Na geografia, ela está na periferia. Nos conceitos socioeconômicos, também. No dia a dia, ela é o centro de um corredor comercial estruturado, com comércio e serviços especializados no extremo noroeste de Fortaleza. Quase no limite com o município de Caucaia, a avenida Mozart Lucena é um dos exemplos de uma via de economia pujante fora das áreas centrais da Capital.

Com nome formal de Mozart Pinheiro de Lucena, a avenida tem 3,5 quilômetros (km) de extensão. A via entrecorta oficialmente dois bairros: Quintino Cunha e Vila Velha, mas atrai fluxo de moradores e trabalhadores de outros bairros no entorno.

Bairros como Olavo Oliveira e Jardim Guanabara estão inseridos nas imediações da avenida, bem como os conjuntos Nova Assunção e Polar e comunidades como a Favela do Inferninho, os três pertencentes ao Vila Velha.

As vocações da Mozart Lucena são variadas, mas em comum a força do comércio e dos serviços locais. Sem grandes bandeiras nacionais - exceto pelas farmácias -, o destaque fica pela variedade de pequenos comerciantes formais, que se multiplicam nos mais diferentes estabelecimentos, e dos vendedores ambulantes, em geral atuando no canteiro central da via.

O Diário do Nordeste esteve no local para entender o que faz da avenida Mozart Lucena virar um verdadeiro centro comercial, com movimentação intensa durante todas as horas do dia, reduzindo drasticamente a dependência de trabalhadores e moradores em ir para outras regiões da Cidade.

Este conteúdo integra uma série de reportagens sobre as transformações econômicas em avenidas de Fortaleza. Antes da Mozart Lucena, foram publicadas reportagens sobre as avenidas Augusto dos Anjos, Barão de Studart, Bezerra de Menezes, Godofredo Maciel, Gomes de Matos, José Bastos, Monsenhor Tabosa e Sargento Hermínio.

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"Praticamente um Centro"

A ocupação da Mozart Lucena é bastante variada. Tem comerciante que vende de comida, com petiscos e refeições completas, aos serviços automotivos, ferragens e postos de atendimento bancários.

A grande concentração dos empreendimentos comerciais da via está entre compreendida entre as avenidas Major Assis e Washington Luiz, trecho com cerca de 700 metros. Nesse percurso, o 'Centro' do Vila Velha juntam boa parte dos estabelecimentos da Mozart Lucena.

A comerciante Fernanda Célia conhece bem a realidade da avenida. Ela chegou a ter outra ocupação na região, mas acabou migrando para o comércio de lanches, como fatias de bolo, tapioca e café, e vivencia dia após dia as novidades no local.

Passei mais de 11 anos trabalhando como revendedora lotérica. Muita coisa mudou. A Mozart Lucena está como se fosse o Centro: cheia de comércio, de lojas de roupas, muito boa de trabalhar".
Fernanda Célia
Vendedora ambulante na avenida Mozart Lucena

Infraestrutura nova chama a clientela 

Outro deles é Cláudio Bernardino, comerciante de relógios, óculos, palavras cruzadas e outra varidades. Ele atua na avenida há 10 anos, em diferentes pontos. Desde 2023, está trabalhando no canteiro central em um quiosque regularizado de comércio ambulante na região

Ainda durante a pandemia, a avenida passou pelas mudanças mais profundas: o espaço para tráfego de carros foi reduzido, mas foram criadas áreas de estacionamento, calçadas foram alargadas, e o canteiro central recebeu ciclofaixa elevada e ambulantes.

"A pista era mais larga, onde tem a ciclovia era pista. Calçadão era menor, era muito bacana o que tinha antes com aqueles mosaicos. Ser legalizado é bom, não tem mais as questões que tinha antigamente de a fiscalização tomar nossa mercadoria. Tudo continua seguro", diz Cláudio.

Um dos comerciantes mais antigos da região, Rodrigo Lima chegou na Mozart Lucena em 1996, em um outro contexto da Capital e, principalmente do bairro. Para ele, é uma "pena que a população tenha perdido o poder de compra", sem mencionar prejuízos para a sua loja de artigos esportivos.

Maria Alice vende lanches na Mozart Lucena
Leandro Santos vende frutas na Mozart Lucena
Rodrigo Lima vende artigos esportivos na Mozart Lucena
Cláudio Bernardino vende artigos variados na Mozart Lucena
Comércio na avenida Mozart Lucena
Leandro Santos vende frutas na Mozart Lucena
Legenda: Comerciantes recebem o público da Mozart Lucena para vender do trivial ao inusitado
Foto: Thiago Gadelha

Apesar disso, o comerciante mostra otimismo com as intervenções recentes na avenida. "Mudou a quantidade de lojas, policiamento melhorou, infraestrutura também. O morador da região e adjacências não precisa ir mais para a periferia resolver nada, resolve tudo perto de casa", lembra.

Mudanças atraem novos comerciantes

Nos estabelecimentos localizados nas margens das calçadas, é difícil encontrar algum que esteja com as portas abaixadas. Encontrar um lugar disponível para abrir uma loja se torna um pouco menos difícil à medida em que se distancia do 'Centro' da Mozart Lucena. No canteiro central, é possível achar novos comerciantes.

Com somente um ano atuando na via, a vendedora Maria Alice tem como clientela fiel os demais trabalhadores da Mozart Lucena. Durante todas as manhãs, ela comercializa caldos, bolos, tapiocas e sanduíches. Nem tudo são flores, mas a situação financeira da família melhorou com o trabalho da ambulante na avenida.

Não precisamos nos deslocar para nada, a avenida está quase perfeita. Para quem trabalha na rua como nós, precisamos de um banheiro público e poda de árvores. Todo dia eu tiro daqui o dinheiro para pagar o aluguel, o gás e a luz. Não é tudo daqui, mas é um complemento". 
Maria Alice
Vendedora ambulante na Mozart Lucena

"Sempre trabalhei com comida. Há uns anos vendia pratinho, aí mudei do ponto que tinha antes, vim tentar o café da manhã e tem dado certo. Moro aqui perto. Mudou muita coisa: tem mais lojas que chamam a atenção do público, tem muito movimento aqui. Todos os meus vizinhos compram meus lanches. A Mozart Lucena está praticamente um Centro, só falta uma loja grande de eletrodomésticos", completa.

Em situação similar vive Leandro Santos. Natural de Aracaju, capital do Sergipe, ele veio para Fortaleza ainda na época da pandemia e se estabeleceu no bairro Vila Velha. Há dois anos, é proprietário de uma barraca de frutas, verduras e legumes.

"Aqui é bom, muitas vendas, a avenida é lotada, tem muitas lojas. Quem trabalha na Mozart Lucena só compra aqui. Estamos a semana toda por aqui, mas poderia melhorar a limpeza", declara.

Manequins na avenida Mozart Lucena
Tráfego na avenida Mozart Lucena
Comércio na avenida Mozart Lucena
Canteiro central da avenida Mozart Lucena
Legenda: Avenida Mozart Lucena reúne lojistas tanto nas margens das calçadas quanto no canteiro central
Foto: Thiago Gadelha

Tamanho econômico da avenida

Durante o dia, o corredor comercial. De noite, a aglomeração típica de um polo de lazer nos arredores da praça do Conjunto Polar. A Mozart Lucena se vocaciona para os micro e pequenos empreendedores, como atesta o levantamento da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico de Fortaleza (SDE) feito a pedido do Diário do Nordeste.

Considerando apenas os estabelecimentos formais, são 725 os que estão ativos ao longo da avenida, além de aproximadamente 90 ambulantes cadastrados em quiosques no canteiro central, conforme definido em 2023 pela Prefeitura de Fortaleza. Atualmente, a SDE não tem levantamento consolidado sobre os empreendimentos informais no local.

Boa parte das intervenções aconteceram no programa Meu Bairro Empreendedor, entre 2021 e 2023. Atualmente, a pasta informa que "não dispõe de registro de ações específicas" da iniciativa, "nem de informações sobre intervenções viárias previstas para o trecho".

"No entanto, o projeto mantém atuação contínua na Regional 1, promovendo a qualificação de empreendedores, o fortalecimento do comércio local e a articulação de melhorias urbanas voltadas à dinamização econômica dos bairros".

Ao todo, dos 725 estabelecimentos formais, 311 (42,9%) são majoritariamente de dez principais ocupações, de acordo com a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), do Ministério da Fazenda.

Senso de pertencimento

Os três tipos de conceito de atração do marketing (geradora, de vizinhança e suscetível) estão presentes na Mozart Lucena, assim como nas demais avenidas de Fortaleza. Como explica Cláudia Buhamra, professora de Marketing da Universidade Federal do Ceará (UFC), o que torna única a via da periferia da Capital é a força da comunidade.

Chama-me atenção o quanto as pessoas cuidam do bairro. Há senso de pertencimento admirável e a sensação que se tem é que as pessoas têm o bairro como uma extensão das suas casas. Percebe-se, nos momentos, sejam noturnos ou diurnos, o cuidado, o desejo de mostrar, o orgulho pelo bairro e esse sentimento de pertencimento é algo que salta aos olhos. Isso chama atenção e talvez seja uma solução para muitos bairros em Fortaleza".
Cláudia Buhamra
Professora de Marketing da UFC

"A gente espera muito do Poder Público, mas, quando se começa a perceber que o bairro pode melhorar com pequenas ações na moradia ou no ambiente de trabalho, isso traz, de fato, uma vida nova para o bairro. Por uma questão de conveniência, as pessoas acabam morando e trabalhando na região, se apropriando dela, e o bairro acaba tomando vida própria", esclarece a especialista.

O professor Diego Carneiro, do Programa de Pós-Graduação em Economia (CAEN/UFC), aponta questões econômicas que favorecem a Mozart Lucena. Por ser um corredor de fluxo menos intenso do que a avenida Coronel Carvalho (Perimetral), que também entrecorta a região, as facilidades logísticas impulsionam a via do Vila Velha no comércio.

Foto que contém Maria Alice, ambulante na avenida Mozart Lucena.
Legenda: Maria Alice é ambulante na avenida Mozart Lucena e moradora do bairro Vila Velha.
Foto: Thiago Gadelha.

"As empresas tendem a se concentrar em locais que apresentam vantagens logísticas, seja pela proximidade com o mercado produtor ou consumidor. No caso, essa via é um corredor que interliga a BR-222 e a Barra do Ceará, favorecendo o fluxo de pessoas e consequentemente de comércio", pondera.

"Esse processo tende a se retroalimentar. Quanto mais empresas no local, maiores tendem a ser as economias de localização, pela formação de cadeia de fornecedores, concentração de trabalhadores especializados e fluxo de ideias. Além disso, consumidores também passam a buscar esse tipo de local para a aquisição de diferentes bens e serviços próximos entre si", acrescenta.

Fortaleza 'policêntrica' facilita crescimento da Mozart Lucena

A Capital cearense tem particularidades de grandes cidades, como o desenvolvimento de subcentros sociais, geográficos e econômicos que diluem a demanda do Centro. É o que considera o professor Alexandre Queiroz Pereira, do curso de Geografia da UFC e membro do Observatório das Metrópoles.

Para ele, o processo de transformação em corredor comercial, pelo qual vêm passando nos últimos anos avenidas como a Mozart Lucena, acontece desde a década de 1970, com bairros como Parangaba e Messejana, e se intensifica no Vila Velha pelo amadurecimento do processo e, consequentemente, pelo crescimento de Fortaleza em múltiplas áreas.

"Dada a magnitude de uma aglomeração urbana como Fortaleza, o crescimento e adensamento demográfico acontece em dois processos simultâneos: a descentralização relativa e uma certa concentração, o que produz uma diversidade de subcentros", defende.

Foto que contém lojas comerciais na avenida Mozart Lucena.
Legenda: Os múltiplos 'centros' de Fortaleza favorecem o surgimento de um corredor comercial em avenidas como a Mozart Lucena.
Foto: Thiago Gadelha.

Alexandre Pereira observa que a avenida Mozart Lucena tem a característica de zonas populares, com pouca presença de grandes players nacionais de comércio e serviços . Esse vácuo de bandeiras fortalece as marcas locais, que se agrupam em torno do desenvolvimento da área.

A formação de novas centralidades é quase uma necessidade. O planejamento da cidade de Fortaleza dos anos 1970 apontava para essa expansão da cidade e a indução e o fortalecimento de algumas centralidades, como Messejana e a Barra do Ceará. De certa maneira, emite a diversidade do espaço e permite que haja uma descentralização inclusive de postos de trabalho".
Alexandre Queiroz Pereira
Professor de Geografia da UFC e membro do Observatório das Metrópoles

"A cidade deixa de ser monocêntrica, ou seja, deixa de apresentar apenas uma centralidade, como é o caso de muitas cidades pequenas e médias, e ganha outras áreas na cidade que apresentam características de dinâmica socioeconômica. Esses eixos estabelecem uma morfologia mais linear que acompanha corredores de mobilidade que se tornam, por características até históricas, zonas estratégicas para a criação de serviços e comércios", complementa o professor.

Com o espalhamento de novas oportunidades profissionais, Alexandre acredita que se cria processos muito fortificados na economia solidária, com um processo que retroalimenta à medida em que são criados empregos e rendas próprias da região da Mozart Lucena.

"Na formação dessas centralidades, permite-se criação de empregos para aquela escala e evitam-se maiores deslocamentos. Em muitas áreas dessas subcentralidades, há políticas de economia circular, que estabelece algum tipo de promoção local que incentivam o comércio e que o dinheiro circule naquela área, propiciando assim o fluxo da riqueza e a divisão desta", finaliza.