Observar o perfil do motorista, compartilhar a localização com alguém de confiança e ficar atenta a qualquer comportamento diferente. Você que é mulher provavelmente tem esses hábitos quando utiliza um carro por aplicativo. É um "manual de autoproteção" feito de forma automática, que muitas não sabem nem dizer quando aprenderam a executar.

Mesmo que esse meio de deslocamento tenha ganhado adesão pela comodidade e custo-benefício frente ao transporte público coletivo, a parcela feminina do público o utiliza sob a cultura do medo e da insegurança

Isso se reflete em números: 56% das mulheres do Ceará se sentem inseguras no transporte individual por aplicativo — a exemplo de Uber e 99. E o estupro é a violência mais temida nesse espaço para a maioria das cearenses. 

A informação consta na pesquisa “Mulher Coragem, os medos e demandas das mulheres cearenses por segurança”, realizada em 2025, como parte do Projeto Elas, do Diário do Nordeste, que a partir deste mês publica a série de reportagens “Mulher Coragem”. O especial é todo baseado no documento, encomendado pelo jornal ao Instituto Patrícia Galvão e executado pelo instituto Ipsos-Ipec, com o patrocínio da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece).

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A pesquisa também revela que o receio de ser vítima de violências sexuais é ainda maior na faixa etária de 16 a 24 anos, chegando a 64% das menções, e de 25 a 34 anos, representando 63%. No recorte por regiões do Ceará, o medo do estupro atinge os maiores percentuais no Centro-Sul/Sul do Estado (54%) e na Região Metropolitana excluindo Fortaleza (53%). 

O estudo encomendado ouviu 2.032 meninas e mulheres de 16 anos ou mais de idade, moradoras de 77 municípios cearenses, entre os dias 1º e 14 de outubro de 2025.

O comportamento defensivo e a atenção permanente das mulheres existem porque sabemos que estamos sujeitas à imprevisibilidade, em uma sociedade machista. Em um carro por aplicativo, a passageira ou a motorista está vulnerável a olhares maliciosos, toques abusivos ou abordagens dissimuladas. É um estado de alerta que não cessa para enfrentar algo que deveria ser comum: se deslocar na cidade. 

“Nós [mulheres] estamos o tempo inteiro tentando perceber o que está ao nosso redor. Os transportes não são pensados de forma que as mulheres possam ter mais comodidade e, ao mesmo tempo, [não possuem] formas mais eficientes de denunciar a violência, os abusos, as importunações sexuais que ocorrem nesses espaços”, analisa a socióloga Jennifer Dantas, professora do Instituto Federal do Ceará (IFCE) Campus Canindé. 

O temor de ser vítima de uma violência sexual passa ainda pela ideia de poder que o homem acredita exercer sobre a mulher. “Tem a questão cultural, do machismo, de querer culpar a mulher, seja pela roupa, pelo local, porque bebeu. O que a gente reforça é que não é culpa da vítima. É o agressor. O crime sexual é muito uma questão de poder. Ele acha que pode submeter a mulher a isso”, detalha Rebeca Cruz, delegada e diretora-adjunta do Departamento de Proteção aos Grupos Vulneráveis (DPGV) da Polícia Civil do Ceará. 

Conforme o Código Penal Brasileiro, o estupro — crime contra a dignidade sexual — é caracterizado pelo cometimento, mediante violência ou grave ameaça, de conjunção carnal ou de outro ato libidinoso. “É qualquer ato, não só a conjunção carnal. Pode ser passar a mão nas partes íntimas, agarrar à força, sem consentimento da vítima”, cita a delegada. 

Jovens são as que mais temem violência sexual

Em entrevista ao Diário do Nordeste, a estudante e estagiária de pós-graduação Gabriela Sotero, 26, conta que utiliza as plataformas cotidianamente para se locomover em Fortaleza, saindo de casa para o estágio, a academia, o supermercado ou o shopping.

Por não possuir um transporte próprio, o serviço de corrida por aplicativo facilita o deslocamento para as atividades. E o medo é um fator constante

“Já senti receio, desespero e medo mesmo na condição de ser mulher e utilizar esses aplicativos. Se for uma moto, dá uma certa insegurança de achar que a pessoa pode se meter em um caminho diferente. No carro, tem a questão de ser todo fechado, as portas estarem travadas”, diz. 

“Busco ao máximo evitar sair sozinha por carro de aplicativo. Procuro estar acompanhada do meu namorado, de alguma das minhas amigas. Mas, se eu precisar pegar só, é [com] pelo menos dois compartilhamentos da corrida: um para meu namorado e outro para alguém da minha família que peço ali a todo instante para estar acompanhando.”
Gabriela Sotero, 26
Estudante e estagiária de pós-graduação

Em situações de lazer que vão noite adentro, como festa ou uma saída com amigos, Gabriela nos conta que, se estiver consumindo bebida alcoólica, já começa a “beber água para tentar ficar o mais sã possível”. “É uma insegurança constante de acontecer algo nessa situação”, afirma. 

Essa tensão e aflição não são resultado só de uma “cultura do medo” para as mulheres, mas de casos ocorridos que ganharam notoriedade pela mídia, além de construções sociais que relativizam a violência, culpabilizando a vítima. 

“A gente vê muitos casos de estupro, sequestro, mas vemos que as pessoas estão considerando algo normal, que é só mais um caso. É algo que está se normalizando, pois infelizmente acontece com tanta frequência que as pessoas estão começando a normalizar. Isso me dá medo”, disse uma jovem de Crateús à pesquisa. 

A fonte entrevistada pelo estudo não será identificada nas reportagens por questões de segurança. 

Close-up das mãos de uma passageira utilizando o aplicativo WhatsApp no celular dentro de um carro. Ela veste roupa preta e calça jeans escura.
Passageira no banco de trás de um carro usa o celular para visualizar uma lista de contatos ou mensagens. Foco nas mãos segurando o aparelho e no interior do veículo.
Legenda: Compartilhar localização e evitar andar desacompanhadas são atitudes de prevenção das passageiras
Foto: Ismael Soares

'Tive que me expôr para lutar por justiça'

Há pouco mais de um ano, em janeiro de 2025, um caso de violência sexual contra uma mulher de 35 anos ocorrido em Fortaleza ficou conhecido nacionalmente. Ela estava saindo de uma festa e solicitou um carro por aplicativo para voltar para casa. No entanto, foi levada a um matagal e agredida pelo motorista, o lutador de MMA Edilson Florêncio da Conceição, o Edilson Moicano.

Conforme narrou à Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Fortaleza à época, a vítima tentou reagir, mas, ao perceber que não tinha forças, pediu para o homem apenas não tirar a sua vida. Policiais militares que passavam pelo local notaram a situação estranha e prenderam o criminoso em flagrante. 

Meses depois, Edilson Moicano foi condenado a 8 anos e dois meses de detenção. Ele chegou a ser solto para cumprir o resto da pena no regime semiaberto. Foi então que a mulher resolveu gravar um vídeo apelando para que a penalidade fosse cumprida integralmente

“Meu caso escancarou tudo o que as mulheres estão passando no Judiciário. Por mais que tenha todas as provas, que exista uma confissão, ainda assim eles permitiram que o homem respondesse em liberdade”, afirma em entrevista ao Diário do Nordeste

A gravação publicada nas redes sociais fez com que Renata Coan revelasse sua identidade ao público. Ela conta que a decisão de gravar o vídeo foi “extremamente difícil de ser tomada”, mas ela foi motivada pela busca por justiça.

“Eu não estava bem psicologicamente na época e tinha muito medo do julgamento que viria após a exposição. Mas o objetivo de me expor, mesmo sem eu querer isso, era justamente buscar pelo mínimo de justiça”, diz. “Fui praticamente forçada a fazer isso porque, se eu não fizesse, ele ia responder em liberdade”.

O ocorrido a fez redobrar os cuidados ao se deslocar sozinha. Antes, Renata conta que não tinha medo de entrar em um carro ou sair só. Era acostumada a viajar e fazer atividades com a própria companhia. 

“Nunca tive medo. Mas depois do que me aconteceu, passei a tomar certos cuidados. Não entro mais em veículo de aplicativo sozinha. Se entro, por alguma razão, compartilho a minha localização com alguma pessoa que está me esperando, vai me encontrar ou que esteja online no momento”, relata. 

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Vulnerabilidade das motoristas

Apesar de a pesquisa não falar com as motoristas de aplicativo, essas trabalhadoras também vivem com receios e aflições no dia a dia de trabalho. É o que nos conta Danny Moraes, motorista dessas plataformas há 9 anos, horas antes de iniciar o expediente no volante. 

A condutora vive uma rotina de 16 horas de trabalho por dia, em média, com mais de 50 passageiros conduzidos diariamente. Por isso, ela traz uma visão diferente: a quantidade de pessoas que entram e saem do carro a deixa mais vulnerável, com mais chances de ter contato com pessoas de má intenção. 

“Passamos mais tempo dentro do carro porque somos obrigados a escolher melhores corridas”
Danny Moraes
Motorista de aplicativo

“As mulheres estão rompendo barreiras, saindo da zona de conforto e ingressando nessa atividade que é desafiadora. Existem muitos riscos para nós. Não só para as passageiras, mas também para as profissionais”, conta em entrevista. 

Ela relembra uma situação desconfortável vivida em uma corrida: “Uma vez fui assediada. Um rapaz tentou me tocar. Ele era um cidadão de classe média. Eu peguei ele em um restaurante da Aldeota para deixá-lo num condomínio de luxo na Cidade dos Funcionários”, diz.  

O caso relatado por ela trata-se, na verdade, de uma importunação sexual, crime incluído no Código Penal somente em 2018, que envolve a prática de ato libidinoso contra alguém e sem a sua anuência, com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiros.

Ou seja, é qualquer conduta sem consentimento que vise prazer sexual. A pena para esse crime é de 1 a 5 anos de reclusão. 

A importunação difere do assédio sexual, pois este ocorre quando há constrangimento para obter vantagem ou favorecimento sexual cometido por um superior hierárquico em um ambiente profissional ou educacional, como explica a delegada Rebeca Cruz. 

“Antigamente, era visto como algo corriqueiro, e a mulher não podia fazer nada. Primeiro, porque não existia a legislação; segundo, que era algo visto até como tolerável. Hoje, com as campanhas de conscientização, as pessoas tendem a se revoltar mais quando acontece. Isso dá um apoio para que a mulher denuncie”, diz.

“Sempre tem aquilo de avisar quando chego em casa por conta dessa insegurança [...] Como utilizo mais em momentos de lazer à noite, o medo se duplica. Se de dia já é perigoso, imagina à noite. Às vezes, durmo na casa de amigos ou de colegas só para não ter que pegar um Uber nesse horário”
Isabelle Amaral
Estudante de Jornalismo, 20

Para a socióloga Jennifer Dantas, um dos gargalos para identificar e punir os agressores em casos ocorridos no transporte por aplicativo é a falta de informação sobre como denunciar e pedir ajuda. “Muitas passageiras pensam: se eu passar por uma violência, o que faço a partir daqui?”, diz. 

A autoridade policial reforça a importância da denúncia para a punição daquele passageiro ou motorista. “Em uma investigação como essa, via de regra, não vai ter testemunha. O relato da vítima vale muito [...] ‘Ah, eu não vou denunciar porque não tinha ninguém’. Isso não é necessário para haver a investigação. Quem tem que procurar as provas e investigar é a Polícia”, afirma a delegada. 

Motocicleta vermelha em movimento com piloto e passageira utilizando capacetes e mochilas. Efeito de velocidade ao fundo.
Close-up de motoqueiro de aplicativo com celular no suporte e passageira na garupa. Detalhe para adesivos 99 Pop na roupa.
Moto preta atravessa faixa de pedestres com dois ocupantes. A passageira utiliza um capacete amarelo com o logotipo 99 Moto.
Legenda: A insegurança das passageiras ocorre tanto em corridas por carro quanto por motociclistas de app.
Foto: Thiago Gadelha

Assim como as passageiras, as motoristas também possuem mecanismos de defesa no dia a dia. Danny atua na categoria participando de projetos que envolvem capacitação, saúde mental e empoderamento das colegas. Nessa rede de contatos, a condutora nos conta que sempre orienta as mulheres a avaliarem as condições dos passageiros e se manterem em contato durante as corridas. 

“Nós aconselhamos as meninas, em determinadas regiões, a não cometerem esse erro de colocar muitos homens dentro do carro e elas irem deixar em locais que são mais difíceis, porque isso é um alerta”, afirma. 

Como a motorista acrescenta, não tem como saber as circunstâncias em que aqueles passageiros se apresentam. “Você não sabe como está a mente das pessoas, se estavam vindo de uma festa, embriagadas ou drogadas. E você às vezes fica ali extremamente em condição de vulnerabilidade”, completa. 

“Já andei muito [em carro de aplicativo] na época em que minha filha estava grávida e não morava perto de mim. Tinha que ir, mas era me sentindo insegura. Eu ia segurando o trinco da porta caso ele passasse alguma coisa, eu não recebia bombom, nada dessas coisas. O medo é grande, mas infelizmente a gente tem que viver”
Lucieda da Silva Barbosa
Aposentada, 53 anos

Filtro de seleção para motoristas e botão de emergência

Danny afirma que as plataformas têm se mostrado interessadas e atuantes na prevenção da violência e promoção de formas de denúncias. “Se você demora muito, por exemplo, parada num determinado local com um passageiro, [a plataforma] pergunta logo se a gente está bem. Se apertar dizendo que não está, isso já deixa o aplicativo em alerta. Lá tem um botãozinho que a gente clica e que pode acionar o 190”, conta. 

O Diário do Nordeste entrou em contato com as principais plataformas que operam em Fortaleza — a Uber e a 99 — e também com a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), entidade que reúne empresas de tecnologia prestadoras de serviços. 

A Amobitec respondeu em nota em nome das empresas associadas, como 99, Amazon, Buser, Flixbus, Lalamove, Uber e outras. A entidade ressalta que a segurança de passageiras e motoristas parceiras é uma prioridade em suas operações. 

“As plataformas investem e trabalham continuamente para buscar cada vez mais proteção nas milhares de viagens que ocorrem diariamente por meio de ferramentas tecnológicas que atuam antes, durante e após cada percurso”, diz, em nota.

Entre as ações estão: 

  • Compartilhamento de localização com contatos de segurança;
  • Checagem de apontamentos criminais do motorista parceiro;
  • Botão de ligar para a Polícia;
  • Gravação de áudio;
  • Suporte disponível 24 horas por dia.

Em caso de ocorrências, as plataformas afirmam que orientam as usuárias a buscarem os canais de comunicação existentes para registro e apoio. Além disso, elas possuem equipes especializadas para colaborar com as autoridades nas solicitações de dados, respeitando-se a legislação relativa à privacidade.

“É importante destacar que, infelizmente, a violência de gênero é um problema estrutural no Brasil e que depende de vários atores trabalhando em conjunto para melhorar essa realidade”, completa a nota. 

Neste mês, a Uber anunciou que passageiras poderão escolher preferencialmente motoristas mulheres para as corridas em Fortaleza. Essa funcionalidade, que já está ativa na Capital, tem como objetivo ampliar opções de conforto e segurança para usuárias e também motoristas parceiras. 

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Já a plataforma 99 possui o “Modo Mulher”, que possibilita às motoristas receberem chamadas apenas de outras mulheres, e está em teste o “Filtro de Passageiro Homem”. Essa ferramenta ampliará a base de chamadas para passageiros pré-selecionados “a partir de critérios escolhidos pela condutora, como nota e volume de corridas realizadas”, disse a plataforma, em nota separada. 

A empresa reforçou que tem política de tolerância zero em casos de assédio e violência sexual e que, caso identifiquem algum risco, motoristas e passageiras podem acionar o botão de emergência do aplicativo para ligar diretamente para a Polícia. 

Além disso, afirma que possui “equipes especializadas que analisam o caso e garantem atendimento acolhedor às denúncias, 24 horas por dia, nos sete dias da semana” e uma equipe feminina treinada para o acolhimento à vítima. 

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72% se sentem inseguras no transporte público

Além dos transportes por aplicativo, a pesquisa “Mulher Coragem, os medos e demandas das mulheres cearenses por segurança” se debruçou sobre o uso de coletivos como ônibus, metrôs e VLTs no Ceará. Nesse caso, seja dentro dos veículos ou em locais de espera, como paradas e terminais, 72% das entrevistadas relatam sentir insegurança por serem mulheres e 8% disseram deixar de utilizar transporte público por esse motivo.

Esses números se refletem em relatos ouvidos pela nossa reportagem, que esteve no Terminal do Papicu, em Fortaleza, durante uma tarde deste mês. Em meio ao fluxo intenso de pessoas indo e vindo nas plataformas, conversamos com passageiras que driblam o medo para viver. 

Vista aérea de mulher em pé em parada de ônibus estrutural, segurando sacola. Ao fundo, um ônibus branco e azul passa em movimento (efeito de rastro).
Interior de vagão de metrô com assentos verdes. Uma mulher de cabelos cacheados e um homem estão sentados de costas, olhando pela janela.
Mulher de costas caminha por plataforma de metrô em direção ao trem. Outros passageiros aguardam sob o abrigo da estação, com relógio digital ao fundo marcando 10:24.
Legenda: Mulheres são 63% das passageiras de ônibus e 54% do público do metrô e VLT.
Foto: Fabiane de Paula.

“Lotar demais o ônibus às vezes coloca a nossa situação em risco. Porque, por exemplo, tem vezes que eu pego um ônibus que não dá nem para você se mexer. Você fica totalmente submetida a assédio, como o homem passar o órgão genital dele na gente”, contou a estudante Beatriz*, de 18 anos.

A jovem esperava pelo ônibus para voltar para casa e dedicou seu tempo para conversar sobre o assunto. Para ela, a insegurança passa muito mais pelas vulnerabilidades do corpo feminino do que pelos roubos ou furtos.

“Já aconteceu de eu sofrer importunação. Eu vinha antes pela passarela, parei de vir porque sofri assédio [...] Comecei a prezar pela minha segurança, então passei a ter que utilizar o Uber para eu não precisar sofrer isso. Tenho mais medo de ser assediada com certeza do que ser roubada, porque para mim você é roubado, tudo bem, mas você consegue outra coisa, mesmo que seja com mais sacrifício e tudo. Mas ser assediada mexe com o psicológico da pessoa que sofreu, muito mais além”, diz. 

Na amostragem total da pesquisa, o principal receio é o de ser assaltada, roubada ou furtada. Logo em sequência estão o receio de ser estuprada, agredida fisicamente e sequestrada. No recorte por faixa etária, os crimes sexuais são mais temidos entre as cearenses com até 34 anos. 

Foto em close das pernas de uma passageira sentada no metrô de Fortaleza; ao fundo, outra pessoa utiliza o transporte.
Legenda: Recentemente, passageiras do Metrô e do VLT puderam utilizar a ferramenta Nina, via Whatsapp, para denúncias de casos de importunação sexual.
Foto: Fabiane de Paula.

Do outro lado da plataforma, Fátima*, de 63 anos, também aguardava o transporte e topou participar da entrevista. Assim como Beatriz, ela foi vítima de importunação, no entanto, no próprio terminal de ônibus, há cerca de três anos.

“Fui assediada duas vezes, no mesmo local. O cara veio por trás, ficou [roçando] e eu me assustei. Nas duas vezes, ninguém fez nada. Simplesmente, fiquei apavorada, subi logo no ônibus e ele foi atrás de mim. Parecia que ele fazia parte do meu corpo. Uma semana depois, o cara estava no mesmo lugar e fez a mesma coisa”, relata.

“Acho que nós, mulheres, já fomos vítimas de algum caso semelhante desse tipo de violência. Primeiro, você fica ali em choque e às vezes não consegue [fazer algo]. Mas é importante fazer a denúncia para ser investigado e ocorrer a punição. Se não for uma prisão em flagrante, uma preventiva, uma prisão após sentença. Sem a denúncia, a pessoa vai seguir impune e vai continuar cometendo crimes.”
Rebeca Cruz
Delegada e diretora-adjunta do DPGV da PCCE

A aposentada Lucieda da Silva Barbosa faz parte dos 8% de mulheres que disseram deixar de utilizar transporte público por medo, conforme revelado pela pesquisa. “Deixei de trabalhar num lugar longe por causa disso [assédio nos ônibus]. Quando eu vinha no ônibus e vi, eu não tive mais coragem. Desisti […] Fiquei com medo da insegurança, de eu ter que ir todo dia naquele ônibus, naquele mesmo horário e acontecer”, relatou à reportagem.

Na época, ela fazia o deslocamento do Quintino Cunha ao Passaré, uma distância de cerca de 15 quilômetros. Ela estava em um coletivo quando presenciou uma importunação sexual contra outra passageira. “Sentada, eu vi o homem ficar roçando na moça, a moça afastava e ele insistia. Fica aquela coisa constrangedora, que constrange você”, diz.

“Você acaba querendo falar, mas ao mesmo tempo tem medo, porque hoje em dia a violência é grande demais. Eu me senti culpada, porque eu queria ter gritado, eu queria ter feito qualquer coisa e não pude”, completou a aposentada.

Para as mulheres que andam nos ônibus, além da sensação de insegurança, elas sentem a impotência quando se deparam com situações desconfortáveis e a percepção da impunidade dos agressores. São sentimentos que, inclusive, diminuem a ação de denúncia

Para 37% das cearenses ouvidas pela pesquisa, a impunidade dos agressores é um dos fatores que mais contribuem para a insegurança e a violência contra as mulheres no Ceará. 

“É [preciso] reforçar essa questão da denúncia porque, se a mulher pega ali aquele ônibus todo dia, acontece [um crime] e o agressor é preso, isso serve até como reforço educativo [...] De repente, outro que estava pensando em fazer ou que até já fez vai gerar esse medo de que realmente há punição”, orienta Rebeca. 

Em Fortaleza, a ferramenta Nina é um canal seguro e sigiloso para denúncias de importunação sexual ocorridas no transporte público. Recentemente, ela foi ampliada para as linhas de VLT e metrô que atendem Fortaleza, Caucaia, Maracanaú e Pacatuba. 

Ocorrências podem ser relatadas pelo WhatsApp da Super NINA, no número (85) 93300-7001.

Silhueta de mulher jovem com cabelo preso em um rabo de cavalo, vista através da janela de um ônibus urbano. A luz de fundo destaca seu contorno contra o vidro translúcido e a moldura escura.
Legenda: Seja no transporte individual por aplicativo, nos coletivos ou metrôs, mulheres do Ceará relatam a sensação de insegurança e medo.
Foto: Fabiane de Paula.

É importante que a vítima ou um terceiro que tenha presenciado alguma situação faça o detalhamento mais minucioso possível, como data, hora, local e circunstâncias da ocorrência, para identificar o agressor.

Segundo a Etufor, em 2026 até o dia 16 de março, foram 47 denúncias pela plataforma, só de casos ocorridos em ônibus. Entre as principais ocorrências estão: encoxar/apalpar (18), intimidação (2), perseguição (2), fotos não autorizadas (2) e outras não especificadas (15).

O presidente da Etufor, George Dantas, reforça que a plataforma Nina não precisa ser utilizada somente por mulheres. “Homens que também virem ali algum episódio de assédio, presenciarem alguma mulher sendo assediada, também podem relatar por uma ferramenta que está na palma da mão”, diz. 

Além da Nina, a iniciativa do Abrigo Amigo e ações voltadas para a melhoria do transporte público de forma ampla favorecem o surgimento de um ambiente mais seguro. “Por exemplo, temos um sistema que é muito preciso na questão da previsão do horário em que o ônibus passa. A mulher consegue se organizar para ir para a parada mais próxima da hora em que o veículo vai passar”, cita George.

Inaugurado em janeiro deste ano, o Abrigo Amigo consiste em um painel em que passageiros podem interagir com uma atendente ao vivo. Ao acionar o botão, os usuários iniciam uma videochamada para ter companhia, solicitar socorro policial ou de saúde. Realizado em parceria com a Claro e a Eletromídia, o projeto tem 50 abrigos espalhados pela Capital, com funcionamento das 20h às 5h.

Parada de ônibus iluminada à noite com totem digital vermelho exibindo Este é um Abrigo Amigo. Duas pessoas esperam sentadas sob a cobertura, enquanto um carro da Guarda Municipal aparece ao fundo.
Legenda: Fortaleza é a primeira capital do Nordeste a receber o projeto, que já teve 35 mil chamadas documentadas em todo o Brasil.
Foto: Ismael Soares

Em nota, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus) informou que segue diretrizes estabelecidas pela Etufor para atender demandas relacionadas ao enfrentamento da violência contra a mulher. Entre as iniciativas, se destaca a disponibilização da plataforma Nina no aplicativo Meu Ônibus Fortaleza, ferramenta que contribui para ampliar os canais de apoio e orientação.

Já a Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos (Metrofor) afirmou que desenvolve ações voltadas à segurança dos usuários, com atenção especial à proteção das mulheres que utilizam o sistema de metrô e VLT em Fortaleza e na Região Metropolitana.

Além do uso recente da ferramenta Nina, o sistema metroviário conta com equipes de segurança operacional que podem ser acionadas imediatamente em situações de violência. A orientação da Metrofor é que esses profissionais sejam acionados pelas vítimas de casos de importunação sexual em andamento ou por terceiros que presenciem. 

“Nesses casos, o suspeito pode ser detido e a Polícia Militar acionada para os procedimentos legais”, explica a companhia. 

*Os nomes das entrevistadas são fictícios por questão de segurança.

SERVIÇO

ONDE BUSCAR AJUDA

Ligue 180 para denunciar situações de violência contra a mulher.

Disque 190 em casos de emergência.

Disque 100 — Violência contra crianças e adolescentes

CASA DA MULHER BRASILEIRA

Em Fortaleza: Rua Teles de Sousa, s/n – Couto Fernandes, Cep: 60442-060

Fone: (85) 3108-2998 / 3108-2999 3108-2994 (administração)

E-mail: casadamulherbrasileira@gabgov.ce.gov.br

CASA DA MULHER CEARENSE

Juazeiro do Norte:
Av. Pe. Cícero, 4501, São José
(88) 98128-8071 | (85) 3106-3145 casadamulhercearense.cariri@mulheres.ce.gov.br

Quixadá:
Rua Luis Barbosa da Silva — Planalto Renascer
(88) 98957-2422 | (85) 3106-3202 casadamulhercearense.quixada@mulheres.ce.gov.br

Sobral:
Av. Monsenhor Aloísio Pinho, s/n — bairro Gerardo Cristino de Menezes
(88) 98959-7453 | (85) 3106-3185 casadamulhercearensesobral@gmail.com

Tauá:
Rua Antônio Carvalho Citó, S/N, bairro Planalto Nelandia, Tauá.