Série inspirada em Belchior tenta se equilibrar entre versões jovem e em fuga do cearense

“Alucinação” estreia no Canal Brasil neste sábado (29) e chega à Globoplay no domingo (30).

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: Belchior na velhice é interpretado pelo ator paraibano Luiz Carlos Vasconcelos.
Foto: Canal Brasil / Divulgação.

Se a mítica em torno do cantor e compositor cearense Belchior já era grande só pelo aspecto artístico, ela se intensificou na fase em que o artista “sumiu” do escrutínio público, no meio dos 2000, e encontrou novo ápice após a morte do sobralense, em 2017.

Entre biografias literárias e obras audiovisuais sobre ele, muito se falou e teorizou sobre os lados pessoal e artístico do cearense. Uma nova produção se soma ao conjunto: “Alucinação”, série de quatro episódios que estreia no Canal Brasil neste sábado (29) e tenta “desvendar” o artista sob dois prismas.

Tomando emprestado o título do álbum de Belchior que completa 50 anos em 2026, a obra se apresenta como “inspirada” na trajetória do artista e é baseada na biografia "Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano", de Jotabê Medeiros.

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Desconexão entre os dois tempos de Belchior

O gênero biográfico no audiovisual possui possibilidades de narrativa das quais é difícil fugir: ou foca majoritariamente em um momento específico da carreira do retratado — caso de “Meu Nome É Gal”, por exemplo, sobre Gal Costa — ou tenta abarcar a trajetória como um todo — como em “Homem com H”, sobre Ney Matogrosso.

Na série, o cearense é mostrado em duas “versões”: a do jovem que era seminarista e começa a explorar a música e a vida (em papel de Caian Zattar) e a do homem recluso e afastado da mídia que se vê em fuga (interpretado por Luiz Carlos Vasconcelos).

“Alucinação”, então, guia o público a partir dos dois “tempos” retratados de Belchior. Vemos, alternadamente, tanto o contexto familiar, religioso e os primeiros passos artísticos do jovem Antônio quanto a relação afetiva dele com Edna Prometheu (Isabela Garcia), a vida pública e a velhice.

O ator Caian Zattar interpreta Belchior e aparece como um homem de cabelos longos e barba que toca violão em um estúdio de gravação, vestindo uma blusa listrada e jardineira jeans diante de um microfone vintage. A cena é enquadrada por caixas de som e a mesa de som no primeiro plano, com o reflexo suave de outra pessoa no vidro ao fundo sob iluminação acolhedora.
Legenda: Caian Zattar interpreta Belchior jovem em "Alucinação".
Foto: Canal Brasil / Divulgação.

Ainda que a série sugira algumas “costuras” e diálogos entre os momentos de Belchior jovem e Belchior velho, os dois seguem quase sempre em paralelo, sem maiores ligações entre os tempos sendo elaboradas pela produção.

Mesmo em tom, as duas partes não parecem se conectar. A porção que acompanha o cantor na juventude se aproxima de uma abordagem narrativa mais clássica do gênero, enquanto a que segue ele na velhice se abre a escolhas que buscam experimentações.

Coadjuvantes de destaque

Apesar do foco inegável da série ser a figura do próprio Belchior, um dos pontos de destaque da série, curiosamente, são as personagens coadjuvantes que orbitam ao redor dele — muito por conta de escolhas de elenco inspiradas.

Parte do elenco da série 'Alucinação' vestindo figurinos em estilo vintage dos anos 1970 posa junta ao ar livre em um ambiente arborizado. O grupo interage sorridente e descontraído, posando sobre tapetes e uma mureta de pedra, com destaque para a composição vibrante de cores e texturas das roupas.
Legenda: Larissa Góes (Téti), Mateus Honori (Rodger), Pedro Fasanaro (Ednardo), Lua Martins (Amelinha) e Ítalo Rui (Jorge Mello) caracterizados como os personagens em "Alucinação".
Foto: Reprodução / Instagram

Há participações de figuras como o ator e dramaturgo cearense Ricardo Guilherme, que interpreta Vinícius de Moraes; o ator mineiro Carlos Francisco, que dá vida a Luiz Gonzaga; e a atriz cearense Ana Luiza Rios, intérprete de Dolores, mãe de Belchior.

Em presenças pontuais, mas marcantes, temos nomes como os dos cearenses Gero Camilo — que interpreta o Frei Pacífico, figura da época de Belchior como seminarista — e Robério Diógenes — que surge em cena como o presidente Castelo Branco, primeiro governante da ditadura militar.

Não é por acaso que a maioria dos citados sejam do Ceará: outro aspecto notável é justamente a presença de talentos cearenses em “Alucinação”: da direção de arte de Dayse Barreto à produção de elenco de Luciana Vieira, sem falar de artistas que tem circulado em produções daqui e de fora, como Vinicius Cafer (Fagner), Lua Martins (Amelinha), Mateus Honori (Rodger) e Larissa Góes (Téti).

Pela opção de desenvolver dois tempos narrativos em poucos episódios, no entanto, a maioria das personagens citadas não obtém tanta profundidade — o que, para quem conhece o Pessoal do Ceará e a trajetória de Belchior, pode afetar a experiência pela falta de reconhecimento.

Já para quem não conhece, algumas lacunas de contexto podem dificultar a compreensão do que está sendo retratado. Se dar conta de uma vida em uma biografia no audiovisual é tarefa ingrata por si, apresentar uma enigmática como a de Belchior é desafio dobrado — que “Alucinação” tenta cumprir, mas esbarra nas limitações das próprias escolhas.

Confira trailer de "Alucinação"

"Alucinação"

  • Quando: exibições aos sábados, às 22 horas, a partir do dia 29; reprises aos domingos, às 20 horas, segundas, às 18h30, e quartas, às 14 horas
  • Onde: Canal Brasil
  • Cada episódio ficará disponível no Plano Premium da Globoplay no dia seguinte à exibição original
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