O luto coletivo: quando a cidade inteira chora e a dor vira força compartilhada

Juazeiro do Norte se reuniu para se despedir de sete jovens vítimas de acidente de ônibus em Tauá.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: Velório coletivo reuniu mais de 5 mil pessoas no município do Cariri cearense.
Foto: Ismael Soares.

Há alguns dias, um ônibus transportando atletas de um time de basquete da cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará, sofreu um acidente e morreram seis jovens e um membro da comissão técnica.

A experiência do luto, embora estruturante e necessária na construção subjetiva, é impactante e desorganizadora. Não existe vida sem luto. Todo dia elaboramos perdas e reorganizamos o perdido em construções internas de identificação. O que era direcionado ao objeto perdido, mantém-se enquanto amor e memória agregado a uma parte de quem somos. Guardamos em nós, sob a forma de  identificação, os vestígios daquilo que amamos e perdemos.

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Elaboramos lutos pelas mudanças no corpo, pela nossa imagem que muda ao longo do tempo, por ideias que abandonamos, por idealizações que fazemos das figuras parentais, de amizades, amores, por partes nossas que já foram, por perdas, frustrações e mudanças que fogem ao controle e acontecem à revelia do nosso desejo.

O luto é um trabalho psíquico complexo e necessário, que exige tempo e elaboração. Somente a passagem do tempo não garante que alguém volte a investir energia no mundo, pois o luto necessita de recolhimento e travessia pela dor, para reinventar-se em esperança e desejo de conectar-se ao mundo. 

Existem alguns lutos programados: mudança de sala, saída da escola, aposentadoria, perda dos dentes, adolescência, envelhecimento, mas nem sempre o sabido deixa de ser doloroso. Quando a perda envolve situações repentinas, quando ocorre a morte de pessoas jovens, quando o ciclo natural é atravessado e pais perdem filhos, as dores se tornam mais avassaladoras.

Diversos fatores incidem sobre o luto: a idade, a forma em que a perda aconteceu, os recursos emocionais pessoais e coletivos, o vínculo que se tinha com a pessoa perdida, as condições econômicas que podem acrescentar estresse e preocupação (quando se perde o arrimo de família ou aquele ou aquilo que garantia a sobrevivência, nos lutos por perda de emprego, moradia, garantias sociais e de direitos), a qualidade do suporte social existente, características culturais relacionadas aos rituais e expressão da dor, as crenças religiosas sobre o significado da morte, a capacidade de pedir ajuda e o histórico de experiências pessoais e coletivas diante da morte (perdas silenciadas, mortes consecutivas com período muito próximo, dificuldade de expressar a dor, histórico relacionado a perdas, abandono, desamparo, condições de saúde física e mental).

Quando acontece a morte de adolescentes que praticavam esporte, essas referências — adolescência e esporte — possuem no imaginário a ideia de vitalidade e longevidade, o que torna mais difícil a aceitação da perda e mais necessário o suporte social e os rituais para vivê-la. 

Os rituais organizam as experiências na cultura, oferecendo sentido e significado, e o suporte social, ao produzir coalizão e identificação, atenua a solidão do vivido e aplaca a indiferença, a qual silencia o valor da dor.

O luto coletivo oferece a chance de chorar tanto as perdas particulares quanto os lutos já vividos ao longo da vida são reativados. Diante de uma perda como a dos jovens, a cidade e seus habitantes têm a chance de chorar suas dores, muitos pela primeira vez. Pessoas que acumularam choros de outras perdas podem chorar e expressar lamento e busca de apoio. Adolescentes e crianças podem ser confrontados pela primeira vez com o aprendizado e as possibilidades de lidar com a morte e as dores, e encontrar no conforto da família, dos amigos e dos profissionais, apoio e proteção para viver o luto e elaborar os rituais de despedida. 

O luto vivenciado de forma coletiva oferece um suporte especial e raro, pois a perda e a dor não são somente minhas, encontro identificação que fortalece o vínculo coletivo na hora em que todos choram, sofrem e se reconhecem na dor do luto. Por isso os rituais são tão necessários diante da morte. Para que possamos olhar e perceber o que permanece, e assim, produzir um sentido diante da perda. Para entender que nunca se perde tudo, e que podemos contar com a força do coletivo, dos vizinhos, dos amigos, dos familiares, dos amores.

Quando a cidade participa do ritual coletivo do luto, ela se fortalece. Podem ser rituais religiosos, esportivos, podem ser celebrações que valorizem a importância de se viver, assumindo o desejo de aproveitar a vida e reconhecer o valor de viver e morrer, sentindo o prazer de fazer o que se gosta. Não seria essa uma inspiração possível desse time? Não seria possível ter mais opções artísticas e esportivas para honrar a memória dos adolescentes?

O que torna o luto difícil e pode caminhar para processos patológicos é quando ele não pode ser vivido, sentido, elaborado. Quando não existem os rituais que permitem despedir e se fortalecer no encontro com os que ficam. Quando o luto é silenciado, medicado, anestesiado, atropelado, a experiência congela e, junto com ela, uma parte de quem perde.

Vivemos contemporaneamente uma aceleração de processos que necessitam de mais tempo, tentamos eliminar o sofrimento, as perdas, negar o vivido, como se a vida pudesse ser feita somente de alegrias e contínuo prazer. Assim, o sofrer, o lidar com o desamparo, o reconhecer a diferença, o complexo, parecem oferecer um estranhamento subjetivo diante do qual busca-se fugir a qualquer preço. Sem a construção do tempo necessário para sentir e processar o luto, o sujeito se violenta e se fragiliza.

O que choramos através de uma perda? Pelo que todos damos vazão naquele luto? Quando choramos a morte de adolescentes, choramos pela perda dos sonhos que não foram realizados, pela interrupção da vida que nos escancara em sua efemeridade e falta de controle absoluto. Percebemos o valor do tempo e a necessidade de resolver e reparar vínculos estremecidos, porque não sabemos quando eles podem ser perdidos; lutos antigos são reavivados e nos confrontam com emoções reprimidas. Quais e quantas dores são choradas diante de uma morte?

Quando uma cidade toda chora, a dor não é somente minha. Percebo a força do coletivo, me sinto parte de uma comunidade, há o fortalecimento das experiências de pertença e solidariedade, tão estruturantes para a saúde mental. Quando uma perda recebe rituais coletivos, cria-se um lugar para se sentir amparado e com recursos para enfrentar os dias difíceis. A história contada e recontada mil vezes é metáfora do trabalho psíquico interno para entender e elaborar o que se sente.

Juazeiro do Norte é uma cidade de fé, de resistência, de cultura, de arte, de estudo. Uma cidade onde o senso de pertença e identidade cultural traduz a força de um povo que não esmorece e inspira. O uso e a articulação desses recursos favorece o enfrentamento de situações difíceis, pois é uma cidade que tem em seu histórico o elaborar dias difíceis e exigentes. 

É fundamental acolher as dores dos sobreviventes, para evitar a culpa, apoiar a construção coletiva de recursos e saídas para a memória e a dor, desenvolver rituais que permitam o percurso do luto e paciência para as ambivalências e movimentos internos e externos que o luto exige.

Conforme aponta Elizabeth Kübler- Ross, o luto possui fases, que nem são lineares nem vividas da mesma forma por todos. As fases de negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, que constrói as bases para a transformação, ajudam a pensar como aquele afeto tem se deslocado diante da perda.

Um luto não tem um fim absoluto; a memória do que foi perdido jamais será esquecida. É um processo contínuo que fará parte da vida e que abastece quem somos. Um movimento interno, silencioso, que recolhe para si os aprendizados e vestígios do que se foi, e impulsiona o continuar, o seguir, que inspira e amplia a capacidade de perseverar, mesmo sem a presença física de quem se foi, porque agora é memória e objeto internalizado. 

Uma morte chorada é o reconhecimento de uma vida que teve valor e a saudade pela perda do que de bom foi vivido. Quando uma cidade é testemunha de uma perda, valida o sofrimento, sofre junto, fortalece em união, solidariedade, humanidade, e constrói o verdadeiro sentido de comunidade, onde cada um pode saber que, quando a dor bater na sua porta, não estará só.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora. 

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