Ceará faz história na Olimpíada de História

Estado coleciona vitórias em disputa que mistura conhecimento, pesquisa, leitura e trabalho coletivo.

Escrito por
P.A. Damasceno producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 16:20)
Legenda: Das 64.187 equipes que iniciaram a competição, apenas 353 chegaram à final presencial. Destas, 135 eram do Ceará — quase quatro em cada dez finalistas.
Foto: Acervo pessoal

Na semana em que a educação do Ceará virou pauta e manchete nas disputas pela presidência e pelo governo estadual, um feito reafirma o quanto nossas escolas, públicas e privadas, se destacam na realidade educacional do país: a participação do Ceará na final presencial da 18ª Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB).  

Há imagens que se repetem todos os anos quando chega a final da ONHB: estudantes de diferentes partes do País desembarcam em Campinas (SP) com malas, cadernos, expectativas e muitas histórias para contar, ouvir e partilhar. Entre eles, uma presença que já deixou de ser surpresa: a “ruma” de cearenses ocupando a Unicamp.

Em 2026, na 18ª edição da ONHB, essa presença ganhou números impressionantes. Das 64.187 equipes que iniciaram a competição, apenas 353 chegaram à final presencial. Destas, 135 eram do Ceará — quase quatro em cada dez finalistas. 

Mas talvez o mais interessante esteja justamente naquilo que os números não conseguem explicar.

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O que é a ONHB? 

A ONHB é uma prova criada pelo Departamento de História da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) pensando em uma história que rompesse com o senso comum da memória e reprodução de datas e personagens. 

Ao longo de cinco fases, estudantes trabalham em equipe e precisam interpretar documentos, fotografias, mapas, textos, obras de arte e diferentes fontes. É preciso pesquisar, conversar, desconfiar, comparar informações e construir coletivamente uma resposta.

É uma competição que cresceu enormemente. A prova é hoje o maior projeto de extensão da Unicamp, que começou sua 18ª edição com mais de 64 mil equipes de todos os estados brasileiros. Apenas 0,5% das equipes que começaram a disputa chegaram a Campinas e garantiram as medalhas de cristal. 

Apenas 0,1% ganham as medalhas de bronze, prata e ouro. É uma das disputas acadêmicas mais difíceis do país.

Para chegar a Campinas, é necessário atravessar sucessivas etapas de uma disputa que mistura conhecimento, pesquisa, leitura e trabalho coletivo.

Chegar a Campinas é uma grande conquista para equipes e estados e o Ceará tem consolidado esse espaço de forma consistente e firme.

O sucesso cearense não nasceu em 2026. Desde 2013, o Ceará ocupa a liderança no número de convocados para a final e de medalhistas. É uma trajetória construída por professores – que incorporaram a Olimpíada ao cotidiano escolar, a suas vidas e ao processo de formação e estudo – e por estudantes que descobriram outra forma de estudar História.

Faço parte desse grupo de professores e, talvez por isso, seja difícil falar da ONHB apenas como competição. Há uma dimensão social que merece atenção na ONHB. 

Por exemplo, este ano, entre os 135 finalistas cearenses de 2026, estavam equipes de escolas públicas. Estudantes de seis escolas da rede estadual participaram de um aulão preparatório coletivo no Liceu do Ceará, espaço marcado pela memória e pela história das lutas estudantis. Ali, mais do que preparar-se para uma prova, compartilharam dúvidas, estratégias e sonhos.

A final presencial tem uma intensidade que não cabe em planilhas: lágrimas, gritos, danças, abraços e encontros entre pessoas que provavelmente jamais se conheceriam fora dali.

A ONHB ensina a aplaudir o outro

Este ano, por exemplo, dividimos o hotel com uma equipe de Tarauacá, no Acre. A professora levava consigo um abacaxi de dez quilos, típico de sua terra — um assombro para quem, como eu, nunca tinha ouvido falar da “terra do abacaxi gigante”.

Quando aquela equipe, a única do Acre na disputa, recebeu sua medalha, o Ceará vibrou como se a conquista fosse nossa. Porque, de algum modo, era.

Alunos se abraçam em quadra lotada
Legenda: O sucesso cearense não nasceu em 2026. Desde 2013, o Ceará ocupa a liderança no número de convocados para a final e de medalhistas.
Foto: Divulgação\ONHB

Foi assim que Acre e Ceará se aproximaram, como já havia acontecido com equipes de Júlio de Castilhos, no Rio Grande do Sul; Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte; Coari, no Amazonas, e tantas outras cidades. A Olimpíada ajuda a dimensionar o País que os livros, muitas vezes, escondem: diverso, complexo e cheio de histórias.

É talvez esse o maior mérito da final presencial: unir um País tão disperso por meio de uma História comum, sem apagar as diferenças locais.

Quando estudantes pesquisam, por exemplo, a Dança dos Parafusos, em Sergipe, e percebem nela formas de resistência à escravidão, descobrem também que a história de suas famílias e comunidades faz parte da História do Brasil.

Uma experiência que precisa crescer

Em 18 anos, a ONHB tornou-se um importante espaço de renovação do ensino de História, aproximando a disciplina de temas como memória, patrimônio, diversidade, cidadania, povos indígenas, mulheres, justiça e cultura material, mas, aos 18 anos, a ONHB também enfrenta seus próprios desafios, políticos e econômicos. 

Problemas internos e externos existem e muitos deles refletem problemáticas da própria educação brasileira. Com verbas e orçamentos sequestrados por emendas do Congresso, a ciência tem sofrido e precisa de atenção. 

Para que mais jovens cheguem à experiência da final presencial, em especial os de escola pública, políticas devem garantir verbas às competições científicas e as redes de ensino devem se adequar a uma educação que não cabe mais no modelo tradicional. 

A vitória do Ceará precisa ser comemorada e ampliada. Para além da campanha política, a celebração dos números cearenses nas provas de humanas, exatas e nas mais diversas modalidades é fruto de muitas mãos que partilham mais do que disputam. 

Quem acredita na educação deve valorizar o que multiplica não o que divide, e isso é uma lição das humanidades não da matemática. 

Que venha a ONHB 2027. Vida longa à ciência e ao ensino de História.

No fim das contas, talvez esse seja o maior legado da Olimpíada: fazer o estudante perceber que a História não é uma coleção de páginas já escritas. Ela é feita de perguntas. E o Ceará parece ter aprendido muito bem a fazê-las.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor. 

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