O abandono do movimento body positive
É a derrocada da diversidade, do “todos os corpos são bonitos”. Todos quem?
Andy Warhol estaria orgulhosíssimo: tivemos nossos 15 minutos de fama e agora testemunhamos um movimento que acolheu a tantos ser dizimado. É triste ver o que foi “casa” para tantos corpos marginais ser reduzido a um discurso de “emagreça com estilo”.
O movimento body positive surgiu como uma fagulha de resistência num mundo que insistia em dizer que só existia um tipo de corpo aceitável — magro, branco, jovem e simetricamente distribuído. Por um tempo, pareceu realmente que estávamos prestes a mudar alguma coisa. Marcas incluíram modelos gordas nas campanhas, o feed do Instagram se encheu de celulites sem filtro, estrias exaltadas como arte moderna, e o mantra “ame seu corpo” virou quase um bordão para tantas de nós. Mas como todo bom fenômeno pop, o movimento virou produto — e aí foi o começo do fim.
E assim ele foi higienizado, depilado e tratado com ácido hialurônico. Ao invés de promover aceitação incondicional dos corpos, virou token de diversidade. E quando o engajamento caiu, as marcas mudaram de rota. E não muito diferente, os expoentes do movimento também.
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Entramos então na era do “look ozempic”, da magreza glamourizada, dos rostos afilados por agulhas e corpos que reaprenderam a odiar suas dobras. Da cantora Lizzo à influenciadora Thais Carla, o que antes era político virou um discurso vazio de amor próprio e agora é “disciplina”, caneta emagrecedora e bariátrica. Afinal, se você pode se encaixar no padrão com uma caneta mágica injetável, por que não o faria? A gordofobia apenas trocou de roupa: agora ela se disfarça de “bem-estar”.
O abandono do body positive escancara o que sempre incomodou o sistema: aceitar corpos gordos sem tentar consertá-los. A aceitação real nunca foi rentável, mas a transformação é uma indústria bilionária. E a internet, que antes serviu de palco para o empoderamento, virou vitrine de antes e depois. É a saída mais rápida e a gente já passou por isso antes: o amor próprio não pode nos proteger no consultório médico, no ambiente de trabalho e nos relacionamentos.
O body positive não morreu. Ele foi domesticado, esvaziado e depois descartado. Minha dúvida é: será que conseguiremos recomeçar e resistir?
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora