Sonho quase perdido: Pio e as 'batidas perfeitas' para superar as dificuldades no início da carreira

O volante cearense fez a sua base no Corinthians, onde se profissionalizou e alcançou conquistas importantes por Fortaleza e Ceará

Jogador Pio comemora gol de falta pelo Fortaleza
Legenda: Pio teve importantes passagens por Fortaleza e Ceará
Foto: JL Rosa

Qualidade na batida, jogador técnico e alguns acasos ritmam a vida e carreira do cearense Pio, cria do bairro Aerolândia. O volante começou no futsal e logo migrou para o futebol de campo, na tradicional fonte de talentos do Estação, do Antônio Bezerra. O acaso, logo cedo, levou Pio para o Corinthians, principalmente pela característica que consolidou a carreira do atleta: a bola parada.

Em 2004, eu estava treinando e vieram uns olheiros do Corinthians para observar jogadores. Nesse tempo, eles acabaram gostando de mim e me levaram. O curioso é que eles vieram para observar três jogadores, mas um deles faltou e na época, eu jogava de zagueiro. Na falta desse atleta, o treinador me colocou para jogar no meio-campo de volante, eu fiz dois gols... um de falta e outro de longa distância, aí foi onde ele me escolheu e fui para São Paulo com 14, 15 anos de idade.

Mas a história começa antes. Pio teve a "infância perdida", porque desde cedo queria ser jogador e precisou lutar pelo sonho. Hoje, aos 33 anos, Pio nunca foi registrado pelo pai, o único apoio vinha da mãe, que precisou desempenhar os dois papéis. Diante da dificuldade, o volante era o caçula entre mais de dez irmãos, onde precisou, muito cedo, assumir um protagonismo para tentar melhorar a vida da família.

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Quando Pio foi para o Corinthians, era um mês de testes para saber se tinha condições de ficar em São Paulo e, em somente dez dias, o cearense foi aprovado e finalizou a sua formação de base para se profissionalizar pelo Timão, mas nunca atuou no time principal. Após isso, por muito pouco, não perdeu a carreira promissora para as armadilhas desse "novo mundo" chamado futebol e fama.

"Eu saí de uma comunidade, família muito humilde e de repente você está entre um dos maiores clubes do Brasil. Você não ganhava nada e passa a receber dois mil reais... cabeça fraca, não tinha uma pessoa para me orientar e aquela estrutura ao meu redor. Com aquele dinheiro, você acaba recebendo alguns convites, amizades e era bebedeira, mulherada, principalmente quando eu estava de férias em Fortaleza. Eu bebia bastante... chegou um determinado momento que eu não tava aguentando, eu com 19, 20 anos não tava suportando as cargas de trabalho. As noites mal dormidas, farra, bebida, meu sonho estava morrendo. Precisei tomar uma decisão e larguei tudo, entrei na igreja e foi a minha mudança. Agradeço a minha esposa, depois veio meu filho e aí, de fato, me tornei um atleta profissional."

Gols, títulos e o sufoco da Série C

Pio saiu muito cedo e nunca teve oportunidade de jogar no estado. Ainda em 2014, o volante recebeu convite do Marcelo Paz, que conhecia o Pio quando era garoto, jogando futsal na AABB. Era a primeira oportunidade para jogar na terra natal e foi a primeira contratação do clube, que não foi bem recebida pelo torcedor.

"Eu me apresentei ainda em dezembro daquele ano... quando anunciaram a primeira contratação do Fortaleza para 2015 e eu fui ver os comentários dos torcedores, só me detonando: 'de onde vem esse doido?' Aquilo foi um desafio pra mim. Em um amistoso de apresentação contra o Maranguape, fiz dois golaços e dei meu cartão de visita, a partir dali, o torcedor entendeu que eu poderia ajudar o clube".

Pio esteve no momento histórico do gol de Cassiano, fundamental na eliminação do Flamengo na Copa do Brasil e sendo decisivo na classificação. Neste ano da Copa do Brasil, o Fortaleza se destacou com o treinador Marquinhos Santos e próximo à decisão da Série C do Brasileiro, ele simplesmente 'largou' o Fortaleza e aceitou a proposta do Figueirense.

"O Marquinhos era o treinador padrão da Série A, o nosso time estava em uma crescente, encaixado e muito bem, naturalmente fica mais visado. Veio o contato do Figueirense e ele aceitou, foi um baque! O atleta e o grupo já vinham entrosados, naquela sequência, naquele esquema tático e você recebe a notícia que seu comandante tá saindo, véspera de uma decisão. Não é fácil. Ficou aquela ansiedade de quem viria, quem daria continuidade de trabalho... aí veio o Hemerson Maria com outra filosofia, mas ele não mudou nada, porque não teve tempo. Ele não teve culpa de nada, porque o tempo foi muito curto".

Chegada ao Ceará e acesso para Série A

Volante Pio acena para o fotógrafo durante treinamento no Ceará
Legenda: Pio vestiu a camisa do Ceará em 2017, depois de passagem marcante por Fortaleza
Foto: Kid Junior

Após as frustrações com o tricolor, o ciclo encerrou e Pio acabou jogando o Campeonato Paulista pela Linense. Mas em 2015 mesmo, ainda no Fortaleza, o Ceará buscou uma forma de contratar o volante. Ao fim de 2015, também, mas Pio preferiu continuar no Leão. Entre alguns assédios, Pio tomou uma postura diferente antes de acertar com o Alvinegro.

Em 2016, o Ceará me convidou mais uma vez para jogar lá, mas quis renovar com o Fortaleza. Ao fim de 2016, o Ceará me procurou mais uma vez e eu disse que não iria sair direto para o maior rival. Até poderia, mas precisava jogar por outro clube e se houvesse interesse, eu jogaria lá. Em 2017 eu fui para a Linense, jogar o Campeonato Paulista. Então o Ceará me procurou mais uma vez, porém, antes, o Fortaleza tinha me feito convite, mas não chegamos a um acordo salarial. O Ceará me mostrou um projeto de querer o acesso, ir para Série A, então acabei aceitando o convite.

Pio fez gol na final do estadual em 2018 diante do Fortaleza para conquistar o cearense, mas o grande momento do volante foi o gol inesquecível diante do Figueirense, que "pavimentou" o retorno para Série A.

"Eu sempre tive essa facilidade de bater na bola. Apesar do dom, eu sempre treinei, sempre busquei aprimorar. Eu conhecia o Saulo (goleiro do Figueirense) e ele me conhecia, então ele montou a barreira no lado contrário, fechando todo espaço. Mas se eu batesse por cima, colocado, ele ia pegar aquela bola. Então pensei que era o último lance, custava nada arriscar, então fui 'quebrando' para o lado direito e bati forte... mas foi algo de Deus, pelo amor de Deus! A curva que fez e bater na 'bochecha' da rede, no lado contrário! Foi maravilhoso, um dos gols mais importantes da minha carreira".