Crise mundial de fertilizantes faz frutas e hortaliças ficarem até 40% mais caras no Ceará

Produtividade de alimentos, como tomate e milho, por exemplo, pode ser afetada

Legenda: Frutas devem ficar mais caras por conta da redução de produtividade
Foto: Natinho Rodrigues

Se a vida do consumidor tem sido complicada em 2021, a previsão é de que as coisas não mudem tanto de patamar em 2022. Por conta de mais um problema nas cadeias globais já está faltando fertilizantes no Estado, o que deverá aumentar o preço de produtos agrícolas, como frutas e hortaliças, nos próximos meses.

A elevação do valor de revenda pode ser em média de 40%, dependendo das condições de mercado no futuro. 

De acordo com o presidente eleito da Federação da Agricultura do Estado do Ceará (Faec), José Amilcar Silveira, o preço dos produtos no Ceará já estão subindo consideravelmente por conta dos efeitos negativos na produtividade gerados pela falta de fertilizantes.

Como boa parte desse insumo entra no mercado cearense por importação e a procura por ele cresceu muitos nas últimas semanas, considerando o cenário mundial, muitos produtores estão tendo dificuldade para garantir a compra de fertilizantes. 

Isso deve afetar a produtividade de alimentos como tomate e milho, por exemplo, que estão passando por uma movimentação de alta de preço. Segundo Amilcar, a saca do milho passou de R$ 37 reais para R$ 83 nas últimas semanas. Além disso, este cenário deve gerar uma alta média 40% no preço dos alimentos no Ceará. 

"80% do fertilizante que chega no Ceará é importado e com o aumento do dólar e o aumento da procura no mundo como um todo, nós estamos tendo uma falta desse insumo por aqui. Quando as pessoas começaram a aumentar a produção, até pela viabilidade econômica que temos hoje com a recuperação das economias após os picos da crise, considerando principalmente de frutas de hortaliças, houve um aumento da procura por fertilizantes no mundo inteiro, aí criou-se esse cenário", explicou. 

"Não há risco de se faltar alimento na mesa do consumidor cearense, mas corre o risco do produtor ter de plantar áreas sem fertilizante, o que reduz a produtividade do alimento e isso eleva o preço", completou. 

Variação cambial

Além da questão da alta de demanda mundial, Amilcar ressaltou que a desvalorização do real frente ao dólar também tem afetado a vida dos produtores no Ceará.

Como boa parte dos fertilizantes é importado de países como Rússia, Marrocos, China e Estados Unidos, o custo acaba sendo aplicado em dólar. Quando a moeda americana se valoriza, a tendência é que os fertilizantes fiquem mais caros e elevem o custo de produção no Estado. 

"Tudo é em dólar. Nossos fertilizantes vêm da Rússia e do Marrocos, principalmente, mas também da China e dos Estados Unidos em menor número. Tudo encarece pelo dólar, se há uma falta de produto e uma crise com dólar alto, as coisas acabam ficando mais caras", explicou Amilcar. 

Redução da produção

Outro fator que favorece o desabastecimento de fertilizantes no Brasil é a redução de produção em fábricas de China, Índia e alguns países da Europa por conta da crise energética.

De acordo com Lindomar Vieira, agrônomo e diretor comercial do grupo Terra Fértil, as fábricas de fertilizante na China estão produzindo apenas em um turno por dia, para compensar a falta de carvão para abastecimento das usinas de energia no país.

Com isso, a quantidade do produto disponível no mercado também caiu consideravelmente, fazendo com que os preços subissem. 

De acordo com o diretor comercial, em média, os fertilizantes ficaram 205% mais caros, o que deve elevar o custo de produção de alimentos no Brasil.

Se um produtor gastava entre R$ 4 mil e R$ 5 mil por hectare de milho no Ceará, segundo Vieira, hoje se gasta entre R$ 6,5 mil e R$ 7 mil. A movimentação de preços também um dos fatores que pode ajudar a encarecer os alimentos nas prateleiras dos supermercados no próximo mês.

Outro ponto relatado pelo representante do grupo Terra Fértil é que, com a demanda mais alta no mercado mundial, apenas as grandes empresas estão conseguindo antecipar compras no Brasil, já que a inciativa depende de recursos extras que muitos pequenos e médios produtores não possuem.

Além disso, o mercado brasileiro está tendo de competir com empresas internacionais, que muitas vezes são subsidiadas pelos governos de seus países para garantir o abastecimento de fertilizantes.

"Os Estados Unidos e a Ásia entraram compraram e os governos lá subsidiam esses produtos não têm como competir, porque eles entram forte comprando por um preço maior, mas essa é uma janela que o Brasil precisa mais de produtores", disse Vieira.

Instabilidade em 2022 

O presidente da Faec ainda ressaltou que a previsão é que a situação relacionada aos fertilizantes no Ceará se estabilize apenas em 2023, o que deve manter uma tendência de encarecimento dos alimentos durante o próximo ano, gerada pela redução de produtividade.

"Só em 2023 que regulariza. Nós podemos produzir sem fertilizante, mas isso pode pressionar o preço. Não vai faltar alimento, mas as coisas devem ficar mais caras", comentou.

Garantir da produção nacional 

O presidente eleito da Faec ainda comentou o Brasil precisa aprovar a exploração da mina de fosfato e urânio em Santa Quitéria para conseguir garantir a autossuficiência na produção de fertilizantes.

O objetivo da iniciativa seria de evitar a entrada do País e do Estado em crises de desabastecimento como as sentidas neste ano, considerando os fertilizantes.  

"Aqui no Ceará, existe o fosfato que pode ser explorado na mina de Itataia, e o Brasil precisa ser autossuficiente na produção de fertilizante. Precisamos aprovar a exploração da mina para poder focar na produção de fertilizantes. Isso ajudaria muito nosso mercado", defendeu Amilcar. 



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