Mediação: o exercício coletivo do diálogo

Legenda: Para que haja diálogo eu preciso reconhecer o outro, a existência de outra pessoa.
Foto: Foto: Fabiane de Paula

Recebi, esta semana, a visita de uma jornalista que trabalhava na produção de uma reportagem especial sobre mediação de conflitos. Ela chegou a mim após visitar a comunidade do Pirambu e conhecer a experiência sobre mediação que iniciamos no bairro no final dos anos de 1980. Durante nossa conversa, voltei àquele tempo que ainda hoje me alegra e emociona. 

A mediação, projeto sobre o qual me debrucei nos anos 80, é algo que ainda hoje percebo como solução para os conflitos sociais, mas vejo também como um exercício para nosso dia a dia. E vejam vocês, a mediação é a compreensão do diálogo como promoção de paz. É o exercício de falar e, sobretudo, de escutar. 

O projeto surgiu em um tempo em que as brigas de vizinhança e outros tantos problemas ditos domésticos eram resolvidos nas delegacias. A criação dos núcleos no Pirambu, bairro que registrava, naquele período, altos índices de violência e tinha uma demanda reprimida de conflitos a serem resolvidos, foi uma ideia ousada de colocar frente a frente duas pessoas que não mais se entendiam para falar sobre o motivo das desavenças. 

Era a valorização do diálogo e a solução a partir do que poderia ser bom ou possível para ambas as partes. Era uma construção racional de vontades e opiniões. Era a vontade de viver em paz. Chamo aqui atenção para esse desejo de paz. 

Temos vivido tempos em que o diálogo está cada vez mais difícil. A intolerância é crescente e as redes sociais pouco ajudam nesse sentido. Por trás da tela, as pessoas sentem liberdade para dizer o que bem entendem, sem medo de ofender. Diria até que, muitas vezes, esse é o objetivo. Há pouca disposição para ouvir e, ao mesmo tempo, muita necessidade de ser ouvido. Mas o diálogo é isso: uma via de mão dupla, uma troca entre duas ou mais pessoas. Só se fala quando também se ouve. 

Para que haja diálogo eu preciso reconhecer o outro, a existência de outra pessoa. E quando isso acontece, é possível agir sem violência e desenvolver a empatia. Neste dezembro, mês oficial da empatia, de um ano tão conturbado, desejo que possamos desenvolver nossa empatia e exercitar nossa capacidade de ouvir.  

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.