Por que a inflação não cede e tudo está ficando mais caro? Entenda

Segundo economistas, não há só um motivo para explicar as altas constantes de preços, e a tendência é que não haja alívio no curto prazo

frutas e verduras
Legenda: Pressão inflacionária no Brasil segue em alta, elevando preços de alimentos, energia e combustíveis
Foto: Fabiane de Paula

O consumidor cearense tem visto o preço de muitos produtos ficando mais caros, sem previsão de baixa. Mas a pressão inflacionária, segundo especialistas, não tem uma razão única de existir no mercado brasileiro atual. E, além disso, a previsão é que alguns itens e serviços sigam encarecendo nos próximos meses. 

De acordo com o economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia no Ceará (Corecon-CE), Ricardo Coimbra, a pressão inflacionária constante pode ser explicada por um conjunto de razões que podem, ou não, ter efeito direto sobre as outras. Contudo, ele ressaltou que esse encarecimento não tem relação objetiva com a demanda pelos produtos, como a lei da oferta e da procura tenderia a explicar. 

Um dos pontos apontados por Coimbra foi o desequilíbrio das contas públicas brasileiras, que enfraquece a cotação do real frente ao dólar e eleva os preços dos produtos importados no País.

Além disso, pela forma de composição dos preços dos combustíveis no mercado nacional, a variação cambial também pressiona os preços dos transportes e gera efeitos colaterais nos fretes e em outras cadeias econômicas. 

"Nós temos um processo inflacionário constante e ele não se deve apenas a uma inflação de demanda e já estamos observando diversos fatores que têm contribuído para esse processo", disse Coimbra. 

"A base acontece há algum tempo por conta de um desequilíbrio nas contas públicas, gerando uma incerteza na nossa economia e isso vem fazendo com que a taxa de câmbio permaneça em um patamar mais elevado, fazendo com que os preços dos produtos importados e a competitividade dos nossos preços gera uma dificuldade, e isso impacta os preços dos combustíveis, do trigo e outros produtos que são influenciados, como a energia", completou.

Energia 

Sobre o setor energético, a situação hídrica no Brasil durante o ano passado — forçando a aplicação da bandeira de escassez hídrica — foi um dos motivos para um aumento de preços consideráveis para o consumidor.

Além dos níveis baixos nos reservatórios, a demanda por consumo havia aumentado por conta do maior número de pessoas em casa em regimes híbridos de trabalho. 

Essa pressão no sistema elétrico forçou o Governo Federal a acionar as térmicas para evitar um racionamento, mas esse tipo de fonte de geração é bem mais custosa em relação às hidrelétricas e as fontes renováveis. 

Já em 2022, o consumidor cearense passa por outro cenário de elevação de preços, considerando o impacto do novo reajuste da tarifa da conta de energia aprovada pela Enel e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Combustíveis 

Sobre os combustíveis, o conflito entre Rússia e Ucrânia pode ser apontado como uma das razões para elevações constantes de preços no Brasil. Mas o último modelo de composição de preços adotados pela Petrobras também tem um peso considerável para a consolidação do valor de revenda da gasolina, por exemplo, ter passado dos R$ 7.

Desde 2016, ainda no governo de Michel Temer, a estatal adotou um modelo de paridade internacional, usando a variação do preço do barril do petróleo no mercado internacional e da variação dólar como referência no Brasil. 

Com os preços dos combustíveis atrelados às flutuações do câmbio, durante a pandemia e o período de guerra na Europa, houve uma sequência de aumentos nos preços registrados nas bombas. Além disso, o combo de energia e gasolina (ou diesel) mais caros fez com que quase todas as cadeias produtivas fossem impactadas também, aumentando a inflação. 

Posto de combustíveis
Legenda: Preços dos combustíveis tem sido pressionados pelo modelo de composição de preços da Petrobras
Foto: Thiago Gadelha

Alimentos 

Sobre a inflação dos alimentos, Ricardo Coimbra destacou que boa parte das cadeias produtivas foi estressada durante a pandemia por conta dos choques logísticos e mercadológicos. O mundo inteiro passou por dificuldades e dependeu mais da importação de alimentos. 

Com o dólar em alta, no Brasil, muitos empresários também focaram no mercado exterior, o que gerou um reflexo interno uma vez que o Brasil enfraqueceu a política de estoques reguladores nos últimos anos. 

"Uma situação é que o Governo atual não acredita muito na intervenção da atividade econômica, ou seja, na parte de alimentos, se tivéssemos o controle dos estoques reguladores você poderia ter uma diminuição nos preços dos produtos no mercado interno, o que não temos hoje. Essa política foi relegada ao segundo plano no governo atual. É uma conjunção de fatores, então não conseguiremos resolver o problema com uma ferramenta só", explicou.

O conselheiro do Corecon ainda afirmou que o pagamento do auxílio emergencial durante os picos da pandemia também ajudou a pressionar os preços dos alimentos. 

Previsões 

E o cenário negativo parece que não está perto do fim. Segundo o professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Mauro Rochlin, a tendência é de uma inflação manter um movimento de alta. Essa perspectiva, segundo ele, pode indicar novas elevações da Taxa Selic pelo Banco Central, mesmo com uma projeção de estagflação.

"Apesar da vigilância do Banco Central, a Selic já está em 12,75%, e a inflação segue incomodando e pode surpreender negativamente em abril. Poderemos ter uma nova alta da Selic em abril e outra mais adiante. Não vejo como, no curto prazo, a inflação ter uma redução expressiva. Os preços das commodities, principalmente petróleo, seguem altos e com isso é difícil prever uma inflação menor. Mesmo que a política monetária nos leve a um crescimento próximo de zero, não devemos ter uma queda expressiva da inflação", explicou.  

Mecanismos complementares

A vigilância e a estratégia do Banco Central, no entanto, poderiam ser atualizadas, segundo Ricardo Coimbra. Além disso, o conselheiro do Corecon defendeu que o Governo Federal também poderia agir de formas diferentes para tentar conter a inflação no País. 

Criar subsídios em setores de forma pontual para barrar os efeitos colaterais desses aumentos de preço nas cadeias produtivas, considerando o setor de combustíveis como exemplo, poderia ser uma solução para frear a pressão inflacionária.

"Você poderia estar agindo além da política monetária, com taxa de juros, analisando indutores de atividade que estão tendo movimentos de inflação pontuais para gerar subsídios locais para evitar impactos em outros setores. No setor de energia é um exemplo. Mas a situação das contas públicas acaba por minar essa capacidade de o Estado de intervir", explicou.