Terremoto no Japão reacende suspeita de que o Sol influencia abalos na Terra
O clima espacial voltou a se manifestar às vésperas de um grande abalo, e a ciência já mede essa relação.
Na última terça-feira (28), às 16h27 no horário local, a ilha de Kyushu, no sudoeste do Japão, foi sacudida por um terremoto de magnitude 7,1, medida pela Agência Meteorológica do Japão. Nas primeiras horas, o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, ajustou o valor para 6,8, diferença comum entre agências que usam métodos e redes de sensores distintos.
O epicentro - o local na superfície situado diretamente acima do foco do terremoto, onde a ruptura começou nas profundezas - ficou a cerca de 20 quilômetros ao sul da cidade de Kumamoto, e a apenas 10 quilômetros de profundidade.
Um terremoto raso como esse costuma causar mais estrago, porque a energia liberada percorre uma distância curta até chegar à superfície e ainda chega forte. Para efeito de comparação, os sismos são classificados como rasos quando ocorrem até 70 quilômetros de profundidade. A 10 quilômetros, o de Kumamoto está entre os mais rasos possíveis, e por isso tão destrutivo.
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Até a manhã de quarta-feira (29), momento em que escrevo esta coluna, ao menos 18 pessoas haviam morrido e mais de 60 ficaram feridas, com o desabamento de um shopping e a queda de uma chaminé em uma fábrica de papel.
As muralhas do histórico Castelo de Kumamoto voltaram a ruir, o mesmo castelo ainda em obras desde o terremoto de 2016, que matou mais de 50 pessoas na região há exatos dez anos. Erguido no início do século XVII, esse castelo é um dos três mais importantes do Japão e o principal símbolo da cidade.
Um alerta de tsunami chegou a ser emitido, com previsão de ondas de até um metro, mas foi cancelado em menos de duas horas. Vale notar que um tsunami pode variar de menos de um metro até dezenas de metros nos eventos mais extremos.
No desastre de 2011, no próprio Japão, a onda tinha menos de um metro em mar aberto, mas ao alcançar a costa rasa subiu terra adentro até cerca de 40 metros de altura na província de Iwate, o ponto mais alto que a água atingiu. Neste último evento, as usinas nucleares próximas não registraram qualquer abalo ou anormalidade.
Diante de um evento desses, podemos verificar a atividade solar dos dias anteriores, que andava elevada. No dia 26 de julho, uma explosão solar de classe M3.2 atingiu seu pico às 15h28 no horário universal, o equivalente a 12h28 em Brasília.
Explosões desse tipo disparam uma onda de raios X que chega à Terra em cerca de oito minutos e ioniza a parte alta da atmosfera, a mesma camada que funciona como um espelho natural para as ondas de rádio de longo alcance.
Quando esse espelho fica temporariamente "borrado", os sinais de rádio de alta frequência enfraquecem ou somem por alguns minutos.
Quem opera nessas faixas sente na hora: pilotos de avião e navios em rotas oceânicas dependem delas, e os radioamadores também, esses últimos entre os primeiros a notar a degradação.
Um amigo meu, que mantém uma estação de radioamador, já percebeu na própria antena o momento em que uma dessas quedas de sinal acontece.
Foi o que a NOAA classificou como um apagão de rádio de nível R1. Vale explicar que o R1 é o mais fraco da escala, de intensidade baixa, mas o contraste pode ser expressivo para quem está no ar: um sinal antes limpo some de repente por alguns minutos e depois retorna.
Oscilações solares
No dia seguinte (27), o Sol lançou duas erupções quase simultâneas, uma delas um enorme filamento de plasma arremessado ao espaço. O Centro de Análise de Dados de Influências Solares, na Bélgica, registrou às 15h30 do dia 27 a chegada dessa nuvem de partículas, quando a velocidade do vento solar saltou de 360 para 410 quilômetros por segundo e a densidade de partículas subiu quase dez vezes.
Nas horas seguintes, o campo magnético da Terra entrou em condições agitadas, oscilando entre o nível ativo e a tempestade geomagnética G1, a mais fraca da escala, justamente ao longo dos dias 27 e 28, a janela em que Kyushu tremeu.
Não houve uma supertempestade como as que descrevi em colunas anteriores, apenas um período de agitação moderada. Ainda assim, a coincidência temporal chama atenção.
Vale destacar a ordem dos acontecimentos, porque ela é curiosa. Primeiro chegaram os raios X da explosão do dia 26, viajando na velocidade da luz e provocando o apagão de rádio quase instantâneo. Só no dia seguinte chegou a nuvem de partículas mais lenta, que perturbou o campo magnético. O terremoto veio depois de ambos.
Essa sequência escalonada, em que o Sol avisa primeiro com luz e só depois entrega a matéria, é justamente o que interessa a quem estuda o fenômeno: se houver mesmo alguma relação de gatilho, o clarão inicial funcionaria como um sinal antecipado, dando margem de horas antes do impacto geomagnético.
O que diz a ciência
Como já abordei em colunas anteriores, a hipótese de que o Sol tenha algum papel no disparo de terremotos não é nova. Ela tem mais de 170 anos, remonta ao astrônomo suíço Rudolf Wolf, em 1853, e hoje é avaliada com estatística moderna.
Para entender por onde essa influência passaria, é preciso separar dois ambientes que raramente conversam: o campo magnético lá em cima e a rocha tensionada lá embaixo.
Quando uma nuvem de partículas solares atinge a Terra, ela sacode o campo magnético do planeta e induz correntes elétricas que circulam pela ionosfera e chegam até o solo. É o chamado mecanismo eletrocinético. A ideia é que essas correntes, ao atravessarem uma falha geológica saturada de água e já submetida a enorme pressão, alterem o atrito entre os blocos de rocha.
Uma falha nesse estado é como um arco retesado ao limite: a energia que a fará romper já está quase toda acumulada pelo movimento das placas tectônicas, e um estímulo externo mínimo pode bastar para soltar a corda. O terremoto não é criado pelo Sol, apenas teria a sua ocorrência antecipada em horas ou dias.
Os números dão sustentação a essa leitura. Um estudo publicado em março de 2025, na revista Geophysical Research Letters, por Chen e colaboradores, analisou décadas de registros e encontrou aumento na ocorrência de terremotos após tempestades geomagnéticas intensas.
Um trabalho anterior, publicado em 2020 na revista Entropy, examinou os grandes terremotos de magnitude igual ou superior a 7,0 entre 1957 e 2020 e observou probabilidade mais alta de tempestades geomagnéticas antes desses eventos, sobretudo nos abalos rasos, como foi o de Kumamoto.
A profundidade importa porque, quanto mais perto da superfície, mais intensas são as correntes elétricas induzidas que alcançam a falha.
Aqui é preciso responder a uma pergunta natural: existe previsão de terremotos? No sentido de apontar dia, local e magnitude com antecedência, não existe, e nenhum país dispõe disso. O que já funciona é diferente. São os sistemas de alerta precoce, como o do próprio Japão, que detectam as primeiras ondas de um terremoto já em curso e avisam a população segundos antes das ondas mais destrutivas chegarem.
Existe também a previsão probabilística, que estima a chance de um grande abalo em uma região ao longo de anos ou décadas, sem marcar data. É nesse segundo campo que o clima espacial poderia, um dia, entrar como mais um ingrediente estatístico.
Faço a mesma ressalva que os próprios autores fazem, a que separa a ciência do sensacionalismo. Correlação não estabelece causa.
O ganho de previsibilidade obtido apenas pelo clima espacial ainda é pequeno demais para prever terremotos, e serve, quando muito, como mais uma peça de um modelo integrado. Trata-se de uma hipótese antiga, testada e cada vez mais embasada, longe de qualquer profecia.
Há risco de terremoto no Ceará?
Repito ao leitor cearense a boa notícia de sempre, que estamos longe de qualquer risco sísmico relevante. A crosta da Terra é dividida em placas tectônicas, grandes blocos de rocha que se movem lentamente e cujas bordas, ao se chocarem, concentram quase todos os terremotos do planeta.
O Japão fica sobre o Anel de Fogo do Pacífico, onde várias dessas placas se encontram sem trégua, enquanto o Nordeste brasileiro repousa firme no interior da Placa Sul-Americana, longe dessas zonas de atrito.
Os tremores discretos que vez ou outra assustam o interior do Ceará e do Rio Grande do Norte nascem de falhas antigas e de baixa energia, sem parentesco com a violência sentida em Kyushu.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.