Vacina da Pfizer produz menos anticorpos em pessoas de 80 anos do que em mais jovens, diz estudo

Resposta imune mais fraca de pessoas mais velhas é conhecida como 'imunossenescência' e esperada em vários imunizantes

Dois frascos de vacina da Pfizer em cima de superfície espelhada
Legenda: Análise foi feita com amostras de sangue de 176 pessoas de um centro de longa permanência para idosos
Foto: Patrick T. Fallon/AFP

Um estudo publicado em pré-print (prévia) indica que a vacina da Pfizer/BioNTech, contra a Covid-19, induz resposta imune mais fraca em pessoas com mais de 80 anos do em quem tem idade de 60 anos ou menos. A análise indicou que 31,3% das pessoas com mais de 80 anos não mostraram anticorpos contra o coronavírus até 19 dias após a segunda dose. Já 97,8% dos vacinados com 60 anos ou menos tinham os anticorpos.

Os dados da pesquisa, conduzida na Alemanha, foram aceitos para publicação e divulgados na forma de pré-print pela Oxford University Press. A análise foi realizada a partir de amostras de sangue de 176 pessoas de um centro de longa permanência para idosos.

Outros detalhes da pesquisa

Liderada pela doutoranda Lisa Müller, na Universidade de Düsseldorf, o estudo tem objetivo de avaliar a resposta imune humoral, ou seja, aquela formada por anticorpos, moléculas que impedem e bloqueiam a ação de um invasor no organismo humano.

A equipe comparou dois grupos com número aproximado de pessoas: 83 idosos de uma instituição de longa permanência, com mais de 80 anos, além de 93 cuidadores ou profissionais de saúde — neles, as idades eram menores que 60 anos. Todos foram imunizados na campanha de vacinação contra Covid-19 na Alemanha, no fim de dezembro de 2020.

A primeira amostra de sangue foi coletada entre 17 e 19 dias após a primeira dose da vacina da Pfizer; a segunda, 17 dias após a segunda dose.

No grupo de vacinados mais jovens, a grande maioria dos indivíduos já apresentava, logo após a primeira dose, anticorpos IgG específicos contra o coronavírus. A taxa média indicava 313 anticorpos por mililitro (ml). Em outros 2,3%, o resultado foi indeterminado, enquanto apenas 4,4% tinham quantidades menores que o limite.

Já no grupo dos mais velhos, quase 70% não apresentaram os anticorpos IgG acima do limite detectável, à medida que 9,4% ficaram indeterminados.

Com 17 dias após a segunda dose, a quantidade de anticorpos IgG nos mais jovens aumentou dez vezes, e nenhuma das pessoas vacinadas com menos de 60 anos mostrou taxa de anticorpos inferior ao limite esperado. Já 10,6% dos participantes mais velhos, mesmo com um aumento na taxa média de IgG, ainda não tinham produzido anticorpos acima do limite.

Anticorpos neutralizantes

Os anticorpos neutralizantes — que impedem a entrada do vírus nas células e são tidos como um dos principais aliados do corpo para rapidamente bloquear futuras infecções — também foram medidos. Nos dois grupos, a produção dessas moléculas foi muito abaixo do limite após a primeira dose.

Após a segunda dose, os resultados diferiram: 97,8% dos vacinados com menos de 60 anos tinham esses anticorpos no sangue, enquanto 68,7% dos mais velhos o produziram.

No entanto, 31,3% dos participantes com idade acima de 80 anos nunca tiveram esses anticorpos detectados, o que pode indicar que eles não se tornaram totalmente protegidos contra a Covid-19, pelo menos por resposta humoral.

Imunização menor de mais velhos é esperada

A resposta imune mais fraca de pessoas mais velhas em comparação a mais jovens é esperada, ocorrendo com muitas outras vacinas, não apenas com as antiCovid. A imunidade mais baixa na vacina contra a gripe, por exemplo, já é conhecida, sendo controlada em parte com as ações de vacinação a cada ano.

Esse fenômeno é chamado de imunossenescência e pode ser parcialmente explicado, segundo o artigo, por:

  • 1) capacidade reduzida do corpo a responder contra novos antígenos, como são chamados os corpos estranhos reconhecidos pelo sistema imune, associada a uma baixa quantidade de linfócitos B, que produzem anticorpos;
  • 2) capacidade reduzida de produção dos linfócitos T, de memória;
  • 3) inflamação crônica persistente do organismo, condição encontrada também em pessoas com obesidade.

Os três fatores, porém, não são comuns a todas as pessoas e não aparecem apenas em indivíduos mais velhos — pode, sim, ocorrer com mais frequência nesse segmento populacional. Em razão disso, as pessoas de mais idade são mais suscetíveis a doenças infecciosas e têm maior dificuldade de proteção por vacinas.

Necessidade de imunização

Embora os resultados da pesquisa indiquem como a vacina induziu a resposta imune numa amostra pequena, é importante destacar que o sucesso das campanhas de vacinação depende não apenas da proteção individual — a imunidade coletiva também é necessária.

Quanto mais pessoas vacinadas, menor é a chance de o coronavírus de encontrar um indivíduo ainda desprotegido e sujeito à doença. Com o tempo, o vírus não consegue achar um hospedeiro suscetível e acaba desaparecendo.

A estratégia é fundamental para proteger não somente as pessoas com uma resposta imune mais fraca, mas também as imunodeprimidas, que não podem receber a vacina.

Eficácia da vacina da Pfizer

Por outro lado, a vacina da Pfizer mostrou um alto índice de eficácia em ensaios clínicos, chegando a 95%. Valores ainda maiores foram obtidos em estudos de efetividade, quando se avalia a taxa de proteção na vida real.

Além disso, a alta capacidade da vacina em prevenir casos sintomáticos, graves, hospitalizações e até mortes por Covid-19 foi confirmada em estudos realizados em Israel, Reino Unido e Estados Unidos.

Um estudo feito com quase 6 mil profissionais de saúde em Israel apontou ainda para a alta eficácia do imunizante contra casos assintomáticos, que chega a 86%. Em razão disso, existe uma boa expectativa de que, caso pessoas com idade acima de 80 anos contraiam o vírus, tenham infecções assintomáticas ou leves mesmo que a taxa de anticorpos produzidos pós-vacina em seja menor.