Mãe do menino Miguel, que morreu ao cair de prédio em Recife, tira 10 em TCC sobre escravidão
A ex-doméstica, que agora é assessora parlamentar, inspirou-se na própria tragédia para o trabalho
Cinco anos após perder o filho Miguel em um acidente fatal, Mirtes Renata Santana de Souza deu um passo importante na busca por justiça social. Nessa terça-feira (10), o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) dela sobre escravidão na contemporaneidade foi aprovado com nota máxima.
A ex-doméstica iniciou a graduação em Direito em 2020, e, há dois anos, trabalha como assessora parlamentar na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). Em entrevista ao g1, ela afirmou que pretende seguir carreira como advogada trabalhista e quer "se debruçar" na história de outras trabalhadoras.
"Foi bem difícil escrever esse TCC, porque eu trago a vivência de outras mulheres. Foi muito pesado ouvir as vivências delas, as narrativas com relação ao que elas viveram no trabalho doméstico, as inúmeras violações de direitos", declarou.
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A pesquisa de Mirtes se aprofundou nas histórias de Madalena Gordiano, que viveu 40 anos em situação análoga à escravidão, e Sônia Maria de Jesus, escravizada por 37 anos por um desembargador de Santa Catarina.
Para ela, o trabalho é bastante pessoal, pois foi escrito com base em experiências vividas por ela enquanto ainda era doméstica.
Trago um pouco sobre mim também, sobre o que vivi enquanto trabalhadora doméstica, e sobre as violações de direito que sofri. Não só eu, mas meu filho também. A maioria das mulheres que trabalham nessa área é formada por mulheres negras que vivem em vulnerabilidade social, econômica, que têm pouca escolaridade e infelizmente acabam passando por essas situações. Eu me vi muito nesse trabalho.
Relembre o caso do menino Miguel
Mirtes se inspirou na própria tragédia para a escolha do tema. Em 2 de junho de 2020, o filho dela, Miguel Otávio Santana da Silva, morreu ao cair do 9º andar do Edifício Pier Maurício de Nassau, uma das conhecidas "Torres Gêmeas", no Cais de Santa Rita, no Centro do Recife.
O menino, de apenas cinco anos, estava sob os cuidados de Sari Corte Real, ex-primeira-dama de Tamandaré, cidade no Litoral Sul de Pernambuco. Mirtes trabalhava para ela como doméstica, e, no momento do acidente, estava passeando com o cachorro da família.
A história foi amplamente repercutida. Anos depois do crime, Sari Corte foi condenada a oito anos de prisão por abandono de incapaz com resultado em morte. O Ministério Público de Pernambuco (MP-PE), que assina a acusação, entendeu que a ex-primeira dama não teve intenção de matar Miguel, mas agiu com negligência perante a criança.
Na semana passada, quando o caso completou cinco anos, Mirtes, em conjunto de movimentos sociais de combate ao racismo, organizou um ato público em memória à criança. A passeata aconteceu na entrada das "Torres Gêmeas", em Recife.
"Em novembro, o meu filho completaria 11 anos. Ele seria um pré-adolescente. Infelizmente, isso foi tirado de mim. Se fosse o contrário, já estaria resolvido. Eu já estaria presa se tivesse deixado a filha dela sozinha no elevador e terminasse da forma que terminou", refletiu Mirtes.
Próximos passos
Junto da aprovação do TCC de Mirtes, os próximos dias serão importantes para os desdobramentos do caso de Miguel. Até a próxima segunda-feira (16), o MP-PE deve se pronunciar sobre a decisão do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) que reduziu a pena de Sari Corte Real para 7 anos de prisão.
A defesa de Mirtes aguarda que o trâmite do processo seja concluído em Pernambuco para recorrer ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília. O Ministério Público também quer alterar a condenação da ex-primeira dama para homicídio, com o consequente aumento da pena.