Too Much, nova série da Netflix, desafia estereótipos corporais sem alarde

Uma análise sobre o figurino que acompanha as marés emocionais da personagem central

Escrito por
Elaine Quinderé verso@svm.com.br
Legenda: Temos uma protagonista que é gorda e, finalmente, esse fato não tem nada a ver com a trama
Foto: Divulgação

Too Much, é a nova série de Lena Dunham para a Netflix que traz Megan Stalter como Jessica, uma publicitária de Nova York que se muda para Londres após um término horrível e encontra uma nova possibilidade de amor na nova cidade. A série tem 10 episódios e mistura comédia romântica com um longo processo de autoconhecimento com pitadas de drama que são um pouco “too much” - mas são do jeitinho que a millennial gosta.

O enredo da série, as críticas que podem ser tecidas sobre a história, a direção de arte e tudo o mais, eu deixo pra vocês analisarem e tirarem suas próprias conclusões. Porque, de fato, a série falha em muitos aspectos, falta um pouco de ousadia, mas com um olhinho afiado você consegue perceber alguns pontos bem interessantes.

O primeiro deles é sobre corpos que não pedem licença. Jessica, por exemplo, desafia estereótipos corporais sem alarde: seu corpo não é parte do enredo ou motivo de autojulgamento. Ela simplesmente existe, com suas curvas, dobras e barriga saliente, sem precisar se desculpar ou “explicar” sua presença. Finalmente temos uma protagonista que é gorda e esse fato não tem nada a ver com a história.

Na série, Jessica transita entre reuniões de agência, festas britânicas e passeios por Londres com um estilo que mistura descontração e toque dramático: suéteres oversized, jaquetas de couro, estampas e silhuetas que traduzem sua intensidade sensorial. Elementos que representam sua identidade e personalidade que é igualmente emocionada, expansiva e autêntica. Além disso, são looks que não tentam disfarçar um corpo, torná-lo menor e delicado, como é o habitual em corpos maiores na televisão.

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Seria pouco dizer que cada look de Jessica diz algo: ele não diz, ele berra. O guarda-roupa da personagem fala sobre vulnerabilidade, caos emocional e sobre uma mulher que sente demais. Claramente, Jessica não se veste para agradar ou se esconder, afinal ele é a equação perfeita de cores, texturas proporções e emoções.

O ponto que mais me chamou a atenção foi que Jessica aposta pesado em peças oversized, e eu particularmente amo. Blazers com ombros largos, suéteres que mais parecem abraços ambulantes, jaquetas jeans largas e casacos statement, mas nada ali é acidental. A silhueta ampla é uma forma de marcar presença (mas muitas vezes, também de se proteger do mundo). Ela cria um casulo estético onde pode ser grande, intensa e cheia de camadas (emocionais e de roupa).

Atriz Megan Stalter caracterizada como Jessica posa para foto com saia de tule volumosa em frete a uma porta marrom
Legenda: O figurino da série Too Much é um roteiro paralelo e merece a sua atenção
Foto: Divulgação

O figurino acompanha as marés emocionais da personagem. Quando está esperançosa, ela surge com vestidos fluidos e cores mais claras, quase românticos. Quando está em crise, os tons escurecem, o delineador pesa, e o look vira uma armadura estética - ainda com brilho, ainda com textura, mas agora mais defensiva. O figurino não é só roupa; é um roteiro paralelo.

O figurino de Jessica, assinado por uma equipe que claramente entendeu o poder de vestir personagens reais e não idealizados, recusa o look “plus size polido”. Ela não está tentando se adequar: ela está se expressando.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora