Não há Egito sem Nilo, nem Cariri sem Chapada do Araripe

Quem é do Cariri vive mergulhado numa cultura que vai além do que se come e bebe.

Escrito por
Paulo Henrique Rodrigues (o Ph) producaodiario@svm.com.br
Legenda: Grande paredão da Chapada do Araripe fotografado na trilha do Açudim do Belmonte.
Foto: Paulo Henrique Rodrigues.

Neste agosto de muito calor e nada de chuva, os moradores do Cariri foram informados sobre o plano de manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe. O ICMBio autorizou a possibilidade de produção agropecuária em quase 90% desse território, que é uma unidade de conservação criada justamente para garantir desenvolvimento sustentável. Houve condicionantes, mas mesmo assim é assustador o que parece surgir no horizonte.

A decisão é mais um passo de um movimento econômico silencioso que parece ter escolhido o platô do Araripe como uma nova fronteira agrícola brasileira, algo que tem sido comparado ao que já acontece em outras regiões do país, notadamente o Centro-Sul e o Norte, e até mesmo no Nordeste, como o Oeste da Bahia e o Sul do Piauí, onde hectares viram monocultura.

Acontece que esses investidores talvez ainda estejam por entender que o Cariri é uma terra de gente que tem na Chapada do Araripe o sentido da sua vida. E que isso é algo enraizado. Quem mora aqui nasce, vive e, se possível, morreria apreciando o horizonte emoldurado num paredão sempre verde, mesmo durante a seca inclemente. 

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As pessoas passam os fins de semana em sítios, muitos deles na Chapada do Araripe. Nossas trilhas estão entre as mais frequentadas, sendo destaque nacional para a prática do ciclismo dentro da vegetação.

Nós gostamos de tomar banho na bica da Nascente, na cachoeira do Lameiro, no Açudim do Belmonte, nos clubes Serrano e Granjeiro. Nós temos o prazer de mergulhar nas fontes do Caldas, em Barbalha. 

Digo um pouco mais: quem vive no Cariri gosta de roer o pequi da Serra, que nasce na Chapada do Araripe, e do Arisco, que brota das árvore remanescentes entre Crato e Juazeiro do Norte.

A gente tem caju e maracujá nativos, jaqueiras espalhadas pela Chapada do Araripe, macaxeira e abacaxi plantados por agricultores familiares.

Quem é do Cariri come feijão de todo tipo, o comprado no supermercado e também verde e andu. Soja aqui o povo tira é onda. Da última vez que foi oferecida em escola pública, virou meme de merenda sem futuro.

Quem é do Cariri entende

Quem é do Cariri vive mergulhado numa cultura que vai além do que se come e bebe, que já é algo essencialíssimo. As manifestações culturais são ligadas ao território, resultado dos nossos ancestrais que ocupavam a Chapada do Araripe.

A dança do coco da Mestra Maria de Tiê do Quilombo Souza em Porteiras, o reisado de Mestre Aldenir da Vila Padre Cícero do Crato e as rezas e benzimentos de Mestra Zulene Galdino, da Vila Novo Horizonte, também no Crato, que, inclusive, aprendeu a rezar com a Caboclinha da Mata. 

Sim, o Cariri tem as suas próprias entidades, que são da floresta, além de ser a região proporcionalmente mais católica do Brasil, tendo dado todo um aspecto particular à religião romana.

Além da Caboclinha da Mata, já ouviu falar no Vim Vim, o pássaro falante da floresta? Não é o soldadinho-do-Araripe, nossa ave-símbolo, endêmica do Cariri. Esse outro, que seria ouvido por humanos extremamente conectados com a floresta.

Fotografia aérea tirada da janela de um avião (com a ponta da asa visível à esquerda) mostrando a vasta extensão da Chapada do Araripe. Destacam-se áreas urbanizadas, estradas, terrenos agrícolas e trechos de vegetação nativa sob céu claro com poucas nuvens.
Legenda: Da janela do avião, a Chapada do Araripe (ao fundo), a cidade do Crato e o canal do Cinturão das Águas.
Foto: Paulo Henrique Rodrigues.

Logo, é absolutamente esperado que os moradores do Cariri mobilizassem uma robusta resistência contra o anúncio da autorização de uso da Chapada do Araripe para a produção agrícola.

Após a repercussão negativa, o ICMBio publicou nota informando que o plano de manejo não é uma autorização do agronegócio. Explicou que foram decididas condicionantes importantes com a proibição de plantio de transgênico e pulverização aérea de defensivos agrícolas.

O que será feito da Chapada?

Não é o bastante. A sociedade está mobilizada. O que se quer é entender o que realmente está sendo feito, se será feito e de que forma isso realmente pode atingir a Chapada do Araripe, já por demais cicatrizada pela especulação imobiliária. São muitas perguntas que precisam ser respondidas:

Por que ocupar o platô da Chapada do Araripe se municípios como Brejo Santo, Mauriti e Missão Velha já teriam essa vocação econômica? Por falar nisso, ficam no leste do Cariri a BR, a transposição e a transnordestina.

A produção no platô não poderia consumir água lá em cima e causar escassez aqui embaixo, prejudicando os produtores na Bacia do Rio Salgado?

É realmente estratégico plantar mais commodities se o maior comprador, que é a China, acaba de anunciar no seu plano plurianual que pretende reduzir a importação de alimentos? 

Por que não se criam mais reservas ambientais e quem sabe um parque nacional que proteja integralmente nascentes e remanescentes produtores de água?

Se esse investimento for feito, o que vai ser plantado? Quem são os investidores? Há incentivo fiscal para isso? Vai gerar emprego? Quantos? Como serão os salários?

Como fica o plano de ter a Chapada do Araripe reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO? Foi esquecido e ninguém avisou ou vão tentar conciliar? É possível?

São muitas questões e essas foram elaboradoras por mim, que não sou nem ambientalista, nem economista, mas são óbvias e feitas por alguém que cobre a este lugar há bom tempo e que sempre se surpreende com as particularidades do Cariri, que fazem dessa região uma das mais notáveis do país.

Termino esta crônica sugerindo ao paciente leitor um clássico: "O Cariri", de Irineu Pinheiro, que estou relendo na sua edição de letra miúda da Edições UFC, que me inspira o título, uma ideia perfeita do que do Cariri e dos humanos que aqui vivem.

"Lê-se em Heródoto que o Egito é um produto do Nilo e egípcios são os que bebem as águas do grande rio. Parodiando o historiador grego, podemos dizer que o Cariri é um presente da Chapada do Araripe e caririenses os que lhe bebem as águas das nascentes, as quais originaram as cidades do extremo sul do Estado e as têm feito progredir."

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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