E se a mãe fosse negra?

Foi possível ver a prática do racismo contra os filhos (Titi e Bless) de Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso. Como mãe sua reação foi proteger seus filhos negros, e isso não fora associado à violência.

Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank
Legenda: Giovanna Ewbank disse ter agredido mulher que cometeu racismo contra Titi e Bless
Foto: Reprodução TV Globo

É preciso descolonizar o olhar na sociedade brasileira quanto aos corpos femininos, desconstruir imaginários discriminatórios das mulheres, em particular das negras, pois reproduzem violações de direitos nas esferas do trabalho, no campo dos afetos e na família.

O modo como as mulheres negras são tratadas se dá a partir das imagens e representações construídas historicamente delas como agressivas, raivosas, “loucas” e destemperadas, e/ou de um erotismo exacerbado. São discursos dominantes que operam como verdade, cuja base de sustentação estar no colonialismo e na escravidão.

Desde cedo as crianças negras vivem experiências dos ataques racistas. Fato que expõe suas mães a enormes desafios no cuidado e proteção. O exercício da maternidade torna-se um dilema numa sociedade racializada, em que benefícios e desprestígio são distribuídos entre os grupos raciais.

Uma das preocupações das mães de filho/as negros/as no passado e hoje é como instrui-los sobre a existência e efeitos do racismo, informa-los que serão alvo de constantes situações vexatórias, constrangedoras e ameaçadoras. Cabe a explicação quando e se podem ou não reagir, isso porque a população negra tende a ser vista como culpada, antes de uma análise do contexto em que se dá a violência racial, podendo rapidamente deixar de ser vítima tornando-se vilã.

As práticas de racismo comprometem o desenvolvimento saudável na infância, retira a inocência com brevidade. Acresce os efeitos na representação que essas crianças passam a ter de si com imagem odiosa, devido ao controle de como devem ser, de que não são boas, nem bonitas e importantes. Impactando na construção da identidade racial.

Foi possível ver a prática do racismo contra os filhos (Titi e Bless) de Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso. Como mãe sua reação foi proteger seus filhos negros, e isso não fora associado à violência. Ela pertence ao grupo racial que pode reagir e combater o crime do racismo. E que bom que o fez.

E se a mãe fosse negra poderia sair em defesa dos filhos? A sociedade e suas instituições iriam ouvi-la? Ou se instalaria um episódio de humilhação, de considera-la agressiva demais e incompetente para tratar o tensionamento racial, sobressaindo a imunidade dos racistas?

A resposta exige um olhar que compreenda a forma como as mulheres e mães negras ao cuidarem de seus companheiros/as, irmã/os ou filho/as, a faz sempre em meio às construções contraditórias, pejorativas, desde a imagem da mãe preta exemplo de amor, bondade e dedicação aos filhos que não são os seus, das mucamas que durante o escravismo tivera a função no sistema produtivo acumulada com a prestação de serviços sexuais até as babas e empregadas domésticas na atualidade. São representações manipuladas a depender do contexto.

As imagens negativas que posiciona as negras no lugar da subserviência e da desumanização precisam ser transformadas em representações positiva que as validem como sujeitas com direito de reagir ao racismo.

“Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor”.