Mobilidade urbana e saneamento lideram demandas da população de Fortaleza; veja na sua Regional
Mobilidade urbana, segurança viária, condições de trabalho no setor de transportes, acessibilidade, meio ambiente e saneamento básico são temas centrais para Fortaleza nos próximos quatro anos. São eles que concentram a maior parte das demandas que a população enviou ao poder público durante a elaboração do projeto de lei para o Plano Plurianual (PPA) de Fortaleza referente ao quadriênio de 2026 a 2029.
A consulta popular para a construção do PPA 2026-2029, que atualmente está tramitando na Câmara Municipal de Fortaleza e precisa ser votado até o fim do ano legislativo, ocorreu no último mês de abril e contou com 39 fóruns territoriais presenciais, além de uma plataforma virtual. Em todos eles, os cidadãos puderam avaliar iniciativas em 12 grandes temas, classificando as propostas como “pouco importante”, “importante” ou “muito importante”. Também houve espaço para manifestações livres, com sugestões de ações e políticas.
Os tópicos apresentados à sociedade foram:
- Acolhimento e Assistência a Populações vulneráveis;
- Cultura, Esporte e Juventude;
- Desenvolvimento da Gestão Pública e Governança;
- Desenvolvimento Urbano, Econômico e do Turismo;
- Educação;
- Geração de Emprego, Renda e Capacitação Profissional;
- Meio Ambiente e Saneamento Ambiental;
- Mobilidade, Acessibilidade, Transporte Público e Apoio a Profissionais;
- Moradia e Regularização Fundiária;
- Proteção e Bem-Estar Animal;
- Saúde;
- Segurança Cidadã.
O projeto de lei apresenta a quantidade de propostas enviada por moradores de cada regional de Fortaleza sobre esses temas. Com isso, é possível perceber demandas específicas de algum território, mas também questões sistêmicas, que perpassam por todas as regionais, em maior ou menor grau, como é o caso da mobilidade urbana e de questões ligadas a meio ambiente e saneamento.
Esta produção integra uma série especial veiculada pelo Diário do Nordeste com um diagnóstico do Plano Plurianual 2026–2029, investigando os desafios para o próximo ciclo de gestão e qual a Fortaleza planejada pelo Poder Público municipal.
As principais demandas populares
As características de cada localidade influenciam nas principais demandas dos moradores. Há locais com mais poluição, enquanto outros com mais necessidade de criação de empregos ou de acesso a equipamentos culturais. Mas um tema perpassa por praticamente toda a cidade: a necessidade das pessoas de se deslocar, pelos mais diversos motivos.
“O ideal seria que meu filho estudasse a, no máximo, uns 500 metros [de distância de casa], que eu trabalhasse a no máximo 1 km daqui. Eu podia fazer tudo a pé: vou trabalhar, volto para casa, não preciso nem de ônibus, nem de carro. Mas a cidade vai ficando toda compartimentada, então tem locais onde mora muita gente e não tem empregos, as pessoas têm que se deslocar”, afirma Mario Ângelo, professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC).
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Outro tema comum ao município de maneira geral é o meio ambiente. No contexto das mudanças climáticas em todo o mundo, somado ao cenário local em que Fortaleza já perdeu 84% da sua área verde original ao longo de sua história e tem 33% da população sem esgotamento sanitário, discutir esses problemas em documentos que norteiam políticas públicas é necessário para pensar qual a cidade a população terá no futuro.
Tudo isso leva a população a sentir as consequências, como o aumento das ilhas de calor e da impermeabilização do solo, que leva a enchentes e inundações. “Precisamos compreender que, para continuarmos crescendo enquanto cidade, precisamos achar soluções”, afirma Rafael Vieira de Alencar, professor de Legislação Urbana e Ambiental do Instituto de Arquitetura e Urbanismo e Design da UFC, ao defender a importância de medidas mais sustentáveis.
Essas urgências são perceptíveis entre as contribuições populares ao PPA 2026-2029. Segundo o documento, foram apresentadas 10,3 mil propostas por meio da plataforma online, e o eixo que recebeu a maior quantidade de proposições foi “Mobilidade, Acessibilidade, Transporte Público e Apoio a Profissionais”, com 1.672 (16% do total). Em segundo lugar está o tema “Meio Ambiente e Saneamento Ambiental”, que teve 1.418 contribuições, o equivalente a 14% do total.
Em seguida, aparecem as temáticas “Geração de Emprego, Renda e Capacitação Profissional” (1.086) e “Moradia e Regularização Fundiária” (1.068) — cada uma delas representando 11% de todas as contribuições enviadas pela população. Juntos, esses quatro eixos somam pouco mais de 5,2 mil propostas e concentram metade das 10,3 mil contribuições populares.
Em oito das 12 regionais, a mobilidade foi o tema mais citado. Nas regionais 3 e 5, o meio ambiente superou o transporte. Na Regional 12, esses dois temas empataram, recebendo 40 contribuições cada. Na 10, por outro lado, destoou: moradia e emprego lideram, somando mais de 60% das demandas.
Outras dificuldades
No território 28 de Fortaleza, composto pelos bairros Parque Iracema, Cambeba e Messejana, a demora dos ônibus — com a consequente lotação — é um dos principais problemas percebidos pela população quando se fala de transporte. Junto a isso, faltam outras opções para a locomoção, como metrô e vias adequadas para ciclistas e pedestres.
Essa realidade prejudica o acesso dos moradores ao local de trabalho ou a serviços essenciais, como escola e unidades de saúde. “As pessoas que precisam sair diariamente são as mais prejudicadas, por exemplo os estudantes e o trabalhador”, afirma Maria Irany de Oliveira, liderança comunitária e agente de relações comunitárias do território.
Esses são exemplos das principais demandas apresentadas pela Regional 6 durante o processo participativo, com 261 propostas enviadas sobre mobilidade e transporte. Sobre a segunda temática mais abordada no processo, Maria Irany aponta a falta de saneamento e o lixo em locais inadequados como os aspectos que mais incomodam a população.
“E tudo isso gera impacto negativo, afetando o meio ambiente. O problema da falta de drenagem também é muito sério, porque não acompanha o crescimento do lugar com novos imóveis, principalmente o comércio, deixando o solo impermeável”, destaca ela, que é vice-presidente da Associação Comunitária Amigos do Parque Iracema (Acapi).
Para a agente de relações comunitárias, porém, a adesão ao processo participativo é baixa e, com isso, grandes problemas existentes no território não entram no Plano Plurianual. “Algumas [questões] que a população cobra aqui no nosso território [são] mais creches, escolas de ensino fundamental mais próximas, moradia para população baixa renda e mais área de lazer”, elenca. Demandas culturais e de saúde também são destaques na Regional 6 e somam 323 propostas, quase 23% do total.
Já na Regional 10, que abrange bairros como Conjunto Esperança, Jardim Cearense, Maraponga, Parque Santa Rosa, Mondubim e Novo Mondubim, os temas que se destacam são moradia, com 420 propostas (36,1%) enviadas para o texto do projeto de lei, e geração de emprego, que recebeu 311 contribuições (26,7%).
Esse segundo aspecto é destacado pela agente de cidadania Silvania Maria, que é coordenadora do Movimento Orquídeas do Parque Santana. De acordo com ela, uma reclamação é a falta de acesso a vagas de emprego para jovens ainda sem experiência.
“As mulheres [também] são afetadas por conta da idade. Podem ter experiência, mas muitas vezes não são contratadas”, complementa. Além disso, a dificuldade de conseguir vagas em creches e escolas de tempo integral para os filhos impacta as mães, que não têm rede de apoio.
Nesse contexto, Silvania aponta a necessidade de o poder público fortalecer as ações de empregabilidade, com a criação de postos de trabalho nos bairros e qualificação profissional nos territórios.
O que é o PPA e como foi a participação popular?
O Plano Plurianual é um instrumento exigido pela Constituição Federal para União, Estado e Município. O documento orienta a implementação de políticas públicas em médio prazo, para o período de quatro anos e inaugura um novo ciclo de planejamento que será detalhado a cada ano, por meio da Lei Orçamentária Anual (LOA).
Ele organiza objetivos, programas e indicadores — que permitem avaliar os resultados alcançados —, ações e produtos, definindo os limites orçamentários de cada política pública. A Prefeitura também considerou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 e as demandas identificadas no processo participativo.
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A consulta à população ocorreu por meio de 39 Fóruns Territoriais presenciais, realizados pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento (Ipplan), e de uma plataforma virtual. Dividida entre a votação de iniciativas e manifestações livres, a participação social teve os propósitos de fornecer subsídios para a construção da LOA 2026 e coletar informações para a formulação das diretrizes populares que orientarão os programas e projetos do PPA 2026–2029.
A metodologia utilizada em Fortaleza também ampliou os chamados Orçamentos Temáticos, que permitem o acompanhamento de políticas públicas prioritárias e transversais, segmentando o orçamento em oito áreas estratégicas, como “Orçamento Criança e Adolescente (OCA)”, “Orçamento Mulher”, “Orçamento Idoso”, e “Plano Fortaleza Inclusiva (PFI)”.
Veja as principais ideias da população para cada tema debatido
O gráfico a seguir organiza as informações em temas, diretrizes e sugestões populares. Ao clicar nos círculos temáticos, vão aparecer as diretrizes abordadas em cada um deles.
Ao clicar pela segunda vez, em alguma diretriz dentro do eixo temático, é possível ver as principais ideias e sugestões da população para ela.
Por exemplo: no tema “Segurança cidadã”, uma das diretrizes é “Reduzir violência entre jovens”. As propostas para esse objetivo são:
- Oferecer cursos profissionalizantes, práticas esportivas e atividades culturais;
- Implementar programas de inclusão como Jovem Aprendiz e bolsas de estágio;
- Integrar políticas públicas de educação, saúde, cultura e segurança de forma intersetorial.
Explore o gráfico para conhecer todas as ideias populares que estão descritas no projeto de lei para o Plano Plurianual (PPA) de Fortaleza 2026-2029.