Polícia Civil indicia freiras por tortura, maus-tratos e racismo em lar de idosas no RS

As duas freiras faziam parte de uma equipe multidisciplinar do Lar das Vovozinhas, em Santa Maria, mas foram afastadas de suas funções após denúncias realizadas em 2019

Imagem da fachada do Lar da Vozinha, onde as duas freiras atuavam
Legenda: O Lar da Vovozinha acolhe cerca de 130 idosas e completa 75 anos em outubro
Foto: Reprodução/Facebook

Duas freiras foram indiciadas pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul por suspeita de tortura, racismo e maus-tratos contra idosas do Lar das Vovozinhas, em Santa Maria, a cerca de 290 km da capital Porto Alegre. Conforme o jornal local GHZ, cerca de 130 idosas são acolhidas na instituição. 

As denúncias contra Terezinha Benetti, 76 anos, e Marli do Carmo Pena, de 59, foram realizadas em 2019, quando as religiosas ainda trabalhavam na instituição. Ambas foram afastadas de suas funções em uma equipe multidisciplinar em agosto do mesmo ano, por decisão do Ministério Público, e deixaram a cidade. 

De acordo com o jornal O Globo, as investigações apontam que as freiras submeteram pelo menos quatro idosas a torturas físicas e psicológicas entre os anos de 2018 e 2019. E, inclusive, os funcionários do lar testemunharam os maus-tratos.

"Indícios fortes" de, pelo menos, quatro vítimas

"Conseguimos ter indícios probatórios bastante fortes em depoimento de várias testemunhas, todas no mesmo sentido, confirmando as denúncias. Acreditamos que aconteceram mais fatos, mas conseguimos indícios fortes durante a instrução do inquérito em relação a quatro idosas que seriam as vítimas", afirmou ao O Globo a titular da Delegacia de Proteção ao Idoso, Débora Dias.

Dentre os vários episódios de abusos relatados às autoridades, existe um em que as freiras trancaram uma das assistidas nua no banheiro como castigo por ter perdido a chave de um dos quartos.

Em outra ocasião, uma das religiosas chegou a derrubar uma idosa da cadeira de rodas usando um jato d'água. As denúncias também citam o racionamento de produtos de higiene pessoal e até de curativos e suturas feitos de forma inadequada.

Racismo em evento promovido pelo lar

O caso de racismo ocorreu no ano de 2019, quando foi promovido um desfile entre as idosas do lar. Uma delas, porém, foi impedida de participar, devido a sua cor de pele e chegou a ser chamada de "negra fedorenta". 

"Duas pessoas que estavam visitando essa idosa foram conversar com ela, que estava chorando porque tinha sido impedida de ir ao evento. Ela foi impedida porque a religiosa disse que ela era negra e não podia se misturar com os brancos. É uma questão bem clara de racismo", frisou a delegada.

O Lar das Vovozinhas declarou que abriu uma sindicância para apurar as condutas das duas freiras.

Vice-presidente da instituição filantrópica, Liliane Mello também diz reconhecer "a história de trabalho da congregação católica aqui dentro do lar" e que o caso envolvendo as freiras se tratou de um "fato isolado". 

"Há a necessidade de a sociedade entender seu envelhecimento e cuidado dessas pessoas. Precisamos começar a falar de política pública para o idoso. Hoje, nossa equipe aumentou, e o lar prioriza a questão do cuidado e tem todo um olhar de treinamento e avaliação desse processo".

As religiosas foram procuradas pelo O Globo, mas não se manifestaram sobre o caso. 

Quero receber conteúdos exclusivos sobre o Brasil