Economia e ciência: por que investir em pesquisa?

O crescimento econômico de longo prazo não depende apenas da construção de pontes, estradas ou máquinas.

Escrito por
Ítalo Henrique producaodiario@svm.com.br
Legenda: A grande maioria dos dispositivos que são indispensáveis para nossa vida cotidiana é fruto de anos de pesquisa básica.
Foto: Elements Interactive/Pexels.

Quando é necessário realizar cortes no orçamento público, um dos primeiros investimentos pensados por alguns representantes políticos é a ciência, até porque é uma área em que não se tem retorno imediato e cujos resultados podem aparecer quando seu mandato já tenha acabado, por exemplo.

Até mesmo durante as propostas eleitorais, o investimento em ciência é um dos últimos a aparecer no discurso - e quando aparece. Mas será mesmo que a pergunta certa é “o quanto custa investir em ciência?” e não “o quanto custa não investir em ciência?”

As maiores potências mundiais construíram sua base econômica a partir do investimento contínuo em tecnologia e inovação científica. Isso porque o crescimento econômico de longo prazo não depende apenas da construção de pontes, estradas ou máquinas automotivas sem inovação: ele depende do conhecimento.

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Na prática, isso significa que, quando um cientista descobre um novo medicamento, uma nova vacina, um novo algoritmo ou uma técnica de plantio mais eficiente, o impacto disso não é apenas na ciência e na sociedade, mas também na economia e no desenvolvimento do país.

A grande maioria dos dispositivos que são indispensáveis para nossa vida cotidiana é fruto de anos de pesquisa básica que se transformaram em ciência aplicada, como os celulares, resultantes de estudos sobre semicondutores, permitindo que os nanochips desenvolvidos a partir dessas pesquisas funcionassem sem a necessidade de grandes estruturas ou de estarem conectados a computadores de grande porte.

A vacina contra a Covid-19 é outro exemplo: é fruto de décadas de pesquisa em RNA que permitiram que, diante da necessidade de um desenvolvimento urgente, ela fosse criada em tempo recorde por pesquisadores.

O GPS, que hoje é fundamental para nos locomovermos e nos encontrarmos em uma cidade nova, também é fruto de décadas de pesquisa em física e ciência espacial.

Além disso, o investimento em pesquisa também não se apresenta apenas como lucro direto: ele pode se manifestar na forma de economia de recursos.

No caso do desenvolvimento de vacinas ou de cirurgias cada vez menos invasivas, evitam-se hospitalizações que, consequentemente, se refletem em menos gastos para o sistema de saúde e também melhoram a qualidade de vida da população.

Pesquisas sobre meteorologia e questões ambientais ajudam a evitar desastres ou a se preparar para eles, contribuindo para reduzir a perda de vidas, danos a patrimônios e os impactos de eventos que podem ser irreversíveis para as comunidades afetadas.

No Brasil, esse tema é ainda mais importante e é cercado por importantes questões a serem debatidas. Existem universidades, principalmente públicas, e centros de pesquisa que são referência nacional e internacional em diversas áreas, como agricultura tropical, produção de biocombustíveis, exploração de petróleo em águas profundas, imunização, saúde pública, entre outras.

No entanto, essas instituições vivem instabilidades em seus orçamentos, podendo contar com bons investimentos em um momento e, em outro, não.

Essa instabilidade é um dos principais fatores responsáveis pelo fenômeno conhecido como “fuga de cérebros”, em que pesquisadores brasileiros altamente capacitados, com níveis de formação de mestrado e doutorado, acabam indo embora para outros países em busca de mais oportunidades e estabilidade na carreira, diante das inseguranças que enfrentam no Brasil.

Por isso, investir em ciência não é apenas uma questão intelectual e cultural, é uma questão de desenvolvimento econômico e estratégia de crescimento.

Investir em ciência é investir em futuros melhores para os jovens brasileiros, para a economia, para a saúde, para o trabalho e para o fortalecimento de políticas públicas, da agricultura, da indústria e da capacidade de evitar ou se preparar para futuras crises, sejam elas econômicas ou ambientais.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor. 

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