2021 em Fortaleza (considerando trabalhadores formais e informais):

  • Acima de R$ 10 mil — 1% mais ricos
  • Acima de R$ 6 mil — 5% mais ricos 
  • Acima de R$ 5 mil — 10% mais ricos
  • Acima de R$ 2,8 mil — 25% mais ricos
  • Acima de R$ 1,3 mil — 50% mais ricos
  • Acima de R$ 1,04 mil — 75% mais ricos 
  • Acima de R$ 500 – 90% mais ricos

Gastos extras de lado

Já para a auxiliar administrativa Sylvana Meyer, de 56 anos, mesmo estando entre os 25% da população com maior renda de Fortaleza, o ano de 2021 tem sido de redução de gastos extras, como cursos e opções de lazer. Ela recebe pouco mais de R$ 2,8 mil e afirmou que está se ajustando a um novo emprego ainda, projetando gastos e dimensionando o orçamento familiar. 

Contudo, Meyer afirmou que não conseguiria manter os gastos de casa se não houvesse divisão de despesas com a família. 

"Eu diria que é tranquilo porque a gente compartilha a casa e é com a família, tudo junto e misturado, então ainda dá para viver, mas não sobra grana. As contas básicas só na divisão. Eu não conseguiria ter um apartamento pagando sozinha e ainda manter todos os gastos da minha família com salário que recebo hoje. Acho que quem tá nessa vida, só dividindo ou não tendo muitas aspirações", disse.

Um dos fatores que também pressionam o orçamento de Sylvana é a inflação.

"Sem dúvida as coisas estão muito mais caras. Eu vim de São Paulo e achei que o aluguel seria mais razoável,  mas as coisas estão muito parecidas, claro que considerando região por região. Mas o mercado deu um boom, ficando mais caro", explicou. 

"Queijo e manteiga, coisas que se usariam no café da manhã estão muito mais caros. Queijo 'encareceu para caramba'! E eu que gosto de ver os preços de frutas e verduras alguns produtos tiveram alta de até 10% no último mês, então isso assusta", completou.

Desigualdade

Segundo o economista Alex Araújo ainda há um nível de desigualdade econômica muito grande na capital cearense, caracterizada pelo nível de informalidade do mercado de trabalho. E para contornar de alguma forma a questão seria preciso ter uma reformulação do sistema tributário do País.

Além disso, seria preciso desenvolver políticas públicas focadas na geração de "ocupações de alta produtividade".

"Sim, a raiz da desigualdade está na questão da renda das famílias pobres. De forma imediata, uma reformulação da rede de proteção social, com a implantação de algum tipo de renda mínima reduziria os casos mais graves. A médio prazo seria preciso uma política focada na geração de ocupações de alta produtividade, o que requer uma série de ações com educação, ciência e tecnologia, ambiente de negócios", explicou.