Cultura também é política pública de habitação
Teatro Contêiner Mungunzá é exemplo de ocupação cultural
No último dia 19 de agosto, vi imagens assustadoras circulando na internet. As cenas eram de artistas sofrendo violência policial em um processo de desocupação do Teatro Contêiner Mungunzá, em São Paulo. Por um momento, não sabia se estávamos mesmo em 2025, porque as imagens lembravam muito o tratamento dado a artistas na ditadura militar, o que torna tudo ainda mais preocupante.
Se você está perdido no assunto, te explico: em 2017, no coração da Luz, perto da Cracolândia - territórios muito conhecidos pelo viés da violência e da degradação - nasceu um teatro, um espaço de alívio, de pulsação de vida no lugar onde a capital paulista, muitas vezes, só enxerga exclusão, droga e miséria.
Um espaço que trouxe para o bairro um olhar de criatividade, de afeto, de beleza e de possibilidade cidadã.
Com uma arquitetura muito própria, o Contêiner é uma referência nacional e internacional de exemplo de ocupação cultural em área de vulnerabilidade. Para além do acesso à cultura e formação de plateia, o modelo aberto, modulável e feito para convidar pessoas (e não para afastá-las da arte) colocou esse lugar como um agente de visibilidade para debates sobre moradia, direitos humanos e políticas urbanas integradas à cultura.
Veja também
A ONG Tem Sentimento, liderada por mulheres que vivem ou viveram em situação de rua, estabeleceu uma parceria constante com o teatro, ocupando um anexo do Contêiner e criando ações de acolhimento para essa população.
Além da redução do estigma desse território, há também toda uma cadeia de geração de empregos diretos e indiretos para técnicos, artistas, produtores e donos de pequenos comércios no entorno, como bares, lanchonetes e estacionamentos.
Em maio, o Contêiner foi notificado que precisaria deixar o lugar para que a prefeitura criasse um “hub de moradia social”. Entre idas e vindas de “negociações”, inclusive, com a proposta feita pelos artistas de o mesmo prédio habitar o teatro e o hub, nesta semana, a polícia tentou expulsar à força os agentes da cultura. Depois da ação violenta ser criticada, a gestão deu um novo prazo de 60 dias para a desocupação.
Ninguém é contra a criação de habitação popular, mas este parece mais um processo de gentrificação do governo de São Paulo. Retirar o Contêiner dali em nome de uma revitalização que não dialoga com as vidas desse território é ignorar que foi justamente esse espaço de cultura que ajudou a ressignificar essa região, que mostrou que a arte e a convivência podem transformar territórios estigmatizados.
Talvez, para muitos, mostrar um terreno “ocupado irregularmente” sendo transformado em moradia pode gerar um ar de eficiência e compromisso da gestão. Talvez aceitar a permanência do Teatro Contêiner pode ser lido como uma fraqueza do prefeito e por isso a insistência nessas ações descabidas, mas o fato é que nenhuma política de opressão até hoje conseguiu realizar o que esse teatro fez na Luz e na Cracolândia.
Mais do que um equipamento, artistas são trabalhadores. E quando a resposta do poder público é o cassetete, o gás de pimenta ou a remoção brutalizada, o que se revela não é a força, mas a fraqueza de um Estado que ignora que a cultura também é política pública de habitação, de saúde, de segurança, de educação e dignidade.
*O texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor