Praça do Ferreira volta a receber grama natural após críticas a grama sintética

A grama artificial havia sido instalada após a requalificação do espaço, entregue em novembro.

Escrito por Ana Alice Freire* ana.freire@svm.com.br
27 de Fevereiro de 2026 - 14:44
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Legenda: Especialistas apontam que a vegetação natural é essencial para a absorção de água e regulação do calor.
Foto: Thiago Gadelha

Após vários dias de críticas, a Prefeitura de Fortaleza retirou a grama sintética da Praça do Ferreira, no Centro, e substituiu o material por cobertura natural. O novo plantio foi realizado no último sábado (21).

A grama artificial havia sido instalada após a requalificação do espaço, entregue em 26 de novembro, embora a substituição não constasse no projeto original da reforma. A mudança provocou questionamentos de frequentadores, ambientalistas e especialistas, que apontaram impactos no conforto térmico.

Com a repercussão, o prefeito Evandro Leitão (PT) afirmou que voltaria atrás na decisão. “Eu irei trocar, não tem nenhum problema”, declarou em entrevista à Verdinha FM

O gestor reconheceu que havia autorizado o uso do material sintético considerando as condições climáticas da Capital. “Temos uma cidade com temperatura altíssima, com dificuldade de água e de operacionalizar a irrigação desses locais. Optei por colocar grama sintética tendo em vista essa realidade”, explicou. Ainda assim, reforçou: “não tenho dificuldade em mudar uma decisão”.

Período de adaptação

Em visita ao local nesta semana, a reportagem observou que a nova grama ainda passa por fase de adaptação, com alguns trechos apresentando aspecto ressecado.

O Centro de Fortaleza recebe atenção da Prefeitura para obras de revitalização.
Legenda: O Centro de Fortaleza recebe atenção da Prefeitura para obras de revitalização.
Foto: Thiago Gadelha

Em nota, a Secretaria Municipal da Infraestrutura (Seinf) informou que a aparência é comum no período inicial, quando ocorre o enraizamento das mudas no novo solo. A manutenção, segundo a Pasta, está sendo realizada pela Coordenadoria de Apoio à Governança das Regionais (Cegor).

Anteriormente, quando questionada sobre a escolha do material sintético, a Seinf havia afirmado que a decisão buscava “garantir maior durabilidade, praticidade na manutenção e melhor aproveitamento do espaço pelos frequentadores”. O projeto também incluiu o plantio de 26 árvores de espécies como Ipê-roxo e Pau-brasil, que devem ampliar a sombra e melhorar o conforto térmico à medida que se desenvolvem.

Sensação térmica divide opiniões

José Mário Xavier, gerente de 61 anos, trabalha em um dos estabelecimentos da praça e percebeu diferença imediata com o retorno da vegetação natural. Atraindo clientes para a padaria, passa boa parte do expediente na calçada, sensível à menor variação de temperatura.

“Você sentava ali nos bancos de madeira, a luz batia e refletia na gente. Esquentava muito. Com a planta natural, fica mais fresco e agradável”, relata. Para ele, o ambiente mais ameno contribui até para o movimento da freguesia.

Para o arquiteto Lucas Rozzoline, instalar grama sintética é como 'estender lonas de plástico pelo chão'. Ele destaca que, ao contrário das plantas naturais, esse revestimento acumula calor e impede que o solo realize trocas essenciais com o ecossistema.
Legenda: Para o arquiteto Lucas Rozzoline, instalar grama sintética é como 'estender lonas de plástico pelo chão'. Ele destaca que, ao contrário das plantas naturais, esse revestimento acumula calor e impede que o solo realize trocas essenciais com o ecossistema.
Foto: Thiago Gadelha

Já Reneide Castro, 63, vendedora ambulante há oito anos no Centro, diz que a mudança pouco alterou sua rotina. Protegida dos raios solares com roupas compridas e acessórios, afirma que o calor continua predominante.

“É concreto e cimento por todo lado. É calor em qualquer horário. A gente acaba tendo que lidar com vento e quentura”, resume.

Debate ambiental

Especialistas apontam que a grama natural exerce funções ambientais importantes, como absorção de água, troca térmica e amenização do calor, serviços que o material sintético não desempenha da mesma forma. Superfícies artificiais são mais indicadas para áreas esportivas ou de alto desgaste, onde uniformidade e resistência são prioridades.

Entrevistado na época da entrega da reforma, no início de dezembro, o arquiteto e urbanista Lucas Rozzoline, conselheiro federal do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) pelo Ceará, explicou que a escolha do material sintético é como “cobrir o chão com lonas de plástico. Ela retém calor e não realiza trocas ambientais como uma vegetação natural faria”. 

Além do impacto térmico, Rozzoline ressaltou na época que a grama sintética compromete a permeabilidade local. Por não filtrar a água com a mesma eficácia que a planta natural, o material acaba sobrecarregando o sistema de drenagem do Centro, uma área já densamente pavimentada.

A requalificação da Praça do Ferreira recebeu investimento de R$ 8 milhões, em parceria entre Prefeitura e Governo do Estado. A obra incluiu substituição completa do piso, travessias elevadas, reforma dos passeios com foco em acessibilidade, novos quiosques, restauração da fonte da Coluna da Hora e instalação de paraciclos.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo

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