Bom dia a todas, todos e todes

Legenda: Como defensora de direitos, compreendo que a saudação a todas, todos e todes é um exercício de respeito, no qual o todos existe
Foto: FABIANE DE PAULA

Bom dia a todas, todos e todes! Quem já me acompanhou em algum evento público, sabe que é assim que costumo iniciar minhas falas. Depois de repetido algumas vezes, esse cumprimento - feito por mim, uma mulher de mais de 70 anos - virou uma simpática referência à minha presença em solenidades. “Como diz a doutora Socorro, bom dia a todas, todos e todes”, brincam. Confesso que muito me alegra essa referência.

Como defensora de direitos, compreendo que a saudação a todas, todos e todes é um exercício de respeito, no qual o todos existe, reconhecendo a população masculina como nossos aliados por uma sociedade igualitária, mas deixa de ser um neutro universal. Com o todas, quero respeitar a luta de nós, mulheres, para sermos visibilizadas nos mais diversos espaços. Com o todes, reconhecemos que há pessoas que não querem nem precisam escolher o artigo definido que virá antes de seu nome. Pois que assim seja!

A inclusão passa pela linguagem, pela palavra a ser usada com as outras pessoas. Por isso a linguagem neutra é tão importante. É sobre como uma pessoa quer ser reconhecida, como se vê no mundo e como quer existir. Nesse sentido, festejei a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendendo lei do Estado de Rondônia que proibia a denominada linguagem neutra na grade curricular e no material didático de instituições locais de ensino, públicas ou privadas, e em editais de concursos públicos. 

O ministro observa que a lei de Rondônia “a pretexto de valorizar a norma culta, acaba por proibir uma forma de expressão".  O ministro também explica que o uso da linguagem neutra ou inclusiva visa combater preconceitos linguísticos, que subordinam um gênero a outro. Para Fachin, é difícil imaginar a compatibilidade entre essa proibição e a liberdade de expressão garantida constitucionalmente.

Há quem possa achar essa discussão uma bobagem, “coisa de jovens”, podem dizer. Mas ainda que fosse, por que proibir essa atualização? A língua é viva e está em permanente renovação. Que nossos pensamentos sejam capazes de acompanhá-la. E que com pequenos gestos como o bom dia a todes possam incluir mais pessoas em nossas vidas, em nossos universos.



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