Priorizar a vacinação de motoristas de ônibus é também uma questão política

A reivindicação da categoria, mais do que justificável, evitaria desgastes políticos locais

Greve dos ônibus em Fortaleza
Legenda: Durante a greve, houve apenas redução da frota em circulação na Capital
Foto: Fabiane de Paula

A greve dos motoristas e cobradores de ônibus em Fortaleza durou, por enquanto, apenas um dia - deflagrada na última terça-feira (8), ela foi suspensa no dia seguinte até a próxima terça (15) -, mas, além das reivindicações salariais, uma pauta se destaca na mobilização da categoria: a inclusão dos trabalhadores do transporte coletivo na lista dos grupos prioritários para vacinação contra a Covid-19. 

Até pouco tempo atrás incluídos na fase 4 do plano de imunização em execução no Estado, eles perderam lugar na fila da vacina quando a Comissão Intergestores Bipartite do Ceará (CIB-CE) autorizou alguns municípios, entre eles a capital cearense, a avançar na campanha de vacinação para o público geral.  

Na sexta-feira (11), após uma série de cobranças da categoria, o assunto voltou a ser discutido em reunião da CIB-CE. A Comissão manteve a decisão, apesar da defesa do pleito levada à reunião pelo Ministério Público do Trabalho no Ceará (MPT-CE).

O início da vacinação da população abaixo dos 59 anos é, sem dúvida, uma excelente notícia. Toda a sociedade ganha com a aceleração da aplicação de doses – e no Ceará têm havido esforços do poder público para isso. Mas a espera dos motoristas e cobradores, expostos ao novo coronavírus nas ruas desde o início da pandemia, deveria ser repensada.  

Ao todo, foram retirados da fase 4 trabalhadores de cinco categorias: 

  • Trabalhadores do transporte coletivo rodoviário de passageiros;  
  • Trabalhadores de transporte metroviário e ferroviário;   
  • Trabalhadores de transporte aquaviário;  
  • Caminhoneiros;  
  • Trabalhadores industriais. 

Outros seis grupos foram priorizados na mesma fase: 

  • Pessoas em situação de rua; 
  • Trabalhadores da educação do ensino básico (creche, pré-escolas, ensino fundamental, ensino médio, profissionalizantes e EJA); 
  • Trabalhadores da educação do ensino superior; 
  • Trabalhadores de transporte aéreo; 
  • Trabalhadores portuários; 
  • Funcionários do Sistema de Privação de Liberdade. 

Ao Diário do Nordeste, ainda quando da retirada das cinco categorias da fase 4, a Secretaria da Saúde do Ceará explicou que a decisão de antecipar a vacinação da população em geral foi tomada pela CIB-CE para "dar maior celeridade à aplicação das doses e uma amplitude maior de público, com objetivo de proteger parcelas da população com maior incidência de internações e óbitos pela doença". 

Peso político

De acordo com a Pasta, "mais da metade dos casos graves de Covid-19 no Ceará ocorre em pessoas entre 50 e 60 anos". Além disso, afirmou a Secretaria, a vacinação da população em geral “não inviabiliza as aplicações de doses nos grupos prioritários anteriores”.  

Objetivamente, a preço de hoje, porém, a atuação profissional de motoristas e cobradores de ônibus representa tanto risco quanto a de trabalhadores de outros setores que foram devidamente priorizados. 

Há, portanto, além dos critérios técnicos envolvidos na decisão, um peso político na questão. Por que vereadores e deputados apresentam enxurradas de projetos para incluir outros grupos na lista de prioridades? A grande maioria não tem êxito nos pleitos, mas cada proposta é uma resposta a pressões de categorias diversas sobre seus interlocutores nos parlamentos.  

O mesmo se vê, semanalmente, nas mobilizações de bastidores que antecedem os anúncios dos decretos estaduais de isolamento social. Todos os segmentos querem ser atendidos.

Não ceder às cobranças tem seus ônus, mas a crise sanitária mostrou várias vezes que este é um preço a ser pago. Ao mesmo tempo - não que seja fácil conciliar tantos interesses -, as reivindicações de alguns setores, até aqui, prevaleceram sobre as de outros. 

Sinalização necessária

Em uma audiência, realizada nesta semana, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus) informou que faria um levantamento de quantos dos cerca de 9 mil trabalhadores do transporte público na Capital ainda aguardam a vacinação.

Com os dados em mãos, o titular da Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), Ferrucio Feitosa, se comprometeu a dialogar com a área responsável pela campanha de imunização em Fortaleza. 

Apesar da sinalização, a última reunião da CIB-CE cravou decisão que parece irreversível. Não deveria ser. Afinal, trata-se de uma reivindicação mais do que justificável, que evitaria, inclusive, desgastes políticos locais.

A vacina tem mesmo que chegar a todos o mais rápido possível, mas, até lá, trabalhadores de serviços essenciais que não puderam ficar em casa desde o início da pandemia - outro exemplo são os que trabalham nos supermercados - merecem, sim, prioridade.